Longe da guerra - Cinema


Longe da guerra - Cinema

José de Matos Cruz

Ao contrário do que havia sucedido noutros períodos marcados pelas circunstâncias político-militares, as ocorrências da Guerra Colonial não tiveram, no cinema português, uma significativa incidência directa, em actualidades ou reportagens. Por dois motivos principais: a influência da censura e a importância sucedânea da televisão.

Em alternativa, o documentarismo africano mereceu um expressivo incremento graças ao apoio oficial, especialmente sobre Angola e Moçambique, em múltiplas vertentes - sociais, económicas, turísticas, de ensino - numa dinâmica de progresso e desenvolvimento.

Por outro lado, desde meados dos anos 1960, a Guerra Colonial reflectiu-se na área ficcional da nossa cinematografia, em longas metragens - tal como se abordará, pelo decurso cronológico. Em causa, sobretudo, os conflitos individuais - com argumento do realizador, nos filmes não discriminados - que se repercutem pelo envolvimento familiar e comunitário através das convencionais implicações dramáticas ... Assim, «29 Irmãos» (1965, Augusto Fraga) - com argumento de Manuel Frederico Pressler - baseia-se num caso verídico, ocorrido em 1963: após dois anos a combater em Angola, lIídio (José de Castro) regressa à aldeia onde Maria, sua noiva, se mostra indiferente, por vocação religiosa.

Baseado em «Caminhos», de Reis Ventura, «A Voz do Sangue» (1965, Augusto Fraga) reconstitui a saga duma família em Angola, entre os anos 1940 e 1961, culminando no dilema dum advogado e oficial (Heitor Gomes Teixeira), que, em tribunal, tem de defender um homem que ignorava ser seu pai.

«Mudar de Vida» (1966, Paulo Rocha) centra-se numa comunidade piscatória - Furadouro - aonde regressa Adelino (Geraldo d'EI Rey), após cumprir o serviço militar em África, descobrindo casada a mulher que amava.

Ao estilo de comédia, «O Amor Desceu em Pára-Quedas» (1968, Constantino Esteves) - com argumento de Aníbal Nazaré e António Cruz - relata as peripécias de Jorge (António Calvário), ex-fuzileiro em Angola, que se emprega como mordomo na sua própria casa, em São Pedro do Estoril!

Documentário longo e em 70 mm, produzido pelo Serviço de Informação Pública das Forças Armadas, «Angola na Guerra e no Progresso» (1971, Quirino Simões) baseia-se em «Aquelas Longas Horas», de Manuel Barão da Cunha, incluindo uma síntese dos acontecimentos de 1961 e a subversão no Leste a partir de 1967.

«Grande, Grande Era a Cidade» (1971, Rogério Ceitil) segue a deambulação de dois jovens por Lisboa - o mais velho, António (José Silva Amador), feito na guerra em África -, tentando a sua sorte, com as mulheres e quanto ao destino.

Incompleto ficou, «Os Caminhos da Verdade» (1972, Michel Ribó), acompanhando Marco (Rui Gomes) de regresso a Lisboa - após a guerra em África -, onde encontra um antiquário e a sócia, parecida com a sua própria mãe.

Um outro mancebo, João (João Mota) é «O Mal Amado» (1972), de Fernando Matos Silva - argumentista com Álvaro Guerra e João Matos Silva - para quem a jovem patroa transfere uma paixão frustrada pelo irmão morto na Guerra Colonial.

Em «Perdido por Cem...» (1972, António Pedro Vasconcelos), Artur (José Cunha) vê a mulher que ama ser assassinada pelo ainda namorado, que cumprira o serviço militar em Angola...

Após o 25 de Abril de 1974, outras foram as perspectivas e implicações. Para a RTP, «Adeus, até ao Meu Regresso» (1974, António Pedro Vasconcelos) testemunha - a propósito das mensagens de Natal para as famílias, através da televisão - alguns casos significativos, entre os milhares de soldados que combateram na Guiné.

Alegoria sobre Portugal - um universo opressivo, em tempo de fantasmas - «Os Demónios de Alcácer-Quibir» (1975, José Fonseca e Costa) culmina com uma carga policial no Alentejo, enquanto a negra África, de arma em punho, se afasta no horizonte livre.

Incompleto ficou também, «O Último Soldado» (1979, Jorge Alves da Silva), sobre um oficial pára-quedista (João Perry) de regresso a Portugal, após o processo de descolonização, enfrentando dificuldades de readaptação conjugal e social.

Co-produção luso-ítalo-soviética, rodada em Lisboa, «La Vitta é Bella» (1979, Grigori Tchoukrai) decorre no início dos anos 1960, sobre António (Giancarlo Giannini), um taxista outrora aviador militar que, durante a guerra em Angola, recusara abrir fogo e afundar um barco com mulheres e crianças.

Em, «Auto dos Feitos da Guiné» (1980), Fernando Matos Silva argumentista com Margarida Gouveia Fernandes - encena, na forma de teatro de crítica, a relação histórica da colonização portuguesa e dos seus heróis, integrando material filmado pelo realizador na Guiné, em 1969-70.

Em Portugal, 1973, «A Culpa» (1980, António Vitorino de Almeida) paira sobre Mário (Sinde Filipe), ex-combatente da guerra da Guiné, obcecado com a morte de dois homens: um soldado e um nativo, por alarme que deu durante a noite. «Antes a Sorte que tal Morte» (1981), de João Matos Silva - co-argumentista com Álvaro Guerra e Fernando Matos Silva -, segue o destino aventuroso de Luís (Rui Mendes), ex-estudante em Lisboa e ex-combatente em África, entre a paixão e o ensejo de "voltar à acção".

Em, «Gestos & Fragmentos - Ensaio sobre os Militares e o Poder» (1982, Alberto Seixas Santos), Otelo Saraiva de Carvalho narra o percurso que o levou, com os seus camaradas do Movimento dos Capitães, da Guerra Colonial ao golpe de Estado do 25 de Abril de 1974.

«Um Adeus Português» (1985) de João Botelho - co-argumentista com Leonor Pinhão, evoca uma história da Guerra Colonial (África, 1973), quando uma patrulha se perde no mato, e um furriel morre na operação.

Para a RTP, sobre a obra de Mário de Carvalho, «Era uma Vez um Alferes» (1987, Luís Filipe Rocha) reconstitui um episódio da Guerra Colonial, em África: durante uma patrulha na mata, um alferes português pisa uma mina, que rebentará quando ele levantar o pé.

Em «Matar Saudades» (1987), de Fernando Lopes - co-argumentista com Carlos Saboga e António Pedro Vasconcelos -, Abel (Rogério Samora), emigrante e ex-combatente da Guerra Colonial em África, regressa à aldeia natal para eliminar um pretendente da mulher.

História de tempos idos, «A Idade Maior» (1990, Teresa Villaverde Cabral) recua a Portugal em 1972-73, quando os homens eram obrigados a partir para terras que grande parte da população não saberia apontar no mapa, onde morriam ou se transformavam...

Entretanto, os contornos esbatem-se nos filmes mais recentes.

Em, «Non ou a Vã Glória de Mandar» (1990, Manoel de Oliveira), alguns soldados, já no crepúsculo da Guerra Colonial em África, pouco antes do 25 de Abril de 1974, reflectem sobre a identidade pátria, ilustrada desde os primórdios da nacionalidade.

Um veterano da guerra colonial, Henrique (Antonino Solmer), instalou-se na Holanda; vinte anos depois, regressa, «Ao Sul» (1993) - filme de Fernando Matos Silva, co-argumentista com Maria Isabel Barreno - encontrando um país transformado …


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