Apoio moral


Apoio Moral

O início da luta armada dos movimentos nacionalistas nas colónias portuguesas apanhou as Forças Armadas não só impreparadas técnica e operacionalmente para fazer face à guerra, trazida pelos mesmos ventos que sopravam desde o final dos anos 1940 nas colónias dos outros países europeus, como ainda sem disporem de enquadramento legislativo nem de meios institucionalizados, mesmo rudimentares, de apoio a militares em situação de guerra. Não existia legislação prevista para regular os casos de morte e ferimento em combate, nem para as situações de campanha, nem, muito menos, para o apoio às famílias dos mobilizados. Face a este vazio em que não se previam situações especiais decorrentes da guerra, da morte à incapacidade, da pensão de sangue à trasladação dos corpos, do aprisionamento ou captura de militares em operações ao pagamento de vencimentos, da distribuição de correspondência às licenças de férias, a primeira resposta que o regime deu às novas necessidades de apoio ao militares e às suas famílias enquadrou-se nas concepções de intervenção social que o caracterizavam.
O Movimento Nacional Feminino (MNF) e a Secção Feminina da Cruz Vermelha (CVP), foram as organizações que procuraram suprir essas falhas, desempenhando ainda papel importante como mobilizadores e catalisadores ideológicos da sociedade e das mulheres em particular.
Ambos foram presididos por senhoras pertencentes à alta burguesia mais afecta ao regime. Cecília Supico Pinto, a figura emblemática do Movimento Nacional Feminino, mulher de Luís Supico Pinto, antigo ministro da Economia de Salazar, seu conselheiro, presidente da Câmara Corporativa e administrador de grandes companhias africanas, decidiu criar o seu movimento no dia de anos de Salazar, juntamente com as outras fundadoras: Maria Luísa Bobone e Teresa Mónica, ligadas às obras de caridade, Maria da Glória Barros e Castro, presidente das vicentinas (Obra de São Vicente de Paulo), Madalena da Câmara Fialho, professora do Colégio de Odivelas, e a sua directora, Deolinda Santos.
A Secção Feminina da Cruz Vermelha teve como figura tutelar Amélia Pitta e Cunha, mulher de Paulo Cunha, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, e no seu núcleo inicial encontravam-se Margarida Fernandes Tomás de Morais, Maria Luísa Barahona Dias e Celeste Soares de Miranda.
A coincidência do objectivo final de apoiar a política ultramarina definida por Salazar fez com que, nos primeiros anos de guerra, as duas organizações promovessem várias actividades em conjunto.
Pouco a pouco foram-se separando, ocupando-se de áreas assistenciais diferentes e exteriorizando atitudes distintas, de acordo com as personalidades das suas dirigentes: o MNF sempre exuberante, com Cecília Supico Pinto, e a CVP discreta, de acordo com a personalidade de Amélia Pitta e Cunha.
O MNF passou a dedicar-se prioritariamente ao apoio moral e social dos militares e suas famílias, muitas vezes através de acções populares a que não faltava o cunho da demagogia, mas que em muitos casos se revelaram eficazes na resolução de problemas dos jovens e dos seus agregados familiares face à burocracia e ao desconhecimento das situações decorrentes da guerra.
Ao MNF se deve o lançamento dos aerogramas, alcunhados de «bate-estradas», que constituíram o meio mais difundido de correspondência entre os militares e os seus familiares. Destes aerogramas, cujo fornecimento e transporte era gratuito para os militares, estima-se que tenham sido impressos cerca de 300 milhões. Das actividades do MNF destacaram-se a organização de visitas de artistas aos teatros de operações, as ofertas de Natal, com o envio de lembranças, discos, isqueiros, tabaco, bolas de futebol, e também as despedidas no cais. Deve-se ainda ao MNF a promoção da troca de correspondência entre os soldados e as madrinhas de guerra.
A organização do MNF foi sempre pouco estruturada, assentando na personalidade de Cecília Supico Pinto e no apoio que lhe foi dado por Salazar, tende vivido da adesão mais ou menos entusiástica das cerca de oitenta mil mulheres que a ele pertenceram. O Movimento dispunha de direcção central e de delegações em Portugal e nas colónias. Eram estas delegações que promoviam o trabalho de rotina de apoio aos militares e que se tornavam mais visíveis por ocasião das frequentes visitas aos teatros africanos de Cecília Supico Pinto - a Cilinha -, como ficou conhecida.
Enquanto o MNF dirigiu a acção para os militares activos nos teatros de operações, a secção feminina da Cruz Vermelha Portuguesa dedicou-se principalmente ao apoio aos militares feridos e estropiados, cujo número aumentava continuamente e para os quais não existiam nem sistemas de recuperação nem legislação aplicável.
 
Os dois movimentos aproveitaram as boas relações das suas dirigentes com o regime para incentivar a publicação de leis e normas correctoras de erros e injustiças administrativas, entre as quais se contava a alteração à situação dos feridos em combate, conseguindo que estes não perdessem direito aos vencimentos e aos subsídios de campanha quando evacuados para os hospitais centrais; a revisão das pensões dos deficientes militares, que era regulada ainda pelas normas estabelecidas para a I Guerra Mundial; o apoio às famílias dos mortos, permitindo que os corpos dos militares fossem trasladados para as terras de origem sem que as famílias tivessem de pagar o transporte, como acontecia nos primeiros anos da guerra; e ainda a legislação de apoio a militares estudantes.
A acção da Cruz Vermelha era visível nas visitas que organizava aos doentes internados nos hospitais, quer em África quer em Portugal, e nas peregrinações religiosas que promovia com os deficientes militares.
Deve-se-Ihe também a criação do Lar Militar de Cruz Vermelha, destinado a grandes deficientes, o serviço de recuperação, instalado no Hospital da Parede, e mais tarde, o do Alcoitão. Também o acordo celebrado entre Portugal e a Alemanha, ao abrigo das facilidades pela utilização de Base de Beja, para tratamento e recuperação de deficientes, no Hospital de Hamburgo, teve a participação da Cruz Vermelha.


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1 - Apoio moral
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