MPLA/ Rota Agostinho Neto


MPLA
Rota Agostinho Neto

A organização político-militar do MPLA foi-se aperfeiçoando ao longo da guerra, com muitos recuos e avanços, que quase sempre reflectiam a sua capacidade política de conduzir a luta no interior.

Em 1970, pode dizer-se que o movimento dispunha de complexa organização, abrangendo quase todo o território de Angola, dividido em seis regiões militares.

O Comité Director do movimento, com sede em Kalabo, na República do Congo-Brazzaville, tinha, em 1968, a seguinte composição:

Presidente - Agostinho Neto
Vice-presidente - Lúcio Barreto Lara
Conselheiro geral - Domingos da Silva
Chefe do Dep. de Finanças - Manuel José Cadete
Chefe do Dep. de Informações - Aníbal de Meio (Kamaxilo)
Chefe do Estado-Maior - Henrique Teles Carreira

Em conferência de imprensa realizada em Brazzaville, em 3 de Janeiro de 1968, Agostinho Neto definiu o seguinte objectivo para a organização militar do MPLA:

"Conduzir uma guerra popular revolucionária de longa duração, generalizada a toda a extensão do território nacional e envolvendo aldeias, que são também mobilizadas para o trabalho clandestino e que serão tomadas na última fase da guerra.»

Organização militar do MPLA:

- Comandos de Região Militar e Zona:
Posto de comando
Centro de instrução regional (CIR)
Serviço de assistência médica (SAM) por região
Centro de assistência médica (CAM) por zona

- Unidades combatentes:
Grupo
Secção
Esquadrão
Coluna (agrupamento operacional)

A designação de centro indica o acampamento onde se encontra o comando da Zona, aparecendo também a designação por iniciais PCZ, Posto de Comando da Zona.

A base era o acampamento do comando de secção, sendo local de recuperação do pessoal e ponto de reabastecimento e de recompletamento.

Unidades e efectivos do MPLA:

Unidades                     Constituição                                                 Efectivos

Coluna                          Comando de 3 a 5 esquadrões                   750
Esquadrão                   Grupo de comando de 3 a 5 secções         150
Secção                          3 a 4 grupos                                                   30 a 40
Grupo                                                                                                      10 a 12

Organização territorial do MPLA (regiões militares):

I RM - Distritos do Zaire, Uíje, Luanda, e Cuanza-Norte
II RM - Cabinda
III RM - Distritos de Moxico e Cuando-Cubango
IV RM - Distritos de Malanje e Lunda
V RM - Distritos de Quanza-Sul, Benguela, Huambo e Bié
VI RM - Distritos de Huíla, Moçâmedes e Cunene

Datas de implantação militar do MPLA:

1961 - Dembos
1964 - Cabinda
1966 - Moxico e Cuando-Cubango
1966/67 - Reactivação da frente noroeste
1968/69 - Lunda, Bié
1970 - Cuanza

Os efectivos militares do MPLA variaram entre 3000 e 4500 guerrilheiros, sendo as três primeiras regiões militares (Dembos, Cabinda e Leste) as mais activas operacionalmente.

A abertura da IV Região Militar (Malanje), em 1968, destinava-se a possibilitar a ligação entre o Leste e o Norte, com o fim de apoiar esta região a partir da Zâmbia através de uma linha de infiltração a que foi dado o nome de Rota Agostinho Neto.

O MPLA actuava normalmente por emboscadas a curta distância (10 - 20 metros), preparando abrigos junto aos itinerários que as forças portuguesas utilizavam nas suas patrulhas e colunas de reabastecimento. Para as emboscadas, articulava as forças em duas equipas, sendo uma de armas automáticas e outra de granadeiros. O início da acção era marcado por uma rajada, seguindo-se o lançamento de granadas de mão.

As minas e as armadilhas foram utilizadas em grande escala pelo MPLA, a partir de 1966, e principalmente no Leste. Eram usadas não só nos trilhos, como no interior dos acampamentos abandonados, sendo, por vezes, armadilhadas as minas anti-carro, para dificultar o seu levantamento pelas forças portuguesas.
A fim de evitar que os guerrilheiros ou a população as fizessem accionar, a localização das minas e das armadilhas era sinalizada com marcas nas árvores próximas.

