Católicos e anticolonialismo


2. Católicos e anticolonialismo

Luís Salgado de Matos

O problema africano dividiu profundamente a consciência católica portuguesa, divisão que ocorreu tanto na metrópole como nas províncias ultramarinas, para usarmos a terminologia do Estado Novo.
Comecemos por Portugal. A questão colonial desperta cedo uma sensibilidade particular nas correntes católicas oposicionistas. António Alçada Baptista e Francisco Lino Neto não assinam o Programa para a Democratização da República (1961) por acharem que faltava uma referência ao direito à autodeterminação.
Lino Neto virá, aliás, a ser o primeiro dirigente político português a propor publicamente o reconhecimento daquele direito.
As primeiras manifestações de anticolonialismo católico foram clandestinas - é o caso do boletim «Direito à Informação», iniciado em 1963 na esteira da encíclica «Pacem in Terris», do Papa Paulo VI, e que dava particular relevo às questões coloniais.
Logo no ano seguinte, em 18 de Outubro de 1964, o Papa anuncia que presidirá a um congresso eucarístico em Bombaim. No dia seguinte, Franco Nogueira, então chefe da diplomacia portuguesa, declara a visita um «agravo gratuito». A razão da ofensa era Bombaim situar-se na Índia, que, anos antes, tinha invadido Goa. Os bispos portugueses estão no Concílio e os acontecimentos isolam-nos dos outros padres conciliares. A Censura proibiu a divulgação de notícias sobre a visita papal e muitos padres protestaram. Em 6 de Dezembro, um grupo de leigos distribuiu clandestinamente, em numerosos templos do país, o jornal «igreja Presente», a divulgar a viagem.
O desenvolvimento de acções anticoloniais católicas acentuou-se depois da conclusão do Concílio do Vaticano II.
Em 1970, o padre Mário Pais de Oliveira, pároco de Macieira de Lixa, na diocese do Porto, é julgado no Tribunal Plenário daquela cidade por ter criticado, nas suas homílias, a guerra de África e sustentado o direito à independência.
Defendido pelo advogado José da Silva e apoiado por D. António Ferreira Gomes, é absolvido. O Dia Mundial da Paz, coincidindo com o dia de Ano Novo - iniciativa das Comissões Justiça e Paz, criadas por Paulo VI - passou a polarizar a luta anticolonial de sectores católicos. A maior parte dos bispos portugueses não institucionalizou aquelas comissões diocesanas, ou manteve-se em surdina, para evitar problemas com o Governo.
O Dia Mundial da Paz de 1973, particularmente movimentado, fora preparado pelo começo da publicação clandestina, em Outubro de 1972, do «Boletim Anticolonial» (Bac), em que elementos católicos se aliavam ao PRP.
No 1.º de Janeiro, em Macieira de Lixa, o padre Mário proferiu uma homilia por via da qual foi preso, em Maio de 1973. Em 31 de Dezembro de 1972, um grupo de católicos reuniu-se na capela do Rato, em Lisboa, e realizou uma vigília de 48 horas sobre o tema «A paz é possível», aprovando uma moção a condenar a «guerra criminosa» e «a atitude cúmplice da hierarquia da Igreja». A polícia invadiu a capela e seguiram-se perseguições aos participantes. O cardealpatriarca, D. António Ribeiro, condenou a intromissão policial e teve palavras apenas reservadas para os autores da manifestação.


Índice
1 - A Igreja Católica nas Colónias
2 - Católicos e anticolonialismo
3 - Capelães Militares
4 - A Igreja nas Colónias
5 - A Igreja em Angola
6 - A Igreja em Moçambique
7 - A Santa Sé
8 - Os Católicos nas Colónias