Armamentos


 Armamentos

O equipamento e o armamento das forças militares para a guerra de contraguerrilha deve ser adaptado ao clima e ao terreno, proporcionando às forças regulares um diferencial de potencial que lhes permita compensar a melhor adaptabilidade ao meio por parte dos guerrilheiros.
As Forças Armadas Portuguesas, por fraqueza do aparelho produtivo nacional, que não dispunha nem de indústrias nem de tecnologia para as equipar, e por embargo político, que limitava as aquisições no estrangeiro, tiveram muitas dificuldades em obter os meios mais adequados para combater em África, mas o primeiro obstáculo ao seu equipamento foi a existência na prática, de três forças armadas independentes, dirigidas cada uma por um ministro (secretário de Estado no caso da Aeronáutica) e que até ao final da guerra. como escreveu o último ministro de Defesa, Silva Cunha, nunca conseguiram coordenar políticas.
Ao nível do Governo central, o Ministério do Exército, o Ministério da Marinha e a Secretaria de Estado da Aeronáutica, geriam os seus orçamentos e recursos como se cada um estivesse empenhado numa guerra particular, daí resultando que os equipamentos das forças dos vários ramos eram muitas vezes incompatíveis entre si.
O exemplo mais grave das incompatibilidades é o das comunicações.
A maioria dos rádios da Marinha e da Força Aérea e as frequências em que podiam operar não permitiam a ligação com os do Exército, o que obrigava a trocar equipamentos sempre que se faziam operações conjuntas. Era, por vezes, necessário inventar «relais» e códigos de comunicação, ou voar com um rádio do Exército colado à orelha, tentando ouvir as comunicações de terra sobre o barulho do motor do avião.
Embora algumas destas incompatibilidades apenas dificultassem o apoio mútuo e tivessem importância menor, o facto é que prejudicavam a cooperação interforças. As armas ligeiras dos pára-quedistas, a Armalite (AR-10), eram diferentes das do Exército e da Marinha, a G-3, e os fuzileiros dispunham do morteiro de longo alcance, que mais nenhuma força possuía, mas não tinham viaturas tácticas, utilizando camiões civis de tracção a apenas um eixo, ou as do Exército, tal como os pára-quedistas. No material de bivaque (acampamento), o princípio também era o da diversidade nas tendas e nas cozinhas, assim como no fardamento e no equipamento individual, desde os camuflados aos porta-carregadores, aos bornais, mochilas e impermeáveis de campanha, os ponchos, o que causava algumas dificuldades por falta de normalização quando se tornava necessário transportar forças em meios aéreos ou navais, ou em as fazer, viver em conjunto, mas nada que a experiência e o desembaraço não resolvessem à custa de maiores ou menores riscos, ou de trocas e adaptações inopinadas.
Ultrapassada a fase inicial da guerra, depois de forças portuguesas terem substituído o material NATO da II Guerra Mundial por outro predominantemente alemão e francês (Mercedes e Berliet nas viaturas, Allouette e Fiat G-91 nas aeronaves, G-3 e HK-21 nas armas) o seu equipamento ficou razoavelmente adequado ao nível da guerra.
 
Contudo, enquanto este equipamento representou para as forças portuguesas o limite máximo que foi possível atingir, os movimentos de libertação continuaram a receber do melhor e mais moderno equipamento e armamento que se fabricava, a ponto de, em Outubro de 1968, o general Spínola fazer a seguinte comparação da dotação orgânica de armamento ligeiro da unidade-base das forças combatentes em presença: a companhia de caçadores, para o Exército português, e o bigrupo, para o PAIGC:

Companhia de Caçadores (120 homens)

- Metralhadora ligeiras      3
- Lança-foguetes                4
- Metralhadora pesada      -
- Morteirosde 60 mm          2

Bigrupo PAIGC                          (40 homens)

- Metralhadora ligeiras        4 a 6
- Lança-foguetes                  2 a 6
- Metralhadora pesada        2 a 4
- Morteiros de 82 mm          2 a 4

Embora a Guiné tivesse sido o caso mais extremo de diferença de potencial, onde, como se vê, o bigrupo tem um terço dos efectivos combatentes e quase o dobro do armamento mais significativo de uma companhia de caçadores, ele ocorre logo em 1968, isto é, cinco anos após o início da guerra. Embora sem este brutal desequilíbrio, nos outros teatros foi constante a evolução dos equipamentos dos movimentos de libertação.

O estudo feito pelo Comando-Chefe das Forças Armadas Portuguesas na Guiné, em 1968, refere ainda:
«O armamento ligeiro de que o inimigo dispõe, fundamental para a guerra subversiva, é tecnicamente muito superior ao distribuído às nossas forças. Com efeito, enquanto o PAIGC tem vindo a receber alguns dos tipos de armamento mais recentes dos exércitos do Pacto de Varsóvia, como, por exemplo, o lança-granadas-foguete soviético RPG-7 de 4 cm e o canhão sem recuo checoslovaco T-21 de 8,2 cm, as nossas forças continuam a utilizar o armamento ligeiro de apoio que, sendo na sua quase totalidade anterior à II Guerra Mundial, está necessariamente sujeito a avarias e tem provocado situações críticas frente ao inimigo.»

Após 1968, a situação não deixou de se agravar e, com excepção de Angola - onde nenhum dos três movimentos, por fraqueza organizacional resultante de questões políticas ou outras, dispôs de forças com capacidade para empregar em larga escala armamentos modernos, que estiveram disponíveis - pode dizer-se que a partir de 1970, quer na Guiné quer em Moçambique, o PAIGC e a Frelimo se encontravam em superioridade tecnológica relativamente às forças portuguesas.

Este caso único, em que o exército da potência colonial combate em inferioridade de meios com os movimentos da guerrilha, era materializado do seguinte modo:


Índice
1 - Armamentos
2 - Armamentos - Forças Armadas Portuguesas2
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