França e Alemanha: os novos parceiros


França e Alemanha: os novos parceiros

António José Telo

Como se verifica, ao contrário do que geralmente se pensa, a preparação das guerras em Angola, Guiné e Moçambique começou com grande antecedência, pelo menos quatro anos antes do início da luta armada.
O momento da viragem é dado pela crise do Suez, em 1956, quando as forças anglo-francesas são obrigadas a retirar do Egipto sob pressão americana e russa.
É dado pelo Suez porque, com o falhanço dessa operação, os responsáveis portugueses compreendem que vão assistir, a curto prazo, ao desenvolvimento dos nacionalismos africanos, e que os poderes europeus não têm força para impor uma política aos EUA neste campo. Muda então a política da Inglaterra para África, e MacMillan começa a falar dos «ventos de mudança» que varrem o continente. Portugal afasta-se cada vez mais da Inglaterra e dos EUA e aproxima-se da França e da RFA, que vão ser os seus principais apoios em termos da guerra de África.
A mudança da política de defesa portuguesa é visível desde 1956. Vamos referir alguns dos pontos mais significativos e menos conhecidos, através dos quais a mudança se visualiza. As preocupações da Força Aérea com o império são já patentes em 1956, quando se aprovam os DL 40 949 e 40 950, de 28 de Dezembro, que reajustavam os serviços e a orgânica prevista. É então que se prevê a formação das II e III Regiões Aéreas, em Angola e Moçambique. Nos próximos anos, o seu quadro e unidades são muito aumentados no papel, mas as dificuldades de apoio americano tornam impossível a concretização.
O ministro da Defesa, Santos Costa, faz uma viagem de inspecção a Angola e a Moçambique, com o objectivo de estudar a melhor forma de reforçar o dispositivo em África. Uma das principais deficiências detectadas é a falta de capacidade de transporte táctico e mobilidade aérea local, que assegure a rápida deslocação das forças para os pontos ameaçados. Os estudos então feitos concluem que os melhores aparelhos para preencher esta necessidade seriam o Lockheed C-130 Hércules e o helicóptero Bell UH-1 Iroquois, ambos americanos. Em começos de 1958, pede-se o seu fornecimento aos EUA através da ajuda militar, como se fossem para a NATO.
Os EUA não duvidam de que os aparelhos se destinam a ser usados em África, pelo que recusam o fornecimento, pois a sua posição era a de não apoiar guerras coloniais. A negativa americana deixa um vazio difícil de preencher. Não há aparelhos europeus tão bons como os americanos, e os disponíveis são mais caros e obtidos sem ser ao abrigo da ajuda militar.
Em 1961, quando começa a luta armada em Angola, a falta de aviação táctica é a deficiência mais sentida. É necessário comprar à pressa aparelhos europeus para assegurar estas funções.
A FAP adquiriu assim um primeiro lote de sete helicópteros franceses Alouette lI em 1958, mas estes não servem para o transporte táctico e não são em número suficiente para as necessidades. Só em 1960 é entregue o primeiro lote de Nord-Atlas de transporte, um aparelho inferior ao Hércules, que são colocados na BA-9 em Luanda, apoiados por uma esquadra de PV-2 Harpoon (aviões fornecidos pela NATO para a luta anti-submarina, mas rapidamente transformados em bombardeiros). Nesse mesmo ano é formado no Negaje o AB-3 que, quando começa a luta no Norte de Angola, recebe avionetas Auster e aviões de treino T-6, adaptados à pressa a aparelhos de apoio táctico. Foi com estes meios improvisados à última hora que se aguentou o primeiro embate.
Só a partir de fins de 1961 chegam de França e da Alemanha aparelhos adaptados ao transporte táctico. São as avionetas francesas Broussard e as DO-27 alemãs, o reforço da frota de Nord-Atlas e, finalmente, os mais importantes de todos: os helicópteros Alouette III, só partir de 1963.
Com a Marinha passa-se algo de semelhante. O decreto base onde é já patente a inversão da politica de aplicação de recursos é de começos de 1957: o DL 41 057, de 8 de Abril. Com ele criaram-se dois novos comandos navais, respectivamente em Angola e Moçambique. É dito que o decreto pretende acabar com uma prática de afastamento da Marinha das províncias ultramarinas, que se prolonga há cerca de 40 anos. Os novos comandos navais têm como missão prioritária criar as condições de apoio que permitam estacionar de forma permanente navios de guerra em Angola e Moçambique e, até lá, estas devem ser visitadas regularmente por agrupamentos navais.
Pouco depois, a Marinha cria os fuzileiros, como força de intervenção vocacionada para operações anfíbias no litoral africano.
É mais uma vez a falta de apoio americano que reduz a eficácia destas medidas. Os EUA recebem pedidos para fornecer, por exemplo, barcaças de desembarque de fundo chato, botes de borracha, navios adaptados aos teatros e a ampla panóplia de equipamento para a guerra anfíbia.
Em todos os casos acontece algo de semelhante ao que se passou com os C-130 e os lroquois: os EUA atrasam ou recusam a entrega. Em 1961, existe muito pouco equipamento especializado em Angola. A Marinha tem de improvisar tudo, tal como faz a Força Aérea. Só a partir de 1963 começa a chegar, de origens alternativas, equipamento especializado, mas em piores condições técnicas e financeiras. Em resumo, Portugal prepara activamente as guerras de Africa pelo menos desde os fins de 1956, mas os resultados que obtém até 1961 são muito limitados. A principal razão é a falta de apoio dos EUA e da Inglaterra, o que faz com que em 1961, quando começa a luta armada, as deficiências sejam muitas. Tudo tem de ser improvisado à pressa, e os portugueses fazem verdadeiros «milagres» neste campo.


Índice
1 - A viragem
2 - França e Alemanha: os novos parceiros
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