Portugal e os ventos da História


Portugal e os ventos da História

Nas Colónias europeias, nunca deixou de haver movimentos de oposição e resistência à presença das potências coloniais. Ao longo do século XX, essa resistência foi mantida em especial pelas elites urbanas, muitas vezes com prolongados contactos com a cultura da própria metrópole.
Mas foi, sem dúvida, a II Guerra Mundial que acabou por criar condições especificamente vantajosas para o crescimento dos sentimentos nacionalistas e para o questionamento das situações de dependência. A libertação foi o conceito dominante de toda a acção das potências europeias vencedoras. A celebração da vitória da liberdade não poderia deixar de se repercutir nas colónias, até porque muitos dos seus filhos haviam contribuído, com duros custos, para essa conquista.
Bem se poderia dizer que comemorar tão limitadamente a vitória da libertação era deixar fora da festa todos os que, não sendo europeus, continuavam, afinal, submetidos e dependentes. A Europa não podia esperar outra coisa que não fosse a exigência de aplicação do mesmo princípio libertador nas relações de dependência colonial. Aliás, no Extremo Oriente, o Japão, enquanto potência invasora dos domínios europeus, demonstrara a possibilidade de vencer a Europa e soubera criar novas apetências de autogoverno.
Para os povos dominados, não fazia sentido comemorar a vitória da liberdade, se se continuasse a entender que ela não devia aplicar-se às relações coloniais. Por outro lado, as grandes potências emergentes da II Guerra Mundial, Estados Unidos da América e União Soviética, na disputa de zonas de influência, apoiaram a formação de resistências contra a presença europeia nas suas colónias. Mesmo nos territórios onde o nacionalismo pretendeu preservar o seu próprio processo de luta, a influência das grandes potências esteve invariavelmente presente quer no apoio ideológico e doutrinário, quer no apoio material.
A organização da resistência ao domínio colonial, revestindo aspectos pacifistas, como na Índia, ou apoiando-se na formação de grupos armados e clandestinos, em conjunto com outras acções violentas, teve sempre em vista a reivindicação fundamental do direito à autodeterminação e à independência. Os países europeus não encararam da mesma forma os movimentos nacionalistas, embora em geral tenham oferecido resistência às ideias independentistas. Mas a generalização da utilização da guerrilha por parte destes movimentos, pondo em causa as técnicas militares clássicas, depressa conduziu à procura de soluções de compromisso, após mais ou menos longos conflitos.
É desta forma que as colónias europeias do Extremo Oriente, do Médio Oriente e do Norte de África vão adquirindo a sua independência, desde meados da década de 1940.
A realização da Conferência de Bandung, em 1955, na qual os países não alinhados conseguem, na sequência de anteriores tentativas, definir autonomamente uma resposta concertada aos problemas que, em conjunto, enfrentam, constitui-se no marco fundamental da sua própria afirmação no contexto do mundo bipolar. O facto de os países não alinhados conseguirem levantar uma voz própria fez com que as grandes potências tivessem de considerar, com mais aprofundada ponderação, as reivindicações do chamado Terceiro Mundo, tanto no sentido de manter os equilíbrios internacionais da guerra fria, como no de utilizar os sentimentos e as lutas autonomistas para alargar ou consolidar as suas zonas de influência.
Neste contexto, as posições europeias foram-se tornando insustentáveis, o que conduziu rapidamente à independência de grande parte dos territórios coloniais, independência conseguida através de difíceis negociações ou conquistada através do recurso a acções armadas mais ou menos prolongadas.
Portugal não soube preparar-se para negociar soluções. O império colonial, a posse de territórios (possessões, como se chamavam), o domínio ultramarino (domínios), faziam parte do seu imaginário colectivo. É certo que a aventura de além-mar caldeara sentimentos de propriedade, a que o Portugal moderno só muito dificilmente renunciaria. Dobrou-se, finalmente, perante a força dos seus inimigos europeus, que ocuparam o seu primeiro império, o Oriente da pimenta e da noz-moscada. Dessa derrota, ficou recolhido, para séculos, um amargo sabor de impotência, fervendo em lume brando de redenção.
Fora, porém, tão vasta a aventura de antanho que novo império foi possível construir a Ocidente - o Brasil, do ouro e do açúcar. Mas de novo a roda da História, sem deixar que fosse saciada a infindável sede de possuir infinitos, levou de Portugal o novo império, deixando marcas profundas nas entranhas do «Portugal são». E quando se poderia pensar que estes homens feridos, órfãos da essência dos exotismos perdidos, vergados pela força das circunstâncias, expulsos pelos inimigos de fora e de dentro, desistissem, acertadamente, de exportar as energias de que a terra original tanto carecia, eis que, em cruzada de recurso, encontram, nos sótãos das lembranças marítimas de outrora, espaços para reconstruir o terceiro império.
Desenhado a rosa no mapa do último tesouro, o império africano definia, de costa a costa, novo espaço de posse. Embora apagado, de chofre, o rosa do mapa, num pérfido ultimato da «aliada», humilhação suprema desafrontada em crepes aos pés do símbolo da Pátria, do bardo do império e da aventura ultramarina, foi ainda possível reconstruir, com os restos do banquete de Berlim, o terceiro império, dos novos «donos» da portugalidade.
Nesta herança longínqua assentou Portugal a sua última hipótese de se sentir potência, terceiro/quarto império europeu, predestinando-se para a missão civilizadora que sempre soubera misturar habilmente com a rapina, sem ferir demasiado a própria consciência.
O Estado Novo, levantado pedra a pedra pelas mão de Salazar, insistentemente chamado de Coimbra, onde se acolhera enquanto outros se encarregavam de esmagar as últimas resistências democráticas do débil Portugal republicano, configurou-se na ideia tradicional de possuir um império. Posse por inteiro, com tudo o que contivesse ou viesse a conter: terras, mares, rios, montanhas, homens e mulheres, pretos e brancos.
Principalmente os pretos, porque «devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhor a protecção das raças inferiores, cujo chamamento à civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa», como Salazar ditava.
Aliás, a ideia do Império será, na existência do regime, a principal base ideológica e a raiz do consenso social necessário à sua sobrevivência.
Ultrapassada a II Guerra Mundial, que a muitos pareceu altura adequada para se transformar o sistema político, ou pelo menos para se renovar o regime, a verdade é que o Império, mais uma vez feito essência da Nação, desculpou a sua natureza, permitindo-lhe novo fôlego. Contudo, embora a prazo, que a inesperada resistência e solidez do salazarismo prolongou para lá do razoável, as sementes da separação lançadas ao mundo pela filosofia inerente à libertação da Europa viriam a atingir os territórios africanos dominados por Portugal.
Os «ventos da História», soprando a favor das reivindicações dos povos colonizados, foram vencendo resistências e obstáculos, primeiro no Extremo Oriente, depois no Norte de África e Médio Oriente e, finalmente, na África Negra. Em trinta anos, o mundo alterou radicalmente a sua configuração política, marcando o movimento descolonizador uma das etapas mais impressionantes do mundo contemporâneo.


Índice
1 - Portugal e os ventos da História
2 - Portugal não é um país pequeno
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