Operação Águia


Operação Águia

O ataque do grupo de guerrilheiros da Frelimo, em 25 de Setembro de 1964, ao posto administrativo do Chai, no distrito de Cabo Delgado, é celebrado como data oficial do inicio da luta armada em Moçambique Embora acções violentas dos nacionalistas moçambicanos tenham ocorrido anteriormente, é a partir desse momento que a luta alastra a todo o Norte do território.
A resposta das forças portuguesas a esta situação foi idêntica à que haviam experimentado em Angola e na Guiné: criação de uma malha de forças de quadrícula, que podia ser apertada à medida das necessidades, instalando batalhões e companhias em pontos chave, e realização de acções de controlo de populações, de patrulhas para garantir a segurança das vias de comunicação e de operações ofensivas com o objectivo de destruir as bases dos grupos de guerrilheiros.
O dispositivo militar na zona de Cabo Delgado centrou-se em Mueda, capital tradicional do planalto dos Macondes, que é o ponto de convergência de todas as grandes vias de comunicação:

- da estrada que liga o planalto ao mar, vinda de Mocímboa da Praia;
- ao norte, para a Tanzânia, através de Mocímboa do Rovuma;
- ao sul, em direcção a Montepuez e a Pemba (Porto Amélia);
- e ao interior do planalto, para Nangolo e Muidumbe.

Quando o dispositivo inicial passou, em qualquer dos teatros de operações, a garantir o suporte logístico mínimo às forças portuguesas, estas planearam e levaram a efeito uma grande operação convencional destinada a eliminar as bases da guerrilha e a demonstrar às populações a superioridade portuguesa.
Enquanto, em Angola, esta acção inicial recebeu o nome de Operação Viriato e se destinou a reocupar o Norte, na Guiné se chamou Operação Tridente, sendo efectuada com o objectivo de recuperar a ilha do Como, em Moçambique, a grande operação de partida recebeu o nome de Águia e pretendeu eliminar a guerrilha do Planalto dos Macondes. Teve início em 2 de Julho de 1965.
Para a Operação Águia foi constituído o agrupamento 23, formado por dois batalhões de caçadores, o 558 e o A (Batalhão de Caçadores de Nampula) e por uma bateria de artilharia de 8,8 mm.
A missão das forças era, como constava ordem de operações, «realizar uma nomadização contínua no tempo e tão vasta quanto possível no espaço» na área entre os rios Rovuma e Messalo, e «desenvolver uma actividade destinada simultaneamente a exercer uma acção de presença junto das populações, destruir os elementos armados que entre elas se acoitam, destruir instalações caracteristicamente terroristas, furtando assim aos bandos inimigos todo o apoio por parte das populações, comprometidas ou não».
A Operação Águia desenrolou-se em moldes semelhantes à Operação Tridente: uma fase inicial com o máximo de efectivos disponíveis em acções ofensivas e ocupação de pontos importantes, com a constituição de bases operacionais, seguida de acções em superfície, realizadas em permanência por unidades de menores efectivos, e finalmente a ocupação permanente da zona por unidades de quadrícula. Esta seria, aliás, uma modalidade de acção usada com frequência pelas forças portuguesas sempre que o inimigo não dispunha de capacidade para se superiorizar a essas unidades.
Como constou do relatório da operação, os guerrilheiros procuraram inicialmente, «a todo o custo, dificultar a nossa acção, o que é patenteado pelo número de emboscadas e de acções de flagelação às nossas colunas: em 1 de Julho, ataque à base de Miteda; em 2 de Julho, duas emboscadas; em 3 de Julho, «ataque à base de Muatide e duas emboscadas; e em 8 de Julho, uma emboscada», acções que provocaram quatro mortos e dezoito feridos nas forças portuguesas .
Em 8 de Julho, estas desencadearam uma acção de bombardeamento com artilharia e aviação sobre o triângulo Miteda-Nangololo-Muatide, acompanhada de emboscadas sobre as prováveis linhas de retirada dos guerrilheiros.
Em 12 de Julho, foi alvejado um avião Auster ; nos dias 14, 16, 17, 18 e 20,21, 22, 29 e 30 do mesmo mês, colunas portuguesas foram emboscadas e, a 31, os guerrilheiros fizeram accionar forte carga de trotil comandada à distância. Os militares portugueses sofreram mais seis mortos e vinte e sete feridos.
A situação na zona era sintetizada do seguinte modo pelo comando da operação: «Existência de um inimigo numeroso, fortemente mentalizado, bem armado, sem quaisquer privações ou restrições no emprego de munições e que se habituara a actuar com relativo à vontade na zona.»
A partir do final de Julho, a Operação Águia entra em nova fase, já não com a realização de golpes de mão, mas sob a forma de batidas. Estas acções receberam as designações de Águia Branca, Águia Amarela, Águia d'Ouro, Águia Vermelha e prolongaram-se até 6 de Setembro, data em que terminou oficialmente a operação.
Ao findar esta grande operação, a situação no Planalto dos Macondes continha já todos os elementos que caracterizariam a guerra naquela zona durante os anos subsquentes: grande violência, especialmente sobre as estradas e vias de comunicação, através de emboscadas e minas; perda de controlo por parte das forças portuguesas da esmagadora maioria da população do planalto, com excepção do pequeno número dos que se mantinham nas proximidades de alguns quartéis, instalados em antigas povoações macondes (Mueda, Nangololo, Diaca, Mocímboa do Rovuma, Nangade); existência de elevados efectivos de guerrilheiros bem armados, dispondo de bases poderosas no interior do planalto e de apoios ao seu trânsito, a partir da Tanzânia.


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