Tribalismo e nacionalismo


Tribalismo e nacionalismo
 
Josep Sanchez Cervelló

Partir do final da década de 1940 surgiram, no Norte de Angola, vários movimentos com o objectivo comum de se oporem ao sistema colonial. Tiveram, de início, características messiânicas e base tribal, destacando-se o movimento encabeçado pelo «profeta» Simão Toco, que anunciou o fim da miséria e nova mensagem divina. Embora detido pelas autoridades em 1949, as suas ideias estenderam-se entre os bacongos emigrados no então Congo Belga, que vieram a criar, em 1956, a Aliança do Povo Zombo (Aliazo). Este movimento converteu-se, em 1962, no Partido Democrático de Angola (PDA).

Mas foi outro movimento, de características similares, que esteve na base da sublevação da Baixa do Cassange, em Janeiro de 1961. O movimento, que, de alguma forma, colheu de surpresa as autoridades portuguesas, iniciou-se com uma greve dos trabalhadores da Companhia Cotonang, como forma de protesto contra o atraso no pagamento de salários, mas transformou-se rapidamente em protesto da população contra o cultivo obrigatório de algodão e as duras condições de trabalho. Em todo o movimento, desempenhou papel de destaque António Mariano, que pertencia a uma seita católica e cujo nome ficou ligado à insurreição, conhecida com o nome de «Guerra de Maria». Os habitantes da região queimaram as sementes, destruíram ou interromperam vias de comunicação, mataram gado, invadiram armazéns e missões católicas, expulsaram os brancos, mas não utilizaram armas. Para reprimir este movimento, as autoridades socorreram-se de unidades do Exército e da Força Aérea presentes em Angola, que atacaram os grevistas de 24 de Janeiro a 2 de Março, transformando a acção num desproporcionado massacre de populações, cujo número de vítimas nunca se conheceu com exactidão.

Contudo, a organização que viria a dar consistência ao nacionalismo bacongo foi a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), criada em Julho de 1954, em Leopoldville, com a finalidade de influenciar a sucessão do rei do Congo, Pedro VII, que morreu nesse ano. A UPNA pretendia que o futuro monarca fosse mais independente das autoridades portuguesas, apresentando como candidato Holden Roberto (n. 1927-2007) aparentado com o antigo rei. Os seus apoiantes encontravam-se entre os bacongos angolanos emigrados no Congo Belga e nas missões protestantes, numa das quais ele próprio fora educado. Mas o Governo e a Igreja Católica tinham outro candidato, António José da Gama, que tomou o nome de António III, cuja facção derrotada iniciou, então, uma onda de agitação independentista, que alcançou o seu ponto mais alto ao longo de 1957. Mas como neste último ano morreu António III, as autoridades portuguesas preferiram deixar vago o trono, para mitigar o nacionalismo que nova designação poderia provocar.
A UPNA tinha como objectivo programático a independência do antigo reino do Congo, em que se incluía Cabinda. Com esta ideia, Holden Roberto foi, em Dezembro de 1958, ao Congresso dos Povos Africanos realizado em Acra. Perante a vitalidade da ideia do pan-africanismo ficou convencido da necessidade de diluir a componente tribal do seu partido, o que o levou a mudar-lhe o nome para União dos Povos de Angola (UPA). A partir então, a UPA transformou-se no movimento nacionalista mais bem organizado e aquele que maiores simpatias congrega. Iniciou então o processo de implantação em áreas de maior dimensão, com o objectivo de se estender a todo o país. Em Luanda, a maior parte dos seus apoiantes, que não podiam deixar de ser clandestinos, como de resto os de todos os outros movimentos, eram protestantes. Mas tinha também a simpatia de destacados católicos, como o cónego Manuel Mendes das Neves, decano do capítulo da catedral de Luanda, vigário-geral da mesma arquidiocese e director do Seminário de S. Domingos.

