A Igreja nas Colónias


4. A Igreja nas colónias

Luís Salgado de Matos

Nas colónias em que a independência foi precedida pela luta armada, a presença católica só era forte em Angola e em Moçambique. Na Guiné, os católicos eram 26 499, segundo o «Anuário Pontifício», de 1973, numa população de mais de meio milhão de almas e, enquanto confissão, não tiveram papel autónomo no desenrolar do conflito.
A Guerra Colonial teve efeitos diferentes nas igrejas daquelas duas colónias, dado que cada uma tinha as suas caracteristicas próprias. Em Angola, a presença demográfica, cultural e católica dos portugueses era mais forte do que em Moçambique e o começo abrupto do terrorismo da UPA, em Março de 1961, no Congo português, teve também efeitos específicos.
Os mesmos factores de fundo actuaram, porém, em ambos os territórios: o Concílio do Vaticano II propôs um modelo de evangelização centrado na «inculturação» da fé católica e, consequentemente, rejeitou a civilização como condição da cristianização. Desenvolveu-se um clima de circulação internacional das ideias e de crescente desapego da Igreja aos Estados nacionais e ao colonialismo e a presença dos missionários estrangeiros reforçou este clima.
Depois do Concílio, as Igrejas de Angola e de Moçambique constituíram as suas próprias conferências episcopais e, assim, tornaram-se independentes da metrópole colonizadora.
A Igreja Católica manteve em ambos os territórios, tal como em Portugal, silêncio sobre a condução da guerra e o direito à autodeterminação e, dia após dia, esta omissão era vista, internacional e nacionalmente, como apoio ao regime português. Esse silêncio foi atacado por uns e defendido por outros.
A eclosão do conflito e a afirmação do direito à autodeterminação constituíam desafio para o qual os missionários portugueses estavam mal preparados. Eram geralmente provenientes de famílias rurais, pobres ou remediadas, com escasso acesso à informação e, para eles, o advento do Estado Novo fora providencial. Nos seminários, na metrópole, tinham-lhes inculcado que Portugal era católico por essência, que a sua grande função era missionar, civilizando, que Salazar se ajustava a este desígnio - e tinham ocultado qualquer aspecto negativo da sua acção.
Uma vez em África, ensinavam os indígenas a ler, medicavam-nos, assistiam-nos e defendiam-nos dos excessos da administração e dos colonos, mas a sua escassa cultura política não lhes permitia interiorizar a reivindicação da independência. Esta surgiu ao mesmo tempo de um Concílio destruidor do modelo de missionação no qual tinham sido formados: passaram agora a dever implantar a Revelação nas culturas locais e ficaram proibidos de as subverter pela civilização ocidental. A adaptação seria rápida mas difícil e um dos seus frutos virá a ser o reforço dos catequistas africanos e a criação, no terreno, de estruturas eclesiais inovadoras, o que foi realizado em clima de guerra.


Índice
1 - A Igreja Católica nas Colónias
2 - Católicos e anticolonialismo
3 - Capelães Militares
4 - A Igreja nas Colónias
5 - A Igreja em Angola
6 - A Igreja em Moçambique
7 - A Santa Sé
8 - Os Católicos nas Colónias
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