Da fundação ao início da guerra


Da fundação ao início da guerra

Josep Sanchez Cervelló

Para compreender as dificuldades do movimento nacionalista na Guiné, basta lembrar que, quando começou a guerra, mais de 90 por cento da população era analfabeta e apenas catorze homens, na sua maioria de origem cabo-verdiana, tinham formação universitária.

Nesta situação, a consciência anticolonial foi, numa primeira fase, assumida pela pequena burguesia local, que se integrava, de forma geral, na administração pública da Guiné. Foi neste meio que se propagaram os ideais da independência nacional.

O nacionalismo e a luta anticolonial na Guiné e Cabo Verde estiveram profundamente ligados à figura carismática de Amílcar Cabral (1924-1973). Estudante de Agronomia em Lisboa, aqui se encontrou, na Casa dos Estudantes do Império, com outros futuros dirigentes negros, entre os quais se destacaram os angolanos Agostinho Neto e Mário de Andrade, o são-tomense Francisco José Tenreiro e os moçambicanos Eduardo Mondlane e Marcelino dos Santos, empenhando-se, com todos eles, na «reafricanização dos espíritos».

Durante o seu tempo de estudante, manteve contactos com o PCP, retomando-os em 1952, quando se instalou em Bissau, contratado pelo Ministério do Ultramar para os serviços agrícolas e florestais daquela colónia. Em 1954, esteve na origem da criação da Agremiação Desportiva e Recreativa de Bissau, que não foi legalizada e em Março de 1955, regressou a Lisboa, mas numa das suas frequentes deslocações à Guiné fundou, em Setembro de 1956, o Partido Africano da Independência (PAI), que, em Outubro de 1960, se transformou em Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Voltando ainda a Lisboa, participou, com outros africanos nacionalistas de Angola e Moçambique, na fundação do Movimento Anticolonial (MAC).

Amílcar Cabral dedicou a vida à libertação do seu povo e à luta contra o colonialismo português. Três ideias são constantes no seu pensamento teórico: o pan-africanismo, ou seja, a solidariedade inter-africana; a construção de uma sociedade mais justa, na linha de um socialismo africano; e a unidade da Guiné e Cabo Verde.

Em Janeiro de 1960, abandona definitivamente Lisboa, para encabeçar a luta de libertação nacional. Entretanto, na Guiné, a chama da independência ia ganhando adeptos, impulsionada pelo exemplo dos países vizinhos, em especial a Guiné-Conacri, independente desde 1958.

As autoridades portuguesas, perante os exemplos vizinhos, onde os movimentos nacionalistas tinham conduzido os seus países à independência, tentaram cortar pela raiz qualquer movimento do mesmo tipo, actuando com dureza perante qualquer atitude de contestação. O momento mais alto deste confronto ocorreu em Pidgiguiti, em 3 de Agosto de 1959, quando as forças da ordem carregaram contra uma manifestação de trabalhadores portuários que exigiam melhores salários, e de que resultaram dezenas de mortos e feridos.

A matança de Pidgiguiti, como foi chamada pelos nacionalistas, marcou definitivamente o rumo do PAIGC, que, um mês depois dos acontecimentos, realizou uma conferência clandestina em que decidiu preparar-se para o início da luta armada. A fase de organização clandestina do partido veio a ser, depois, afectada pelas detenções efectuadas em Fevereiro de 1962, em Bissau, pelas autoridades portuguesas, que levaram à prisão centenas de pessoas, o que atrasou a sua actuação na capital. Entre os detidos estava Rafael Barbosa, número dois na hierarquia (formalmente, presidente do Comité Central).

Antes de iniciar as hostilidades, o PAIGC enviou várias propostas ao Governo português para que desse oportunidade aos habitantes da Guiné e Cabo Verde de decidirem livremente o seu destino. A última, de Outubro de 1961, exigia o direito à autodeterminação, advertindo que o partido se veria na obrigação de iniciar a luta armada. A proposta não obteve qualquer resposta, pelo que o conflito se tornou inevitável. Na sua preparação, o PAIGC contou com uma retaguarda segura na Guiné-Conacri, onde foi instalado o seu quartel-general, vindo também a obter o apoio do Senegal, independente desde 1960.

A fase pré-insurreccional, de 1959 a 1963, teve especial importância para o PAIGC, porque muitos quadros preparados em Conacri passaram clandestinamente a fronteira para viver no seio das comunidades locais, onde levaram a cabo um permanente trabalho político. Estes militantes eram, de forma geral, originários das cidades, tendo sido especialmente formados para compreender o pensamento das comunidades rurais. O seu êxito foi diverso, de acordo com o desenvolvimento e as características dessas comunidades, mas o sucesso maior ocorreu junto da etnia balanta, a mais numerosa e com maior dispersão geográfica, cujo núcleo principal vivia no Centro da Guiné, em zona de floresta de difícil penetração, com contactos com as fronteiras da Guiné-Conacri e do Senegal.

Na Guiné, a guerra iria tornar-se muito difícil para as forças portuguesas não apenas pela capacidade da guerrilha, como pelas condições físicas da colónia.


Índice
1 - Da fundação ao início da guerra
2 - Organização militar
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