Nestes meios nacionalistas sentiu-se a necessidade imperiosa de oposição ao sistema colonial, logo a seguir às primeiras independências africanas, mas especialmente a seguir à do Congo Belga, em Junho de 1960. Foi, aliás, na sequência dese sentimento, que se planeou o assalto a duas prisões Luanda: a Casa de Reclusão Militar e o Forte de São PauIo, essencialmente para libertar alguns presos políticos nacionalistas. De Leopoldvillle, onde estava exilado, Holden Roberto desaconselhou este projecto, sobretudo porque em Luanda, em torno da UPA, se movimentava apreciável número de mulatos, entre os quais o cónego Mendes das Neves, que não eram da confiança de Holden Roberto. Mas também porque ele desejava iniciar a guerra com uma insurreição de grandes proporções, já em preparação para a zona bacongo, onde as raízes da UPA eram muito mais profundas.

Contudo, os conspiradores de Luanda não só não detiveram a mobilização, como aceleraram a sua execução, a fim de aproveitar a presença na cidade de dezenas de jornalistas estrangeiros atraídos pelo assalto ao paquete Santa Maria, que poderiam vir a sensibilizar o mundo para a situação colonial portuguesa. Entre cerca de uma centena de participantes na acção, o núcleo principal era formado por protestantes ligados à UPA, havendo também estudantes católicos do Seminário de São Domingos e alguns simpatizantes do MPLA e de outros grupos, porque o conceito destas militâncias não era então muito rígido.

O ataque iniciou-se na noite de 4 de Fevereiro. O balanço oficial de vítimas foi de cerca de quarenta assaltantes e de sete polícias, já que as forças portuguesas, recuperadas da surpresa inicial, neutralizaram com facilidade o ataque realizado com «catanas e varapaus». Nos dias seguintes, e em especial no dia do funeral dos polícias mortos, os colonos brancos e as forças militarizadas desencadearam violenta repressão nos bairros negros de Luanda, que durou cerca de um mês. Curioso foi que o MPLA, cuja direcção estava exilada em Conacri, reivindicou a acção, enquanto a UPA se remeteu ao silêncio.

O Conselho de Segurança da ONU foi convocado para apreciar os acontecimentos de 4 de Fevereiro. A UPA, assessorada por conselheiros americanos, pretendeu aproveitar a oportunidade para conseguir as simpatias mundiais para a sua causa, o que a levou a preparar uma sublevação geral de grande parte da região norte de Angola, incluindo São Salvador, Uíje, Dembos, Luanda e Cuanza Norte. Nesta zona, a partir de 15 de Março, elementos da UPA e seus seguidores destruíram tudo o que encontraram pela frente: fazendas, postos administrativos, destacamentos policiais; atacaram brancos e pretos, crianças e mulheres, numa onda nunca vista de chacinas e assassínios. As vítimas cifraram-se em cerca de mil brancos e seis mil negros. Esta actuação da UPA não só contribuiu para um profundo movimento de revolta dos colonos brancos, como deu ao Governo português o argumento final de que necessitava para envolver o país numa guerra sem quartel contra qualquer movimento ou expressão nacionalista.
Demonstrou também a ausência, no seio da UPA, de qualquer base ideológica moderna, evidenciando-se a sua natureza tribal. De facto, os bacongos não conseguiram, nem sequer tentaram, o apoio, ou ao menos a neutralidade, dos trabalhadores negros contratados das fazendas do Norte, fundamentalmente constituídos por ovimbundos e ganguelas provenientes do centro de Angola.

À dureza e barbaridade tribal, as forças portuguesas responderam implacavelmente. Em 9 de Agosto, o exército entrava em Nambuangongo, proclamada antes a capital dos revoltosos. Antes do fim do ano, incompreensivelmente, alguns, responsáveis portugueses davam as hostilidades por terminadas.

Em conclusão, a UPA, ao ser a primeira organização a iniciar as hostilidades em grande escala, mobilizando milhares de seguidores, acabou por conseguir grande apoio internacional, desde os Estados Unidos até vários países africanos. Para corrigir a sua conotação tribal, a UPA transformou-se em Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) em Março de 1962, integrando o PDA. Pouco depois constituiu o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), que, no fim de 1963, tinha sido reconhecido pela OUA e por 32 países africanos.


Índice
1 - Tribalismo e nacionalismo
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