Mobilização de efectivos locais


Mobilização de efectivos locais 

Todos os países europeus, nos conflitos coloniais, armaram e organizaram elementos das populações locais e constituíram com eles unidades integradas, em grau variável, nas suas forças armadas, para combaterem ao seu serviço e de acordo com os seus interesses. A africanização da guerra a que as Forças Armadas portuguesas recorreram cobre grande leque de objectivos políticos e militares, entre os quais a africanização das baixas teve óbvio interesse, embora não surja como sua principal razão de ser.

Apesar de os processos, intenções e resultados da africanização terem sido diferentes nos três teatros de operações e variado com as concepções dos vários chefes militares e dos governos que a ela recorreram, é possível afirmar que, no seu conjunto, se pretendeu sempre obter comprometimentos de ordem política, promovendo a integração dos africanos na ordem estabelecida pelo regime colonial. A política de africanização procurou o envolvimento físico das populações negras na guerra de modo a criar clivagens e antagonismos que demarcassem campos de actuação e dificultassem o alargamento das bases de apoio dos movimentos de libertação. Para isso, exerceu sobre os africanos ao seu serviço intensa acção psicológica, proporcionando-lhes melhores condições de vida e apresentando-os como exemplo. Em troca, socorreu-se deles para aumentar os efectivos de combatentes, aproveitando o seu conhecimento do terreno e a sua completa adaptação ao meio, formando com eles unidades especiais, expondo-os a maiores perigos e sacrifícios e utilizando-os ainda como fonte de informações e como agentes de contra-informação.

A africanização da guerra proporcionou unidades mais baratas e mais eficazes do que as metropolitanas, as quais compensaram ainda a escassez de efectivos que o alastramento da guerra exigia e que a demografia do país já não conseguia fornecer. As unidades africanas integraram-se na manobra política e militar que os comandantes de cada teatro gizaram, sendo neste campo que se notam as maiores diferenças de emprego.
Na Guiné, com Spínola, foram promovidas a embrião de forças armadas de novo Estado e dotadas de unidades de comando. Em Angola, o seu emprego foi fraccionado em múltiplas organizações, dependentes de organismos distintos, integrando elementos de proveniências diversas, desde refugiados catangueses e zambianos a antigos guerrilheiros, em que apenas o controlo operacional táctico era dos comandantes militares territoriais.
Em Moçambique, foram organizadas como unidades de tipo convencional e empregues em missões clássicas de contra-guerrilha.

A africanização dos efectivos recorreu a três tipos de forças: as unidades do recrutamento da província, que faziam parte do dispositivo militar implantado em cada território, as milícias, que se podem designar por tropas auxiliares, ou de segunda linha, e outros elementos em que se incluíam refugiados estrangeiros e antigos guerrilheiros. As primeiras deram origem, entre outras, às unidades de comandos recrutadas e instruídas em cada um dos teatros, e também aos fuzileiros formados na Guiné, às unidades a cavalo criadas no Leste de Angola e até os grupos especiais de pára-quedistas (GEP) constituídos em Moçambique - todas com a organização, instrução e administração das forças regulares em que se integravam. As milícias e os outros elementos estiveram na origem das unidades mais típicas da africanização da guerra, aquelas que aparecem mais comummente associadas a este conceito.

Na Guiné, as primeiras forças paramilitares foram criadas no final de 1964, designadas por milícias, e desenvolveram-se, particularmente a partir de 1968, por acção do general Spínola, que criou um Comando Geral de Milícias e designou o seu conjunto como «força africana». Um caso à parte na africanização de guerra foram os «comandos africanos», que constituíram um batalhão de estrutura organizativa aparentemente convencional, mas cujos quadros, até ao nível de comandante de companhia, eram já africanos assessorados por militares portugueses, que também garantiam a sua instrução e a administração, participando por vezes em operações, num processo semelhante ao utilizado pelos americanos com os boinas-verdes no Laos e no Víetname

Em Angola, a partir de 1966, começaram a ser organizadas, no Norte, pequenas formações de dezasseis homens designadas por grupos especiais (GE), que em Cabinda receberam o nome de tropas especiais (TE). Os TE, após a apresentação de Alexandre Taty quando rompeu com a FNLA, foram maioritariamente constituídos por ex-guerrilheiros, e com a derrota do projecto de Tchombé de promover a secessão da província do Catanga, no antigo Congo Belga, muitos dos que haviam combatido a seu lado refugiaram-se em Angola, vindo a ser integrados na estrutura das forças auxiliares, onde ficaram conhecidos como catangueses, «fiéis catangueses» ou simplesmente «fiéis». Também uma vaga de refugiados da Zâmbia veio engrossar as fileiras destas forças, tomando o nome de zambianos, «leais zambianos» ou simplesmente «Ieais». Mas se estas unidades e ainda as forças de milícias dependentes da administração e as mantidas pela Organização Provincial de Vigilância e Defesa Civil de Angola, que já vinham de 1962, desempenharam papel muito activo na guerra, são contudo os «Flechas» que viriam a caracterizar o processo de africanização da guerra em Angola. Os «Flechas» foram criados pela DGS segundo o modelo dos «pseudo-gangs» da guerra do Quénia e dos selous scouts da antiga Rodésia. Constituíam forças não convencionais capazes de viver e combater no terreno como os guerrilheiros, em acções prolongadas e com grande autonomia de métodos de combate. Eram excelentes fontes de informação e a sua eficácia operacional resultava em muito da utilização das informações que a DGS lhes fornecia. A organização dos «Flechas» esteve para ser implantada em Moçambique, embora contasse com a oposição de Kaulza de Arriaga.

Em Moçambique, no início de 1970, foram constituídos os primeiros grupos especiais, que vão já ser empregues na Operação Nó Górdio, em Junho do mesmo ano. Os GE de Moçambique, ao contrário dos da Guiné, que tiveram principalmente missões de quadrícula, e dos de Angola, que foram utilizados como unidades irregulares, participaram em missões operacionais de intervenção, como complemento às forças regulares de caçadores, de comandos, de páras ou fuzileiros. Este tipo de emprego motivou críticas de militares e dirigentes sul-africanos e rodesianos, que haviam colaborado na criação destas forças em Angola. Em Moçambique, foram formados ainda os grupos especiais de pára-quedistas, a única experiência de africanização deste tipo de tropas, que raramente executaram operações por lançamento de pára-quedas, sendo empregues, tal como as unidades similares metropolitanas, em acções convencionais de contra-guerrilha.


Índice
1 - Mobilização de efectivos locais
2 - Guiné - Auto-defesa das populações
3 - Aldeamentos
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