Informações


Informações

Em todas as guerras, as informações são decisivas para conhecer o inimigo e o terreno, mas na guerra de guerrilha as forças militares, sem informações, não só não têm possibilidade de saber onde o inimigo está, como nem sequer conseguem saber quem é, uma vez que a maior parte das vezes ele se encontra no seio da população.
Também do ponto de vista dos guerrilheiros é essencial dispor de informações sobre as movimentações e intenções das forças regulares adversárias de modo a poderem antecipar-se às suas acções. Para ambos os contendores, as informações garantem a surpresa que permite causar os maiores danos ao adversário com os menores custos.
A primeira abordagem possível da área relativa às informações diz respeito ao seu âmbito, que pode considerar-se estratégico ou táctico. No primeiro caso, as informações são processadas ao mais elevado nível dos aparelhos do Governo e das Forças Armadas e têm a ver com as implicações na condução da guerra motivada pela conjuntura internacional, nomeadamente a atitude das grandes potências ou blocos, a situação nos países vizinhos, as orientações e capacidades das organizações internacionais, as posições de certos líderes políticos, a actividade diplomática, a espionagem e contra-espionagem. No conceito táctico, as informações são processadas ao nível da condução da actividade operacional, tendo em vista a relação directa das unidades nela envolvidas com o meio onde actuam e as capacidades e intenções do inimigo, na base de uma área de interesse que, em regra, excede os limites da zona de acção de cada unidade.
Relativamente à informação estratégica, em Portugal e durante o período da guerra, as estruturas para o seu tratamento fora do âmbito da PIDE foram criadas e consentidas, como escreve o general Pedro Cardoso na monografia, "As Informações em Portugal" em 1955, quando da admissão de Portugal na ONU.
Estas estruturas, constituídas pela 2.ª Repartição do Secretariado-Geral da Defesa Nacional, pela Direcção-Geral dos Negócios Políticos, no Ministério dos Negócios Estrangeiros e pelo Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério do Ultramar, mantiveram-se durante a guerra e coexistiram com outros órgãos e serviços, muitas vezes deficientemente articulados entre si.
Contudo, o nó central desta teia era a PIDE/DGS, que constituía a sua componente essencial, assegurando a nível do Governo a centralização das informações, embora essa missão nunca lhe tivesse sido atribuída. Não estando esta centralização legalmente organizada ao nível do Governo, coexistiam, por vezes em conflito quase declarado, várias estruturas de informações dependentes dos ministérios da Defesa, do Ultramar, do Interior e dos Estrangeiros.
Por sua vez, quer nos estados-maiores dos ramos das Forças Armadas, quer nos quartéis-generais, quase sempre se recebiam informações e poucas vezes se fazia o seu tratamento, comparação e utilização. Pode dizer-se que as Forças Armadas portuguesas não dispunham de verdadeiro serviço de informações.
Como estas eram vitais para a condução política e o comando das forças nos teatros de operações de África, a coordenação passou a fazer-se através de um Serviço de Centralização e Coordenação de Informações, tendo como adjunto um elemento da PIDE/DGS. Deve-se ao general Venâncio Deslandes, primeiro governador-geral e comandante-chefe das Forças Armadas de Angola, a organização destes serviços, que se estenderam a Moçambique e, mais tarde, à Guiné, tendo como missão «reunir, estudar e difundir informações que interessem à política, à administração e à defesa das respectivas províncias, e prestar apoio aos seus governos».
A nível inferior - comandos de sectores militares, governos de distrito, comandos de batalhão e administração local -, a coordenação das informações foi possível através do contacto directo entre as entidades interessadas (militares, administradores, polícias, elementos da PIDE/DGS) ou da constituição de comissões de contra-subversão.
Em termos militares, o batalhão era o mais baixo escalão com estruturas de informações, embora muito reduzidas e com pessoal pouco preparado, o mesmo acontecendo com os comandos de agrupamento.
Na realidade, durante a guerra, as Forças Armadas portuguesas não dispuseram de verdadeiro e estruturado serviço de informações, com unidades especificamente dedicadas a essa actividade. Por isso, faziam sobretudo recolha de elementos através das unidades operacionais, tratando e analisando documentos, notícias, interrogatórios a prisioneiros, e escutas de rádio com interesse para as operações.
Devem-se, no entanto, às repartições de informações dos quartéis-generais alguns dos melhores estudos sobre os movimentos de libertação e sobre o meio físico e humano dos vários teatros de operações.
No terreno, as unidades operacionais procuravam obter o maior número de informações sobre uma realidade que, à partida, desconheciam, pois o sistema de mobilização e de rotações das unidades do Exército nos teatros de operações, em que toda a unidade era substituída num local, ao mesmo tempo, por outra acabada de chegar, não permitia manter a continuidade de ligações e o estabelecimento de confiança, indispensáveis à criação e manutenção de redes de informação.
Esta rede, na zona de operações, mesmo quando obtida através de intérpretes ditos de confiança, de caçadores, milícias ou outro pessoal, incluindo as lavadeiras e os empregados auxiliares que os militares contratavam para os serviços nos aquartelamentos, correu sempre mais no sentido das forças portuguesas para os movimentos de libertação, do que ao contrário.
Além destas informações, as forças portuguesas dispuseram de serviço de fotografia aérea de grande qualidade, embora sofresse de limitações materiais para assegurar a completa e frequente cobertura de todas as áreas de operações.
Também o serviço de escuta e de cifra montado pelo Exército para captar as emissões rádio - Chefia do Reconhecimento das Transmissões (Cheret) - deve papel de grande relevo. Enquanto em Portugal, a partir da Trafaria, se efectuavam escutas às estações emissoras dos países que apoiavam os movimentos de libertação, em cada um dos teatros faziam-se escutas não só a estas emissões, mas também às suas comunicações de rádio nas redes operacionais logo que os movimentos iniciaram a sua utilização.
Mas neste tipo de guerra, como em qualquer outra, obtidas as informações, elas só têm utilidade se chegarem a tempo a quem delas necessita - a difusão oportuna é uma das questões decisivas no processo da sua utilização.
Para exploração táctica imediata, a informação relevante era normalmente fornecida directamente ao comandante, pessoalmente ou via rádio, por forma a que este a pudesse utilizar pelo meio mais rápido e apropriado. Por outro lado, a informação institucional, que permitia aos comandantes dos baixos e médios escalões - companhias e batalhões aperceberem-se da situação no teatro de operações, era transmitida em documentos próprios: os relatórios periódicos de informações, Perintrep, os sumários de informações,Intsum, os relatórios suplementares, Supintrep, e, ainda, relatórios mensais, trimestrais e anuais de informações emitidos pelos quartéis-generais e pelos estados-maiores.
Aos vários comandantes era ainda solicitado que obtivessem determinadas informações específicas através do que se designava por plano ou ordem de pesquisa.


Índice
1 - Informações
2 - Sistemas de informações dos movimentos
3 - Equipas especiais de informação
Multi-média
» A teia de...