O início da guerra


O início da guerra

A guerra iniciou-se quase simultaneamente, em 1964, nos extremos nordeste (Niassa) e noroeste (Mueda) de Moçambique, e envolveu os povos que iriam ter o papel mais importante nos dez anos que ela durou: os Nianjas e os Macondes.
Nesse ano ocorrem as primeiras acções da luta armada nos distritos do Niassa, de Cabo Delgado e de Tete. Em 21 de Agosto de 1964, ocorreu a primeira acção violenta na região de Cabo Delgado: «Pelas 18 e 15 horas do dia 21, na rampa de Esposende (Sagal) e na primeira ponte, no sentido Mueda-Mocímboa da Praia, foi atacada com dois tiros de canhangulo uma viatura civil conduzida por um europeu. Não foi atingido qualquer ocupante da viatura» (relatório do Batalhão de Caçadores 558).
Em 24 de Agosto, morreu o padre Daniel, da Missão de Nangololo: «Pelas 20 horas do dia 24, um grupo inimigo feriu mortalmente um padre da Missão de Nangololo, tendo o autóctone Ernesto Dinagomo, que acompanhava o padre, sido ferido por um projéctil de canhangulo», como se refere no mesmo relatório.
Contudo, a Frelimo considera que foram as acções de 24 e 25 de Setembro de 1964, que marcaram o início da luta armada. Estas acções foram determinadas pelo seu Comité Central, enquanto as anteriores foram atribuídas a grupos de guerrilheiros da MANU e da Undenamo.

Acções da Frelimo em Cabo Delgado, em 24 e 25 de Setembro de 1964 :
- Colocação de abatises e abertura de pequenas valas nos itinerários Miteda - Nangololo - Muatide - Muidumbe -estrada das Oliveiras;
- Destruição das pontes de Ouinhevo (junto a Mocímboa da Praia), Esposende (Sagal), rio Mueda, Nangade e Machoma;
- Corte da linha telefónica nas imediações das pontes do Ouinhevo e de Esposende;
- Ataque ao posto do Chai, na noite de 24 para 25 de Setembro, situado entre Macomia e o rio Messalo, acção considerada pela Frelimo como o primeiro acta da luta armada da guerra de libertação nacional de Moçambique.

O armamento dos guerrilheiros era, no início, muito antigo: espingardas de repetição 7,7 mm Mauser, Lienfíeld, armas de caça, Remíngton, Wínchester, pistolas Parabellum, e incluía armas gentílicas, como canhangulos, catanas e arcos e flechas.
Os guerrilheiros optavam preferencialmente pela colocação de abatises e abertura de valas nas estradas, de modo a dificultar o movimento das tropas portuguesas a partir de Mueda pelos vários itinerários de ligação à costa e a outras localidades.
No mês de Outubro, as acções violentas continuaram: em 11 foram queimadas duas cantinas próximo da estrada para o rio Messalo, em 13 foi roubada e queimada uma cantina na estrada Mueda-Nacatar e, na noite de 17 para 18, foi arrombada e assaltada a loja de Ibarimo Ucuba, na povoação de Namulumba.
Em 16 de Novembro de 1964, as tropas portuguesas sofreram as primeiras baixas no Norte de Moçambique, na região de Xilama, e à meia-noite de 8 de Dezembro um grupo atacou o posto de Muidumbe durante cerca de 20 minutos, já com armas automáticas e lança-granadas-foguete.
A organização e o armamento dos guerrilheiros evoluíram rapidamente. A primeira acção violenta no Niassa ocorreu também em 24 de Setembro de 1964, com o ataque à secretaria do posto administrativo do Cobué, sendo a lancha Castor, da Marinha de Guerra, atacada logo no dia seguinte.
Em Dezembro, foi assaltado o posto de Olivença. Todos estes ataques ocorreram no extremo noroeste da região, aproveitando a proximidade da fronteira com a Tanzânia.
Tal como em Cabo Delgado, as dificuldades de comunicações, o acidentado do terreno, a baixa densidade das forças portuguesas e a fraca presença de colonos facilitaram a acção da Frelimo, que alargou a sua acção para sul na direcção de Meponda e Mandimba, para atingir o Malawi, com a intenção de descer para Mecanhelas de modo a alcançar a Zambézia e ligar-se a Tete. Por outro lado, estendeu ao mesmo tempo a sua acção para leste, em direcção a Marrupa, para chegar a Cabo Delgado.
O Niassa foi, nos primeiros anos da guerra, a zona prioritária das acções da Frelimo, não só porque isso permitia alargar a base de apoio à guerrilha aos povos Ajauas e Nianjas, como constituía o corredor natural para sul, a caminho da Zambézia e daqui para Tete.
A Frelimo beneficiou ainda, nos primeiros anos, do apoio do Malawi para o trânsito e refúgio de guerrilheiros. Esta situação veio depois a alterar-se, em boa parte por acção de Jorge Jardim, que apoiou, por métodos expeditos e pouco ortodoxos, o reforço de um aparelho mínimo de força naquele país, governado pelo autocrata pró-ocidental, Hastings Banda, formando unidades especiais comandadas por militares e ex-militares portugueses, como o ex-tenente Cristina, morto mais tarde em circunstâncias não esclarecidas na Rodésia (actual Zimbabwe), e uma pequena força naval malawiana do lago Niassa, comandada por um oficial da reserva naval da Marinha portuguesa.
A intensidade da guerra no Niassa, cujo ponto alto ocorreu em 1967, não impediu a Frelimo de aumentar simultaneamente a sua capacidade de combate em Cabo Delgado. Neste distrito, o Planalto dos Macondes/ Mueda e a serra do Mapé/ Macomia constituíram duas zonas de combates intensos durante toda a guerra, especialmente até 1970/71.
As principais bases da Frelimo em território moçambicano encontravam-se nesta zona, e a principal linha de infiltração dirigia-se da sua mais importante base no exterior, a de Naschingwea, para o núcleo central do Planalto dos Macondes.
Em Tete, a Frelimo desencadeou, nos finais de 1964, algumas acções a partir do Malawi, sobre a região sueste do distrito, como em Mutarara, em Novembro, e no Charre, em Dezembro.


Índice
1 - Geografia
2 - O meio físico
3 - As populações
4 - Os interesses em presença
5 - O conflito
6 - Antecedentes
7 - O início da guerra
8 - Evolução da guerra até 1967
9 - Mueda, terra da guerra
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