Resistências


Resistências

David Martelo

Os acontecimentos ocorridos, em Luanda, em 4 de Fevereiro de 1961 - e, principalmente, os massacres de civis brancos, negros e mestiços cometidos pela UPA, no Norte de Angola, a partir de 15 de Março do mesmo ano - causaram na opinião pública metropolitana portuguesa um choque profundo. A crueza das fotografias publicadas na imprensa, objectivadas pelas imagens difundidas via televisão e noticiários cinematográficos, foram capazes de mobilizar um forte sector da população para a política de «resposta» que o Governo entendeu empreender, especialmente após o falhado golpe militar do general Júlio Botelho Moniz.
Para essa grande adesão ao socorro de Angola contribuía também a circunstância de só recentemente a oposição ao regime do Estado Novo se ter começado a manifestar como igualmente adversa à manutenção das colónias. Mas, mesmo entre os anti-salazaristas, não faltavam os que se mantinham fiéis à ideia de um Portugal pluricontinental.
O prolongamento da guerra, no entanto, iria ser fatal para o regime saído da revolução de 1926. De facto, não foi necessário muito tempo para se poder constatar que o destino da ditadura se encontrava indissociavelmente ligado aos sucessos da política ultramarina.
As manifestações de desesperança, relativamente ao rumo trilhado pela nação, materializam-se em atitudes de variadas tonalidades.

O povo humilde procura reencontrar a esperança no futuro na aventura da emigração (quadro ao lado). No entanto, os jovens em idade própria vão na sua maioria cumprir o serviço militar nos territórios ultramarinos. Os que se recusam a fazê-lo preferem a falta à inspecção (quadro ao lado) - conjugada ou não com a emigração - à deserção após a incorporação.
Os jovens provenientes da população escolar, potenciais candidatos à carreira das armas, fazem também significativa manifestação de não adesão aos ideais do regime, procurando cada vez menos o ingresso nas escolas de formação de oficiais (quadro ao lado), exactamente quando as necessidades e facilidades de acesso eram maiores.
Por fim, os que resistiam politicamente ao salazarismo apareciam à luz do dia, nos intervalos de maior abertura política proporcionados pelas campanhas eleitorais, com os primeiros manifestos de desacordo no tocante aos destinos do Império. No início, de forma prudente e ainda pouco explícita, tornavam públicas algumas das linhas mestras de uma nova política ultramarina, sublinhando:
«Parte-se da afirmação de princípio de que o esquema das relações Metrópole-Ultramar, repudiando qualquer manifestação de imperialismo colonialista, subordinar-se-á ao objectivo de assegurar os direitos fundamentais dos povos no plano político, económico, social e cultural. Por consequência, um tal esquema visará a imediata institucionalização da vida democrática, sem discriminação racial ou política, para todos os territórios e todos os povos, tirando da autenticidade do funcionamento das instituições democráticas todas as consequências morais, económicas e políticas».
[Programa para a Democratização da República de 31 de Janeiro de 1961.]

Mais tarde, por ocasião das eleições de 1965, a oposição ao regime divulgava um manifesto ao país, em cujo texto se transcreviam alguns excertos de uma carta enviada meses antes a Salazar pelos signatários do documento:
«Sustentamos a tese de que o problema ultramarino não pode ter a solução militar que está em curso, no decorrer da qual o País se esvai, com perda de vidas preciosas num alcance imprevisível e sob a ameaça do descalabro económico, entravado, por seu lado, das melhores e mais prestantes iniciativas da grei. Sustentamos que, sem demora, é a solução política com base no princípio da autodeterminação, processada por métodos democráticos, aquela que se requer. Ela se nos impõe à consciência de homens livres, que pretendem ser do seu tempo e que julgam fenómeno irreversível a descolonização e a dignificação dos povos colonizados, lealmente auxiliada e compreendida pelos próprios que, no passado, os colonizaram...».
[ Manifesto ao País e representação ao Presidente da República dos candidatos da oposição, em 1965.]

O Estado Novo não deixava passar em claro este tipo de manifestações. Os que assim discordavam da política do Governo eram invariavelmente apodados de «traidores à Pátria», «comunistas a soldo de Moscovo» e rotulados com outros labéus do mesmo estilo, que como tal eram entendidos no seio de grande parte da população.
Diga-se, em abono da verdade, que esta táctica - apoiada na total ausência de liberdade de opinião e no efeito dissuasor da polícia política - foi responsável pela pesada abstenção em que a maior parte do povo português mergulho durante os treze anos de guerra.
Mesmo a Igreja Católica, na sua globalidade, não conseguiu subtrair-se aos desígnios totalitários do regime, silenciando o que devia denunciar e aceitando as perseguições a que eram votados os poucos clérigos que ousaram discordar, como foi o caso de D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto. Não admira, portanto, que esse silêncio se tenha conjugado mal com a audiência concedida pelo Papa Paulo VI, em 1970, aos líderes dos movimentos que combatiam Portugal em África. Ora tal facto iria revelar-se de extrema importância no acordar da consciência de muitos cidadãos.
Mas se a ditadura lograva bloquear a oposição, também é verdade que, apesar do total domínio da imprensa, rádio e televisão, o apoio visível à continuação da guerra pouco passava da retórica discursiva em ocasiões pretensamente solenes, de que a grande massa dos cidadãos se alheava silenciosamente.

O proclamado princípio de que «a Pátria não se discute, defende-se!» continha em si todos os condimentos da alienação, que ajudam a explicar «a espantosa mistura de inconsciência e bravata com que possuímos sem de todo possuir, e perdemos sem de todo o perder, pois não o tínhamos, esse "império" cuja essência histórica e imortal foi para Camões a razão mesma do seu canto» (Eduardo Lourenço).
Para completar a política de afastamento mental dos Portugueses a respeito dos problemas do Ultramar, a guerra primava pela ausência nos noticiários da televisão, na rádio e nos jornais, situação que contrastava vivamente com o que se passava, contemporaneamente, nos Estados Unidos, relativamente à guerra no Vietname.Para a maioria dos portugueses, as imagens de televisão de um país em guerra não existiam.
Não admira, por isso, que fosse voz corrente que «a guerra não acabava porque os militares não queriam», pretendendo-se com isso insinuar que o conflito era materialmente proveitoso para os militares do quadro permanente. Esta ideia embora profundamente injusta para a esmagadora maioria dos militares visados - constituía em si mesma uma conclusão com alguma lógica dada a evidência das ligações das Forças Armadas ao poder político. Esqueceram-se os próceres do regime de que as instituições militares tendem a identificar-se com o povo donde emanam e que são tão avessas a trair a Pátria como a suportar o desamor dos seus concidadãos.



Índice
1 - Resistências
Multi-média
» Congresso da...
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» Emigração
» Faltosos à inspecção
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