Contra-Subversão


Contrasubversão

Segundo a doutrina portuguesa, baseada nas experiências anteriores de outros exércitos (França, Inglaterra, Estados Unidos), mas adaptada ao seu próprio caso, a «guerra subversiva» exigia aos militares capacidade para aprender uma nova maneira de combater em todas as frentes.
Esta nova categoria de guerra obrigou os militares portugueses a tomar consciência de lutarem contra adversários cuja natureza era completamente distinta dos «inimigos» clássicos, em especial porque utilizavam as populações simultaneamente como ambiente operacional privilegiado, como objectivo e como retaguarda.
Para formar os militares portugueses, foram publicados vários manuais, mas o mais importante de todos foi, sem dúvida, "O Exército na Guerra Subversiva".
Neste manual definiam-se as três missões das forças militares na chamada «contra-subversão»:

- combater bandos armados, as guerrilhas e as forças pseudo-regulares, executando operações militares defensivas e ofensivas;
- exercer acção psicológica principalmente sobre a população, para a tornar mais receptiva a uma eficaz acção social, contribuindo assim para conservar ou reconquistar o apoio dessa população;
- dar apoio às autoridades civis, actuando em cooperação com elas na manutenção da ordem, garantindo o controlo da população e assegurando a manutenção dos serviços essenciais, quando necessário.

As operações de combate constituíam, sem dúvida, a missão mais espectacular das forças militares e a que exigia maiores efectivos e mais profundas adaptações, mas podiam não ser, realmente, as mais importantes.
De facto, para restabelecer o controlo numa região, tudo devia ser feito para evitar que se atingisse a fase da luta violenta, já que «a guerra subversiva era, essencialmente, um problema de conquista da população».
Mas quando as forças regulares tinham de optar pela via das medidas de repressão, a sua manobra, designada como pacificação do território, obrigava-as a procurarem destruir as forças do adversário através de operações de combate.
Estas operações colocavam frente a frente duas concepções de guerra: convencional e de guerrilhas. Para um exército convencional como o português, tratava-se de combater não contra tropas instaladas à retaguarda de uma linha de contacto bem definida, mas sim contra grupos que se encontravam em toda a parte, constantemente agressivos e destruidores, que se diluíam ou se escapavam, antes que houvesse tempo de os enfrentar, para reaparecerem em breve noutro local. Para se adaptarem, as forças militares deviam empregar processos adequados às características desta guerra - a contraguerrilha - em tudo semelhantes àqueles que as próprias guerrilhas utilizavam, isto é, deviam aprender com o inimigo e não ficar igual a ele.
De qualquer forma, a tendência dominante na luta de guerrilhas dava a iniciativa aos guerrilheiros e não às forças de contraguerrilha, e a surpresa tornou-se na sua mais devastadora arma.
As acções mais comuns da guerrilha durante a guerra, nos três teatros de operações, foram:

- Colocação de engenhos explosivos (minas e armadilhas) nos itinerários obrigatoriamente usados pelas tropas portuguesas;
- Emboscadas a colunas motorizadas;
- Flagelação de instalações militares.

Na missão de contraguerrilha, as forças portuguesas desenvolviam fundamentalmente as seguintes acções:

- Patrulhamentos nas potenciais zonas de refúgio;
- Patrulhas de itinerários, frequentemente em simultâneo com acções de escolta a colunas de reabastecimento;
- Contactos com populações para apoio médico, social e psicológico;
- Acções de protecção a obras de engenharia e a pontos sensíveis.

Com bastante menos frequência, as tropas portuguesas conduziam acções de carácter mais ofensivo, como é o caso, nomeadamente, das emboscadas, dos golpes de mão, rusgas a povoações e operações de grande envergadura destinadas a expulsar os guerrilheiros das suas zonas de refúgio.
Contudo, o que é intrinsecamente marcante na guerra travada pelas tropas portuguesas é a circunstância de a maioria das acções de combate terem sido iniciadas pela guerrilha, tornando-se este o aspecto mais desgastante e desmoralizador de toda a campanha.
De modo geral, as forças portuguesas deram particular importância, na sua manobra, à acção psicossocial, opção que se ficou a dever à fraca implantação do tecido administrativo colonial, às muitas carências das populações e ao seu baixo custo em relação às operações militares de combate, factores que se atenuaram quando e onde o ambiente operacional se tornou mais agressivo.
Por esta razão, e também porque, em todo o caso, o primeiro princípio da contra-subversão é lutar pela população e nunca contra a população, o militar português teve de questionar não só as razões do seu adversário, mas as suas próprias.
Se as ideias difundidas pelos movimentos emancipalistas forem bem escolhidas e tiverem um fundo de verdade e numa situação colonial facilmente esta situação ocorre - elas tendem a demonstrar que as autoridades e as forças da ordem têm para com a população certas atitudes e tomam certas medidas que são contrárias à justiça, às liberdades individuais e aos direitos do homem. E se estas autoridades, para reprimir a subversão, se limitarem a prender, ferir e matar, elas estão a dar provas de que as ideias apregoadas pela «subversão» são realmente verdadeiras e justas. As forças regulares caem assim no tradicional dilema de reprimir e dar razão ao adversário ou de procurar alterar as situação e envolver-se politicamente.


Índice
1 - Contra-Subversão
2 - Guerra subversiva
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