Doutrina


Doutrina

As Forças Armadas Portuguesas adaptaram a execução da acção psicológica às suas características próprias e do meio onde actuavam, apesar de a doutrina militar portuguesa neste campo se ter baseado tanto no exemplo americano, que fora posto em prática na Segunda Guerra Mundial e evoluíra com as experiências da Coreia e do Vietname, como na experiência francesa, ganha e posta em prática na Indochina e na Argélia.
A base de toda a manobra psicológica assentava no pressuposto de que a guerra era conduzida do exterior e era obra do comunismo.
Se considerarmos, como fez Marx, a insurreição de 1848, em França, como o "primeiro combate do socialismo", poderemos dizer que a Comuna de Paris foi o "berço do comunismo internacional", por nele se ter assistido à vitória das ideias daquele pensador sobre as de Proudhon e Blanqui, o que significou o começo da definição de uma doutrina que Lenine e Mao-Tsé-Tung adaptaram às circunstâncias.
Doutrina com fundamento ideológico transformou-se em teoria de "libertação de um povo" (Rússia) e em teoria de "libertação dos povos de todo o mundo", sendo esta mudança da "geografia" sempre acompanhada pelo desejo da conquista do poder, utilizando a população como meio e, depois, como meio e objectivo a conquistar para o ideal marxista e para a implantação de uma nova sociedade.
A conquista das massas passa, a partir da Revolução Russa, a ser o objectivo fundamental; in "Guerra Psicológica contra Portugal", "Cadernos Militares", n.º 10, Estado-Maior do Exército, 2.ª Repartição.
Apesar desta base doutrinária e das acções psicológicas dirigidas pelas forças portuguesas aos guerrilheiros e seus próprios militares, a acção psicossocial foi o aspecto mais característico da guerra colonial.
Ao pretender conquistar as populações, para retirar ao inimigo o meio onde actuava, ganhando-lhes o afecto, a acção psicossocial constituiu parte integrante da guerra e da manobra militar portuguesa e foi talvez mais decisiva para assegurar a permanência das Forças Armadas no terreno, durante 13 anos, que as operações de assalto, as emboscadas e os golpes-de-mão. Por outro lado, as acções de tipo assistencial em que se materializava, dirigidas a populações carecidas, ajudavam os militares portugueses a justificar a sua presença em África, suavizando, de algum modo, as acções de guerra e dando sentido humano ao seu sacrifício.
Contudo, a doutrina militar portuguesa era muito clara no esclarecimento dos objectivos militares que se queriam atingir com a acção psicossocial: «Quando se pretende conseguir ou tornar mais forte a adesão através da acção psicológica, é da maior importância a conquista do afecto dos indivíduos (... ) por meio da acção social.
Esta aparece, portanto, como complemento daquela, como «forma de acção de enorme valor na conquista das populações», ("O Exército na Guerra Subversiva, Volume III, Acção Psicológica").
Um aspecto com forte componente de guerra psicológica foi a política de ordenamento de populações em aldeamentos de modo a dificultar o contacto com os guerrilheiros e a facilitar o seu controlo, a troco de lhes fornecer melhores condições de vida
Por fim, surge ainda o apoio da Acção Psicológica às operações militares, visando desmoralizar as forças da guerrilha, desequilibrar psicologicamente as populações que as apoiavam e elevar o moral dos militares portugueses. O caso mais conhecido de emprego de meios de acção psicológica em apoio das operações militares ocorreu em Moçambique, na Operação Nó Górdio, para a qual foi criado um destacamento de Acção Psicológica chefiado por um capitão, com o apoio do Rádio Clube de Moçambique e de um avião Dakota para difusão sonora e lançamento de panfletos.
Pelas unidades de comandos foram utilizadas formas específicas de acção psicológica adaptadas à formação dos seus militares. Neste campo, tal acção revestiu-se de características muito particulares de cruzamento de motivações ideológicas e psicológicas que contribuíram para a aura de mistério que a instrução daquelas tropas suscitou, a ponto de haver quem a comparasse a ritos iniciáticos de antigas ordens religiosas.


Índice
1 - Psico
2 - Planos de Acção Psicológica
3 - Doutrina
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