1945 - 1962 - A nova África


1945-1962 - A nova África

Entre 1945 e 1952, propagou-se por todas as colónias um sentimento de independência, sentimento esse especialmente assumido pelas elites urbanas coloniais, que tinham estado em frequente contacto com as sociedades das metrópoles, das quais haviam assimilado o conhecimento tecnológico e das instituições políticas. Na formação destas elites, teve também influência determinante um vasto conjunto de aquisições culturais baseadas na sua própria história e nas tradições ancestrais, na religião, nas doutrinas marxistas e nos contactos com outros povos.
No contexto do pós-guerra, as circunstâncias políticas foram favoráveis à tomada de consciência de vários grupos das sociedades coloniais, mas seria sobretudo a pequena burguesia urbana a adquirir um pensamento diferenciador da Europa e a levantar mais energicamente a bandeira da emancipação.
Cronologicamente, as independências afirmaram-se primeiro no Oriente, com a União Indiana a desempenhar o papel de referência, passando depois para o mundo árabe e para a África.
Aqui, a semente da resistência anticolonial começou na zona islâmica setentrional, com a revolução egípcia de 1952, com as independências do Sudão, Tunísia e Marrocos, em 1956, e, especialmente, com a luta de libertação argelina (1954-1962). As ideias libertadoras estenderam-se, então, após 1957, à África subsariana, primeiro às colónias ocidentais britânicas e depois às francesas, ao Congo Belga e aos territórios britânicos da África Central e Oriental. Este movimento esbarrou, contudo, com a postura política portuguesa e com os países racistas do Sul do continente.
Na África subsariana, o Gana marcou o arranque para a libertação, com autonomia interna desde 1950 e independência desde 1957, pela mão de Nkrumah. Foi, aliás, este dirigente quem, com o seu projecto dos Estados Unidos de África, converteu Acra na sede do pan-africanismo, local onde se realizaram, em 1958, a I Conferência dos Estados Africanos Independentes (Abril) e a Conferência dos Povos Africanos (Novembro). Na primeira, participaram os primeiros sete países independentes do continente: Etiópia, Libéria, Marrocos, Egipto, Tunísia, Gana, Guiné-Conacri e Sudão; na segunda, estiveram presentes diversos partidos, movimentos de libertação e organizações sindicais, tanto em representação de países independentes como de organizações nacionalistas de outros territórios.
As conferências realizadas no Gana, como as efectuadas depois em Monróvia e Conacri (1959), Addis Abeba e Tunes (1960), e no Cairo e Libéria (1961), constituíram um preâmbulo para a futura formação da Organização de Unidade Africana (OUA). Um dos principais objectivos de toda esta movimentação foi, sem dúvida, o da discussão da forma e do alcance da unidade africana. Três tendências acabaram por se mostrar em posições difíceis de conciliar: os partidários da unidade dos povos, para além dos estados; os que apenas desejavam o aprofundamento da colaboração intergovernamental; e os que davam preferência à colaboração regional, como forma de uma futura unidade mais profunda.
As divisões entre os novos estados africanos tinham uma importante componente na forma de entendimento das futuras relações com a Europa na era pós-colonial. De facto, os mais pró-ocidentais acabaram por ser os menos pan-africanistas, vindo a constituir o Grupo de BrazzavilIe, em Dezembro de 1960, integrado pelo Congo-Brazzaville, Senegal, Chade, República Centro-Africana, Costa do Marfim, Níger, Alto Volta, Mauritânia, Gabão, Benin, Madagáscar e Camarões. Em Janeiro de 1961, os seus oponentes, radicalmente pan-africanistas, constituem o chamado Grupo de Casablanca: Marrocos, Gana, Guiné-Conacri, Egipto, Mali e a Frente de Libertação Nacional Argelina.
As divergências entre os dois grupos mostraram-se profundas, mas finalmente, em Janeiro de1962, em Lagos, organizou-se uma terceira tendência inter-africana, conhecida como Grupo de Monróvia, integrando a Libéria, Nigéria, Etiópia, Serra Leoa, Somália, Tunísia e Líbia, com o objectivo de fazer a ponte entre os dois sectores mais radicais. Acabou, aliás, por ser no decurso desta conferência que se estabeleceram as bases do que viria a ser a Organização dos Estados Africanos, com a recusa de qualquer fusão dos estados existentes, resultantes das circunstâncias da sua história e da ligação colonial à Europa, e da proclamação da igualdade e da soberania de cada um dos estados constituídos.
Em Addis-Abeba, no ano seguinte, seriam consagrados estes princípios, com a constituição da OUA, cujo papel se tornaria determinante no apoio à luta de libertação dos restantes territórios africanos.


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