A viragem


A viragem

António José Telo

Portugal entra relutantemente para a NATO, numa altura em que ainda pensa que a Europa se tem de unir estreitamente com a África e regressar aos valores tradicionais, como forma de recuperar parte do seu peso anterior. Lisboa compreende já que a Inglaterra perdeu grande parte do seu poder, o que obriga a tentar algum tipo de aproximação com os EUA, mas acha que o secular aliado é ainda a principal referência no que diz respeito à manutenção do império. Em termos da Europa, Portugal aproximou-se da Espanha no pós-guerra e tem uma série de acordos com o país vizinho que consideram várias hipóteses, incluindo a defesa mútua dos regimes em caso de golpe de Estado num dos países.
A entrada na NATO é encarada com fortes reservas pelo país, pois teme-se a maior dependência em relação aos EUA que ela representa e as consequências em relação a África. É, no entanto, entendida como mal necessário, pois assegura a aproximação possível com os EUA numa altura em que a Inglaterra já não garante as funções tradicionais da aliança. É ainda a única forma de conseguir a modernização das Forças Armadas.
Portugal pressiona em vão para que a NATO prepare planos de defesa da Península que incluam a Espanha e para que alargue a sua esfera de acção a África. Os EUA não permitem a inclusão dos impérios europeus, abrindo só uma excepção relativamente a alguns departamentos da Argélia francesa. Washington deixa claro que a NATO se baseia numa espécie de acordo de cavalheiros em relação a África, nunca escrito mas real: os EUA não se envolvem na defesa activa dos impérios europeus, mas não fazem igualmente oposição agressiva à sua manutenção e asseguram mesmo apoio indirecto, pelo menos até 1959.
Os EUA aproveitam a NATO para levar o nosso país a assinar o acordo de defesa de 1951 e remodelar as Forças Armadas. A ajuda militar americana chega desde 1951 e, com ela, vêm as principais tecnologias importantes do pós-guerra. Os seus efeitos nas Forças Armadas são imensos e a todos os níveis. É preciso recordar que as tecnologias não existem em abstracto: ligadas a elas estão formas organizativas que não podem ser afastadas, estão níveis de formação e de educação específicos, assim como novas formas de motivar, enquadrar e comandar homens, ou seja, estão mentalidades.
As mudanças nas Forças Armadas e na política de defesa com a entrada na NATO são multifacetadas.
Em primeiro lugar, muda a própria articulação com o poder político, reduzindo-se o grau de autonomia dos militares e das duas armas tradicionais (Exército e Marinha), com a criação de organismos de coordenação da política de defesa, do estado-maior conjunto, do ministro da Defesa e do subsecretário de Estado da Aeronáutica e da Força Aérea.
Em segundo lugar, muda por completo o conceito de política militar do país. Antes, pensava-se em Forças Armadas que tinham a tónica num exército de massas (15 divisões), virado para a actuação na Península. Depois da NATO, passa a vigorar o conceito de uma força armada moderna e menor, onde a tónica é colocada na componente aeronaval. A participação de forças nacionais no teatro de operações europeu passa para segundo plano. As forças do ultramar são concentradas nas capitais de província, de modo a poder reforçar o continente em caso de guerra, ou seja, o contrário do esquema usual.
Em terceiro lugar, ascende rapidamente aos postos mais elevados uma geração de oficiais que passa, em larga medida, por cursos e estágios no estrangeiro. São oficiais com conhecimento técnico muito superior aos do passado, com clara admiração pela eficácia dos métodos de comando e de organização dos americanos e, o que é muito mais perigoso para o Estado Novo, com a noção de que as técnicas e métodos que admiram estão ligados a uma forma de motivação e educação dos homens associada ao funcionamento normal das democracias ocidentais. Desta geração NATO, que sobe muito rapidamente, saem os grandes críticos do imobilismo político do Estado Novo, em ligação directa com o presidente Craveiro Lopes. É uma geração nova que pressiona para aplicar reformas graduais no sentido de aproximar o país do modelo político e económico das democracias ocidentais. Em relação a África, a geração NATO defende, numa primeira fase, um esquema de evolução gradual e controlada, que vá no sentido de maior autonomia e desenvolvimento do ultramar, sem a perda completa dos laços políticos.
É esta geração NATO que está por detrás dos abalos que acompanham a fase inicial do mandato de Craveiro Lopes, a campanha presidencial de 1958 e, finalmente, do golpe de Botelho Moniz, em 1961, onde é já a alta hierarquia que intervém.
A NATO funciona assim como verdadeiro aprendiz de feiticeiro em termos de Forças Armadas. Introduz em Portugal as tecnologias do pós-guerra e, com isso, cria nova organização e nova mentalidade. Sem essas mudanças, nunca as Forças Armadas teriam a eficácia necessária para manter a longa guerra de 13 anos em três frentes. Mas, ao mesmo tempo, cria uma geração de oficiais que encara criticamente, e com fortes reservas, o imobilismo do regime, nomeadamente em relação a África.
É essa geração que intervém em força em 1961, não tanto para impedir a guerra, mas para alterar os pressupostos políticos básicos que a orientaram quando ela começa. Recordamos que os chefes do golpe de Botelho Moniz são os oficiais que mais amplos contactos estabeleceram com a NATO nos anos anteriores.
Quando o golpe falha - não nos interessam as razões -, será ainda a geração NATO que faz as guerras em África, marcadas desde o primeiro momento pelos métodos, organização e técnicas que foram introduzidas nas Forças Armadas Portuguesas desde 1951.


Índice
1 - A viragem
2 - França e Alemanha: os novos parceiros
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