Marcelismo


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Diana Andringa






Segue-se Marcelo Caetano, um conhecido professor de Direito que, reitor da Universidade Clássica de Lisboa em 1962, se opusera à entrada da polícia na Cidade Universitária. A sua escolha para a Presidência do Conselho divide as fileiras do regime e causa algumas ilusões na oposição. Assim, nos primeiros tempos do seu governo, que ficaram conhecidos como «Primavera política», faz regressar dos seus exílios Mário Soares e o bispo do Porto, diminui o tempo de prisão sem culpa formada de seis para três meses, cria novas designações para a PIDE, a Censura e a União Nacional, e dispensa de homologação as direcções sindicais.


A liberalização, no entanto, é mais aparente que real (como o fará saber um inspector da PIDE, durante um interrogatório: «Lá fora pode ser a "Primavera política". Aqui, quem manda é o Dr. António de Oliveira Salazar»). E cedo, sob pressão dos «duros» do regime e, sobretudo, da Guerra Colonial, a repressão volta a aumentar e as prisões a encherem-se de oposicionistas.


Em Lisboa, o ano lectivo de 68/69 é de crise académica, marcada pela contestação dos estudantes ao ensino que lhes ministram. Negado que lhes é o acesso a algumas correntes de pensamento, os estudantes vão encarregar-se, por vezes, da organização de aulas e sebentas. Surgem ecos da «Carta a Uma Jovem Portuguesa» nesta revolta estudantil: na verdade, nove anos depois de Marinha de Campos ter defendido a aproximação entre estudantes de ambos sexos, os estudantes logram pôr fim aos «gineceus», as «salas de alunas» que, em algumas faculdades, asseguravam a segregação.


Em Coimbra, é a prisão de um dirigente estudantil que pretendeu usar da palavra na cerimónia do novo edifício das Matemáticas que serve rastilho a uma crise que vai abalar, durante meses, aquela academia.


Ainda em 1969, a oposição apresenta-se dividida às eleições - onde, pela primeira vez, podem votar todas as mulheres alfabetizadas - e a questão colonial surge, ainda que prudente, nos programas políticos.


Em Setembro de 1970, Marcelo Caetano explica, perante as comissões distritais da Acção Nacional Popular, que é necessário manter o esforço de guerra, para garantir a sorte das populações brancas das colónias. Nesse mesmo ano, militantes pró-independência de Angola aguardam julgamento na prisão de Caxias, e outros seguem de Luanda para o campo de prisioneiros de São Nicolau, sem julgamento prévio.


A repressão, aliás, volta a aumentar: Caetano faz marcha atrás na legislação sindical, com nova formulação que permite a destituição das direcções não homologadas; o ex-reitor compreensivo permite agora o encerramento de várias associações académicas; dezenas de estudantes são presos ou - em acto que diz bem do que o próprio regime pensa da Guerra Colonial - incorporados compulsivamente no Exército. Sem saber, o Governo prepara o seu próprio fim.


Fim que parece cada vez mais próximo: o Papa recebe, em Roma, os dirigentes dos movimentos de libertação de Angola, Guiné e Moçambique; os católicos contestam crescentemente a Guerra Colonial; surgem mais grupos à esquerda do PCP, com acções de propaganda inéditas; novas organizações sabotam, na retaguarda, o esforço de guerra e os trabalhadores agitam, com novas reivindicações e novas greves; as universidades revoltam-se, cada vez mais, contra o ensino, a repressão e a guerra.


O assassínio a tiro, pela PIDE, em 1972, de um jovem militante do MRPP, José António Ribeiro dos Santos, durante uma reunião em Económicas, e o recurso aos «gorilas» para a «segurança» das faculdades contrariam as tentativas de reforma da universidade - e são um sinal claro de que a «evolução na continuidade» tem, afinal, mais de continuidade que de evolução... A oposição reage em consequência. Em 1973, enquanto o recém-criado Partido Socialista se reaproxima do PCP, cresce a influência das novas forças de oposição: no Congresso de Aveiro, defendem abertamente o fim da Guerra Colonial e o início de negociações para a independência das colónias.


Serão estas a ditar o fim do regime em Portugal. Anuncia-o um livro, «Portugal e o Futuro», obra de um general convencido de que não há já qualquer solução militar para as colónias e a esta convicção do general somam-se o cansaço e a revolta dos capitães. Nas ruas, há tempo que o MRPP declarou «guerra do povo à Guerra Colonial» e muitos sonham com o que virá a ser um dos mais conhecidos slogans do pós-25 de Abril: «Nem mais um soldado para as colónias»... E quando, em 25 de Abril de 74, os militares sublevados saem à rua, o regime cai em pouco mais de 24 horas, sob o aplauso popular.


Índice
1 - 1961, o ano de todos os perigos
2 - Resistência anti-fascista
3 - Marcelismo
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