Embora esporadicamente, o MPLA realizou também flagelações e ataques a aquartelamentos portugueses, utilizando neste caso morteiros, canhões sem recuo e armas ligeiras.

Armas mais utilizadas pelo MPLA:

Pistola (Tokarev)
Pistola-metralhadora 9 mm M/25
Pistola-metralhadora 7,62 mm PPSH
Espingarda semiautomática Simonov
Espingarda automática Kalashnikov
Metralhadoras ligeiras e pesadas
Morteiro de 82 mm
Lança-granadas-foguete
Minas A/C e A/P

Os lança-granadas-foguete foram introduzidos cerca de 1970, tendo o primeiro ataque a forças portuguesas com esta arma ocorrido em 22 de Setembro do mesmo ano, no Cuando-Cubango.

Armamento típico de um grupo do MPLA:

Metralhadora ligeira                                                       1
Espingarda Simonov                                                     4/6
Espingarda Mauser, Kalash ou carabina Steyer     3/4
Pistola-metralhadora M25                                            4/6

Em 1970, um relatório das forças portuguesas fazia a seguinte análise sobre o movimento:

«O MPLA está bem organizado e armado e controla bem as populações. Dispõe de armas automáticas, semiautomáticas, de repetição e granadas de mão, que sabe utilizar convenientemente, e os seus combatentes mostram coragem e audácia nas suas acções extremamente rápidas sobre as NT (nossas tropas). »

O MPLA construía habitualmente os seus acampamentos em matas fechadas, a fim de não serem facilmente detectados pela aviação. Além disso, os guerrilheiros construíam também abrigos destinados à defesa contra ataques aéreos. A localização das bases estava igualmente sujeita ao condicionamento de poder colocar sentinelas que detectassem a aproximação das forças portuguesas.

O movimento executou actividades de acção psicológica, usando como veículo as emissões rádio e os panfletos, procurando minar a vontade de combater dos militares portugueses.

Mas o grande esforço neste campo foi dirigido às populações, como consta da apreciação militar portuguesa: «Neste campo de actuação, a sua acção psicológica, de carácter revolucionário, dirigida às populações, bate as diversas teclas da luta contra o colonialismo, tribalismo e capitalismo, fomentando o ódio ao branco e à política portuguesa. Na sua propaganda, utiliza a rádio, a conversa e os folhetos mais diversos.»

O apoio logístico do MPLA vinha sobretudo a partir da Zâmbia. Das suas bases instaladas neste país recebia armamento e munições, víveres enlatados e medicamentos. A maior parte dos géneros alimentares era obtida a partir de recursos locais. As populações garantiam aos guerrilheiros os meios de subsistência de que necessitavam.

Em 1965, o MPLA conseguiu instalar forças bem armadas na região a sul de Nambuangongo, próximo de rio Dange, desalojando os elementos da UPA/FNLA ali instalados desde 1961.

Daqui, o movimento alargou a sua influência para sul, na direcção de Catete e para leste, na direcção de Mucondo, expulsando a UPA/FNLA de mais algumas das suas bases.

O avanço militar do MPLA para sul ameaçou a «Estrada do Café» Luanda-Caxito-Carmona e poderia vir a criar problemas noutro itinerário importante, a estrada Luanda-Catete-Salazar, o que aproximava a guerrilha da capital. Este avanço foi travado pelas forças portuguesas em operações de certa envergadura, realizadas em 1968.

Ainda em 1965, o MPLA, contando com o apoio do Congo-Brazzaville, expandiu as suas actividades militares em Cabinda, que iniciara em 1964. Nesta zona, levou à prática grande número de acções; principalmente emboscadas e minas, que provocaram baixas nas forças portuguesas.

Mas logo no ano seguinte a sua actividade militar diminuiu, por ter orientado o seu esforço para a zona leste. Em 1966, o MPLA, que desde o ano anterior desenvolvia intensa acção política na região leste, transferiu parte dos seus combatentes e do material do Congo-Brazzaville para a Zâmbia, e em Abril infiltrou numeroso grupo de guerrilheiros no saliente do Cazombo, alargou a sua influência para o Chiume e, posteriormente, para Gago Coutinho, tendo por vezes de defrontar elementos da UNITA.

