A Igreja em Moçambique


6. A Igreja em Moçambique

Luís Salgado de Matos

A evolução em Moçambique seria diferente e os conflitos no interior da Igreja mais agudos, pois a guerra era mais violenta, devido à Operação Nó Górdio e às exigências da segurança da barragem de Cahora Bassa. Por outro lado, era mais fraca a presença portuguesa tanto na sociedade como na Igreja. Abundavam mais os missionários estrangeiros, mais predispostos para sentir os pontos fracos do nacionalismo missionário português.
Acresce que a direcção da Igreja em Moçambique fora enfraquecida pelas mortes do arcebispo de Lourenço Marques, D. Teodósio Clemente de Gouveia, homem conservador e prudente (1962), e do bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende (1967).
D. Sebastião distinguira-se na defesa dos direitos dos africanos desde os anos 50 e, para garantir o ensino religioso não hesitara em enfrentar o Governo de Lisboa. Nas suas pastorais, condenara o trabalho forçado, e o começo da guerra levara-o a endurecer as suas posições a favor das liberdades dos autóctones e da autonomia do território. O jornal que fundara, o «Diário de Moçambique», foi proibido em 22 de Maio de 1965 por ter publicado, sem o visto censório, a homília «Meditação sobre o 25. º Aniversário do Acordo Missionário», proferida dias antes por D. Sebastião.
Um incidente descredibilizou a hierarquia moçambicana. Em Julho de 1969, Paulo VI presidiu ao simpósio dos bispos africanos em Campala, Uganda e, para esta ocasião, foi convidado o episcopado de Moçambique. D. Francisco Nunes Teixeira, de Quelimane, e D. Eurico Dias Nogueira, de Vila Cabral, prepararam-se para seguir viagem, sendo depois desconvidados, enquanto foram a Campala, sem problemas, os prelados angolanos D. Altino Ribeiro Santana, de Sá da Bandeira, e D. Francisco Esteves Dias, do Luso. Era claro o isolamento internacional da Igreja em Moçambique.
Neste contexto, os acontecimentos iriam precipitar-se: denúncia da guerra, divisão da Igreja, conflito com o Estado. O epicentro do terramoto estava na diocese da Beira, pois o Governo de Lisboa vetara o sucessor de D. Sebastião proposto pela Santa Sé e a diocese ficara desgovernada. Os Padres Brancos, predominantemente italianos, decidiram abandonar o território em protesto contra o colonialismo português e, paradoxalmente, queixaram-se do excesso de benefícios que ele dava à Igreja. O Governo de Caetano fez-lhes a vontade e expulsou-os, em 27 de Maio de 1971, mas deixaram um clima de cizânia na Igreja moçambicana.
O Dia Mundial da Paz de 1972 foi comemorado em Moçambique. Do púlpito da catedral de Nampula, o bispo D. Manuel Vieira Pinto criticou o Governo e nas celebrações no Macuti, paróquia da Beira. o padre Joaquim Teles de Sampaio denunciou o massacre de Mucumbura, povoado próximo de Tete (Novembro de 1971). Foi preso em 14 de Janeiro, bem como o seu coadjutor padre Fernando Mendes, após campanha articulada pelo engenheiro Jorge Jardim, que os acusou de falta de respeito pela bandeira nacional. Na realidade, o padre Sampaio não tinha feito mais do que a aplicar o regulamento do escutismo: o juramento dos «Iobitos» era feito perante a bandeira da organização, no interior da igreja.
Neste mesmo mês, foram presos os padres de Burgos, espanhóis, devido à denúncia do referido massacre de Mucumbura.
Os excessos da guerra feriram a consciência católica em Moçambique e foi a Igreja Católica que tomou a iniciativa de denunciar os comportamentos condenáveis das Forças Armadas portuguesas. O massacre de Wiryamu, ocorrido na zona de Tete, em Dezembro de 1972, foi divulgado pelo jesuíta inglês Adrian Hastings, em artigo publicado em «The Times», em 10 de Julho de 1973, facto que estragou completamente a visita oficial que Marcelo Caetano fazia então à capital britânica.
Na sua origem estão os relatos dos missionários em Tete jesuítas, combonianos, padres de Burgos -, mas a preparação vinha de trás. Em Novembro de 1971, os padres Alfonso Valverde e Hernandez comunicaram ao conselho presbiterial da diocese de Tete provas de crimes cometidos por forças portuguesas contra africanos. Eram os massacres de Mucumbura. O conselho encarregou o padre Luís Afonso da Costa da sua divulgação internacional e conseguiu que fossem publicados pelo menos numa revista dos jesuítas espanhóis, mas com eco reduzido, como era habitual nas publicações confessionais. Os missionários de Tete aprenderam a lição: recorreram à grande imprensa (o circunspecto «The Times») e escolheram um momento em que as luzes da ribalta apontavam para Portugal (a controversa visita de Caetano a Londres).
A Guerra Colonial dividiu a Igreja em Moçambique, que foi o único episcopado de matriz portuguesa que não manteve a regra da unidade pública. Uma minoria, cujo elemento mais vocal era o arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira, defendia expressamente a soberania portuguesa e outra minoria, mais numerosa e sobretudo mais activa, cujo expoente era o bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, atacava abertamente a identificação da Igreja com Portugal e preparava-se para defender o direito à independência. D. Francisco Nunes Teixeira, o presidente da conferência episcopal, procurava uma linha intermédia, que se queria em perfeito uníssono com a Santa Sé: recusa da intervenção da Igreja na política quer para defender o colonialismo, quer para sustentar a independência, defesa dos direitos humanos mas sem fazer disso cavalo de batalha com as autoridades.
Exemplo desta posição intermédia seria a atitude da Igreja moçambicana face a Wiryamu. A Conferência Episcopal de Moçambique tinha condenado o massacre, já em 3 de Março de 1973, em carta particular ao governador-geral, mas só a divulgou em 30 de Agosto desse ano.
A moderação não satisfez os católicos militantes: para uns, era preciso condenar o terrorismo, porque a Igreja rejeita a violência; para outros, o mínimo estava no reconhecimento do direito à independência e o desejável apoio explícito à Frelimo.


Índice
1 - A Igreja Católica nas Colónias
2 - Católicos e anticolonialismo
3 - Capelães Militares
4 - A Igreja nas Colónias
5 - A Igreja em Angola
6 - A Igreja em Moçambique
7 - A Santa Sé
8 - Os Católicos nas Colónias
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