Leste de Angola


Leste de Angola

O Leste de Angola, com as suas imensas planícies, as chanas, constituiu o primeiro e o mais vasto cenário de emprego do cavalo na guerra de guerrilha. Não era estreia absoluta em África, já que, nas campanhas do final do século XIX e no início do século XX, tropas montadas haviam percorrido o Sul de Angola. Mas, após a fase de motorização e aviação dos exércitos, este velho meio de deslocação de combatentes no campo de batalha surgiu como novidade e até, para alguns, como um anacronismo numa guerra daquele tipo.

Unidades a cavalo foram utilizadas pelos ingleses, na Birmânia e na índia, e pelos americanos, nas Filipinas, mas o Exército Português deu-lhes uma amplitude única em África. A sua introdução no sistema de forças implantado em Angola processou-se, a título experimental, nos anos de 1966/67, com a constituição de um pelotão que foi integrado no Grupo de Cavalaria n.º 1 (GCav1), Dragões, unidade da guarnição normal de Angola, com sede em Silva Porto. Este pelotão recebeu cavalos vindos da África do Sul e comprovou a adaptação dos animais ao clima e a sua utilidade para certos tipos de missões. Mais tarde foi criado o Centro de Instrução de Tropas a Cavalo e adquirido um lote de animais importados da Argentina.

O pleno emprego operacional da primeira unidade a cavalo ocorreu em 1970, com a adaptação de uma companhia de atiradores de cavalaria, que, após um ano de actividade «a pé», foi instruída para realizar operações montadas, recebendo o reforço de militares vindos do centro de instrução.

A guerra no Leste de Angola encontrava-se em fase de grande desenvolvimento, com o MPLA tentando implantar-se no terreno ao longo da Rota Agostinho Neto e escorraçar a UNITA desta zona, pelo que o esquadrão a cavalo, designação da companhia de cavalaria, encontrou já o inimigo armado e equipado para operações de certa envergadura, idêntico ao que as unidades convencionais defrontavam na região.

Esta unidade instalou-se no Munhango, localidade sobre a linha de Caminho de Ferro de Benguela, que lhe serviria de base de operações contra os guerrilheiros que utilizavam aquela faixa de terreno como linha de infiltração para o interior de Angola.
Dependia tecnicamente do GCav 1 e, operacionalmente, constituía uma força de intervenção à ordem da Zona Militar Leste, com sede no Luso. Tinha como missão principal «bater» as zonas de instalação de bases da guerrilha, de modo a obter informações que servissem para o emprego de outras unidades, nomeadamente comandos e pára-quedistas, em acções de assalto sobre objectivos bem definidos. A utilização do cavalo apresentava várias vantagens relativamente a tropas apeadas. Permitia realizar etapas diárias com o dobro da extensão, da ordem dos cinquenta quilómetros, podendo ir até aos oitenta quilómetros, as unidades cobriam frentes muito mais extensas, com cerca de quatrocentos metros, o que praticamente inviabilizava a possibilidade de emboscadas, os cavaleiros reagiam com muito maior rapidez a acções adversárias, eram mais silenciosos que tropas transportadas de viatura ou de helicóptero e chegavam mais descansados às zonas de combate, mesmo após vários dias de marcha.

O cavalo aumentava a mobilidade das tropas e permitia alcançar locais onde dificilmente a pé provocariam surpresa, mas apresentava, é certo, limitações. A primeira, e mais importante, era de ordem logística, pois obrigava a reabastecimentos periódicos de rações para homens e animais, efectuados por helicóptero de cinco em cinco dias. Também a organização das unidades era mais pesada que a das a pé, pois o cavaleiro apeava-se para combater sendo necessário constituir e guarnecer uma base de recolha dos cavalos. Assim enquanto um pelotão de atiradores normal dispunha de um efectivo de cerca de trinta homens, um pelotão montado necessitava de quarenta e sete para disponibilizar vinte e oito a trinta para a acção em combate directo.
Por fim, as tropas exigiam período alargado de treino inicial e instrução continua dos cavaleiros e dos cavalos.

A operação-tipo de uma unidade montada era a «batida» ou a «nomadização» por períodos que variavam entre cinco e trinta dias, com os cavaleiros deslocando-se em coluna de secções, cada uma com sete homens em cunha, numa frente de três a cinco secções, consoante o terreno era mais ou menos aberto. Esta formação possibilitava uma larga frente de progressão (cerca de quatrocentos metros) e uma profundidade de trinta metros o que garantia grande segurança ao conjunto quer contra acções frontais, quer de flanco. Quando era avistado um grupo inimigo, ou detectado um local suspeito, uma ou duas secções ultrapassavam esses objectivos e as outras fechavam o cerco.
Nos primeiros tempos de utilização, o cavalo constituiu uma surpresa total para os guerrilheiros e para as populações, que não sabiam como reagir a este novo inimigo ao qual era muito difícil escapar.

O equipamento dos cavaleiros era idêntico ao dos outros combatentes do Exército, com as adaptações necessárias para o transporte a cavalo. As rações dos homens e dos animais, para cinco dias, eram transportadas em alforges presos aos arreios, a G-3 seguia num coldre ou a tiracolo, assim como as armas de apoio a metralhadora ou o morteiro, e os equipamentos de rádio perfazendo um peso total de 150 quilos incluindo o cavaleiro. A alimentação do animal era complementada com vegetação local, o que por vezes originava cólicas e intoxicações graves. Para fazer face a estes imprevistos, aos ferimentos e acidentes que incapacitavam os cavalos e obrigavam ao seu abate as unidades levavam por norma dois ou três de reserva.

O sucesso obtido com o primeiro esquadrão levou ao desenvolvimento destas unidades chegando o Grupo de Cavalaria a dispor de cerca de quatrocentos animais de origem sul-africana e argentina, e serviu de modelo à constituição de uma unidade idêntica em Moçambique, em Vila Pery que não chegou, entretanto, a entrar em operações.


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1 - Leste de Angola
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» Guerra a Cavalo