Em 1967, o MPLA ultrapassou o rio Cuando, atingindo Mavinga, já no distrito do Cuando-Cubango. A partir de 1968, a sua actividade militar expandiu-se ao longo dos vales do Luena e Lungué-Bungo, em direcção ao Luso e ao distrito da Lunda. O movimento designou esta penetrante por Rota Agostinho Neto e foi ao longo dela que se desenrolaram as principais acções militares entre as forças portuguesas e o MPLA.
No Leste, o MPLA defrontou também a UNITA, tendo ocorrido combates entre os dois movimentos nas regiões de Lumeje, Casage e Chafinda. Como consequência desta pressão do MPLA, a UNITA, segundo relatório militar português, sofreu profunda redução de influência na zona leste, à excepção da faixa adjacente ao caminho de ferro de Benguela.

A Rota Agostinho Neto.

O início do movimento de expansão da III Região Militar para norte do caminho de ferro de Benguela, com vista à instalação da futura IV Região Militar, ocorreu em 18 de Março de 1968, tendo sido efectuado por elementos da Zona A da III Região Militar, comandados por Pambassangue, que partiram de Lumeje. Como comandante de toda a operação de penetração foi nomeado Petrof, membro da Comissão Militar, mais tarde substituído por Henrique Teles Carreira, «Iko». Para esta operação foram constituídos dois grupos, sendo designado o primeiro por Certeza ou Fura Terra, sob o comando de Paulino Manuel e de João Correia «Diazau» e o segundo por Lastro ou Fura-Mata, que actuou dividido em dois subgrupos com os nomes de Lastro A ou Secção Sangue do Povo, sob o comando de Cafuxe, e Lastro B ou Secção Pachanga, sob o comando de Chambassuku.

O conceito de manobra desta operação consistia em fazer actuar o Certeza na região de Luacano-Casage-Lumeje-Nova Chaves-Cassai e o Lastro na região de Lumeje-Buçaco e infiltrar um destacamento com a designação de Grande Bomboko ou BBKO, sob o comando de Mateus Cadete «Kavunga», com a missão de atingir Sautar (distrito de Malanje) e activar o II Distrito da IV Região Militar.

Em 15 de Junho, o destacamento BBKO chegou a Mandume, sendo dividido em três secções, que avançaram por escalões. Os grupos Lastro escoltaram o destacamento BBKO até Sautar, cobrindo-lhe os flancos e a retaguarda. Em 29 de Julho de 1968, o primeiro grupo do destacamento Certeza encontrava-se na margem esquerda do rio Lualo, a sueste de Nova Chaves, portanto no seu objectivo, vindo o seu posto de comando a receber o nome de código de Kaladende.

Por sua vez, em 8 de Agosto, a secção Pachanga estava na região de Luatxe, juntamente com a primeira secção do destacamento BBKO.

A partir de 31 de Outubro, o MPLA achava-se em vias de consolidar a sua actividade político-militar na Lunda e na faixa leste do sector do Luso e de infiltrar uma secção do destacamento BBKO na região de Sautar, através da infiltrante geral rio Luena-Sandando-rio Cassai, que materializaria a Rota Agostinho Neto.
Em 30 de Novembro de 1968, parte do destacamento BBKO estava instalado na região de Luma-Cassai e a secção Certeza implantara-se entre Casage-Nova Chaves e o rio Cassai.

O posterior desenvolvimento da guerra obrigou o MPLA a deslocar a Rota Agostinho Neto mais para sul e, em 1969, foram assaltados por forças portuguesas cinco dos principais acampamentos que apoiavam esta penetrante - Chichima, Chiconde, Ho-Chi-Minh, Cauevo e Che Guevara.

A Rota Agostinho Neto constituiu a zona de conflitos mais intensos entre as forças do MPLA e as forças portuguesas de toda a guerra no Leste.


Índice
1 - MPLA/ Rota Agostinho Neto
2 - UPA/FNLA
3 - UNITA
Multi-média
» Organização do MPLA
» MPLA
» Agostinho Neto