Crescer em tempo de guerra


Crescer em tempo de guerra

Diana Andringa

A primeira memória é de fotografias, fotografias terríveis, de corpos esventrados, decepados, mutilados. Mais tarde reproduzidas em livro, com o título «Genocídío contra Portugal», traduzido para francês e inglês, haveriam de servir à propaganda portuguesa contra os movimentos de libertação - mas, nesse primeiro momento, eram apenas a noção de um mundo a desabar, a memória de uma terra longínqua que de lugar de sonho se transformava em lugar de pesadelo, o medo imenso que aqueles que se conhecia pudessem estar entre as vítimas ou os assassinos.
E à noite, entre os ruídos familiares, infiltravam-se os dessa outra noite, africana, já não cruzada pelo som amigo dos batuques, mas por gritos e gemidos, e a dúvida «se eu estivesse lá?». Era uma pergunta sem resposta simples, as fotografias tinham feito o seu trabalho, a violência das imagens sobrepunha-se ao raciocínio, diminuíam a capacidade de pensar. Pessoas insuspeitas de simpatia pelo regime, partidárias da independência das colónias, leitoras de Fanon ou de Césaire, admitiam participar em milícias nas colónias, invocando a legitima defesa - e os primeiros homens a partir «para Angola e em força» tinham a apoiá-los a maioria de uma nação longamente adormecida sobre o verdadeiro significado do colonialismo.
Mas os homens continuaram a partir e a máquina de guerra reclamava os amigos cada vez mais próximos: um vizinho, um primo, o irmão mais velho, depois o caçula... Como esquecer o primeiro que foi, o esforço para que a despedida soasse como habitualmente, a forma como, pela primeira vez, se lhe via o rosto, dolorosamente se fixava cada um dos traços, os olhos mais fundos do que o habitual, o sorriso quase a desfazer-se em lágrimas, os maxilares cerrados? «Um homem não chora, um homem não chora, um homem não chora ... ».
Depois, à medida que o tempo ia passando, as notícias começavam a chegar: anódinas, anedóticas, nos aerogramas que se sabiam submetidos a censura, murmuradas as outras nos empregos, nas faculdades, nas tascas ou nos adros das igrejas, ao fim da missa, em que o padre não esquecera a habitual referência aos ausentes por motivo da guerra...
Era um tempo em que, ao domingo, as igrejas das aldeias se enchiam de gente, vestida nos seus melhores trajes, as crianças protestando com os sapatos que lhes magoavam os pés habituados a andar livres. À entrada, as mulheres punham os véus na cabeça, mergulhavam os dedos na bacia de água benta e, com os filhos pela mão, dirigiam-se aos lugares da frente. Os homens mantinham-se no fundo da igreja, donde mais facilmente poderiam sair antes do fim para fumar um cigarro ou trocar algumas palavras. Depois vinham as mulheres, as famílias, em grupos, voltavam para casa, e as notícias circulavam, terríveis como as fotografias dos primeiros dias: «A filha da costureira, sabes? O noivo veio paralisado da guerra... » - e seguiam-se os pormenores, com minúcia perversa. Cruzavam-se, nas vozes, a pena e a admiração, mas também a condenação já implícita se acaso àquela rapariga, tão nova e cheia de vida ocorresse não querer efectuar esse casamento, que o próprio noivo tentava anular, considerando terem-se alterado as premissas do namoro...
A guerra invadia agora todas as conversas e, à medida que mais gente se implicava nela, cresciam também as dúvidas sobre o sentido da presença portuguesa em África e as reservas face ao esforço de guerra. Jornais clandestinos faziam eco das violências praticadas pelas tropas nas colónias, milicianos chegados ao fim do seu tempo de tropa desabafavam, nas horas seguintes à chegada, a amargura pelo que tinham sido forçados a viver, as associações de estudantes faziam cada vez mais da guerra e da mobilização motivos de contestação. Silenciosamente, primeiro, depois mais afoita, a defesa da deserção ia fazendo o seu caminho, e ninguém punha perguntas quando um jovem, mais um, desaparecia dos sítios do costume, saído do país a salto. «Le désérteur», de Boris Vian, cantado por Moloudji, tornou-se uma das canções mais tocadas nas «sonoras» das universidades. A «Ronda dos Paisanos», na voz de Zeca Afonso, a «Canção com Lágrimas» ou a «Menina dos Olhos Tristes», cantadas por Adriano, moravam em todas as cabeças, em todos os corações. Impedidos os jornais de falar da guerra de África, os jovens portugueses seguiam, com atenção de peritos, a do Vietname. E as raparigas, enquanto se perguntavam se, jamais, namorados e irmãos voltariam a ser o que eram «antes», antes que a guerra os tivesse devolvido tristes, inquietos, absortos, por vezes violentos, marcados pela memória de um mundo que podiam compartilhar, aprendiam termos até então reservados aos homens, G3, «batalhão», «mina», «morteiro», graus da hierarquia militar e nomes de terras que nunca veriam, Negaje, Nambuagongo, Como, Mueda ...
Em 1968, sete anos depois do início da guerra, os estudantes gritaram pela primeira vez, na rua, o seu protesto contra ela. Disfarçaram-no ainda de contestação à presença norte-americana no Vietname, o local de concentração foi ainda a embaixada americana, mas os gritos, longamente silenciados, soltaram-se, e a manifestação tornou-se, de repente, anticolonial.
Mais tarde viria a palavra de ordem «Nem mais um só soldado para as colónias», gritada a vermelho nos muros da cidade, em acções que se inspiravam nas tácticas da guerrilha, as desses mesmos contra quem os soldados portugueses lutavam, em terras de África. Seis anos depois dessa primeira manifestação, a guerra chegava ao fim. Os homens regressavam a casa, aos pais, às namoradas, às mulheres, aos filhos entretanto nascidos. Mas não desapareciam nem as memórias nem as sequelas - que perturbam ainda, com maior ou menor gravidade, os que cresceram e viveram em fundo de guerra.


Índice
1 - Crescer em tempo de guerra