Portugal na cena internacional, 1960-61


Portugal na cena internacional, 1960-61

Josep Sanchez Cervelló

O projecto ultramarino do Estado Novo implicava que Portugal se mantivesse nos territórios coloniais a todo o custo, mas essa política de resistência ao movimento descolonizador acabou por se revelar desastrosa para Portugal e para o próprio regime.
A hostilidade ao Governo de Lisboa intensificou-se no período 1956-1960, à medida que novos países asiáticos e africanos passaram a fazer parte da ONU. A mudança essencial acabou por acontecer em 1960, quando o número de países afro-asiáticos e comunistas ultrapassou as presenças dos países ocidentais e seus aliados. A ONU converteu-se então no porta-voz das exigências dos países do Terceiro Mundo e em calvário para a política portuguesa, especialmente para a sua componente colonial.
Os primeiros incidentes concretos deram-se quando a União Indiana, em Julho de 1954, ocupou os enclaves de Dadrá e Nagar-Averi, dependências de Damão. Este ciclo prosseguiu em 1960, quando o Forte de São João Baptista de Ajudá foi ocupado pelo Daomé, para desembocar, já em 1961, no início da guerrilha em Angola e na ocupação, pela União Indiana, de Goa, Damão e Diu, no termo desse ano.
Ainda nos finais de 1960, a Assembleia-Geral da ONU aprovou três resoluções relativas à política colonial portuguesa no sentido de conseguir que Portugal cumprisse as disposições da Carta da ONU. A grande maioria dos países apoiou estas resoluções, tendo Portugal ao seu lado apenas o Brasil, Bélgica, França, África do Sul e Espanha, enquanto se abstinham os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. De forma geral, de aqui em diante, Portugal dispôs cada vez de menos apoios.
A eleição de Jânio Quadros como presidente do Brasil, em Outubro de 1960, e de John Kennedy como presidente dos Estados em Novembro do mesmo ano, ambos partidários da emancipaçâo colonial, viria a aprofundar o isolamento do regime português.
A debilidade das posições de Lisboa voltou a manifestar-se na reunião do Conselho de Segurança de 21 de Fevereiro de 1961, efectuada debaixo do impacte da sublevação angolana. Pela primeira vez os Estados Unidos votaram contra Portugal, enquanto a Grã-Bretanha e a França se abstiveram.
A intransigência de Salazar acabou por levar os Estados Unidos a apoiarem, secreta mas firmemente, o golpe de Estado encabeçado pelo ministro da Defesa Nacional, Botelho Moniz, em Abril de 1961. Aliás, este, conhecendo as dificuldades técnicas e financeiras das Forças Armadas e de Portugal, bem como a situação do conflito argelino e de outros casos semelhantes, pretendia considerar a hipótese de uma independência serena do ultramar, defendendo os interesses de Portugal, mas reconduzindo a política colonial aos princípios da Carta das Nações Unidas. Neutralizado o golpe e expulsos do poder os sectores renovadores das Forças Armadas, a política de resistência reforçou-se, apesar da hostilidade, cada vez mais acentuada, da ONU e dos países da NATO.
Com a crise dos mísseis de Cuba em pleno desenvolvimento (Outubro de 1962), o papel geo-estratégico dos Açores saía reforçado, e Portugal não deixou de usar esse trunfo.
Os resultados desta situação não se fizeram esperar e logo na Assembleia-Geral de Dezembro os Estados Unidos se abstiveram na resolução que condenava Portugal, sendo secundados pela França, Grã-Bretanha, Austrália e Nova Zelândia, e ainda por grande parte dos aliados da NATO. Iniciava-se com esta atitude uma inflexão da posição dos Estados Unidos relativamente à política colonial portuguesa, o que permitiu claro alívio da pressão internacional sobre Portugal e levou a ditadura a reforçar a sua vocação de resistir, pensando e insistindo que o tempo jogava a seu favor .


Índice
1 - Portugal na cena internacional, 1960-61
Multi-média
» General Botelho...
» Angola discutida...
» O dirigente...