O papel dos Grupos Étnicos


O papel dos grupos étnicos

Em 1960, apenas 0,82 por cento dos negros angolanos trinta e oito mil eram considerados assimilados, sendo 90 por cento da população negra constituída por camponeses, o que deixa 10 por cento de população urbanizada.
O Estatuto do Indigenato foi abolido em 1961 e o Estatuto do Trabalho Obrigatório em 1962. Só então o uso do bilhete de identidade se generalizou, dotando os negros de um símbolo de cidadania.
Contudo a sociedade africana continuou atravessada pelas clivagens tradicionais entre grupos étnicos.
Os mestiços, que desempenharam papel de grande importância e representaram o essencial dos quadros marxistas do MPLA e dos quadros intermédios e baixos da administração portuguesa, balançaram entre sentir-se mais angolanos ou mais portugueses, e esta divisão foi nítida após o 25 de Abril, com muitos a partir para Portugal, onde a maioria jamais havia estado, e outros a ficarem e a preencherem os lugares deixados vazios pelos brancos.
Os assimilados ocupavam um lugar mais baixo do que os mestiços, mas foram quase sempre educados numa instituição cristã, católica ou protestante, o que lhes assegurava a atribuição dos lugares inferiores nos sectores de serviços e na administração. Estavam divididos entre as tradições e cultura dos seus grupos de origem e a civilização europeia, mas o facto de a colonização portuguesa não atirar para o ostracismo racial os que por nascimento (mestiços) ou por educação (assimilados) se aproximavam dos seus padrões atenuou as contradições, que nas colónias de alguns outros países tomaram formas de maior violência.
Os brancos em Angola assumiam-se antes de tudo como portugueses.
O branco português instalou-se em Angola por necessidade de procurar uma vida melhor do que aquela que lhe era proporcionada em Portugal.
Angola foi a colónia dos «brancos pobres», onde estes desempenhavam tarefas e profissões que em Moçambique, ou nas colónias inglesas ou francesas, eram, de modo geral, atribuídas a mestiços ou negros.
Estes são os «pequenos brancos», que viviam nos bairros periféricos em condições semelhantes às dos mestiços e assimilados e que, com eles, muitas vezes competiam no mercado de trabalho.
No interior, estes brancos, vindos na maioria das zonas pobres de Portugal, transformaram-se em cantineiros, comerciantes e camionistas, espalhando-se por todo o território.
A maioria destes «brancos pobres» foram para Angola após 1961, parte deles depois de ali terem cumprido o serviço militar.
Contudo, em Angola, o poder de facto assentava em três tipos de interesses representados pelo que se pode designar de «grandes brancos», verdadeira burguesia colonial: os interesses da África do Sul, que pretendiam dotar de coerência política, militar e económica a África austral, área que abrangia a exploração e a comercialização dos diamantes, a construção de grandes barragens hidroeléctricas e a cooperação militar; os interesses do grande capital multinacional, de que a exploração petrolífera de Cabinda é o exemplo mais significativo; os interesses do capital nacional, que agiam em Angola nas áreas da agricultura e pecuária, da cultura do algodão e das indústrias agro-alimentares.
Todos estes interesses surgiam associados ao capital financeiro, representado pelo Banco Nacional Ultramarino, Banco de Angola, Banco Comercial de Angola, associados à Africa Central Mining and Finance Corporation (que controlava a maior firma de exportação de café de Angola).


Índice
1 - Angola - O teatro de operações
2 - O papel dos Grupos Étnicos
3 - As populações e os Movimentos de Libertação
4 - O conflito.
5 - O nó do problema
6 - 1961 - Norte
7 - A partir de 1966
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