Mueda, terra da guerra


Mueda, terra da guerra

Entre 1967 e 1970, o esforço de guerra deslocou-se para Cabo Delgado, verificando-se o decréscimo progressivo no Niassa.
O dispositivo militar português articulava-se em quatro sectores operacionais, com sedes em Vila Cabral (sector A) e Marrupa (sector E), ambos no Niassa, em Porto Amélia (sector B), correspondendo a Cabo Delgado, e em Tete (sector F).
Em 1968, a Frelimo dispunha de unidades constituídas pelas FPLM (Forças Populares de Libertação de Moçambique) no Niassa e em Cabo Delgado, e realizou durante esse ano 1087 acções, com a seguinte distribuição: Cabo Delgado, 44 por cento; Niassa, 39 por cento; Tete, 15 por cento; outros locais, 2 por cento.
Pela primeira vez, a maior percentagem anual de acções registou-se em Cabo Delgado. Foi ainda neste ano que a Frelimo introduziu em Moçambique armamento pesado em grandes quantidades, começando a utilizar morteiros de 82 mm, canhões sem recuo 7,5 cm e metralhadoras pesadas de 12,7 mm, assim como equipamento de emissão e recepção rádio.
Em Janeiro de 1969, o comando militar português fazia a seguinte apreciação geral da situação:
«Registaram-se 130 acções do inimigo, com maior intensidade no sector B, com 43 por cento; Vila Cabral, 37 por cento e Tete, 19 por cento. É de salientar a continuação do emprego de elevado número de engenhos explosivos, que correspondem a 67 por cento do total das acções.»
Entretanto, em Tete, a Frelimo desenvolvia o seu trabalho político, assim apreciado pelo comando português:
«A despeito da intensa actividade das NT (nossas tropas) no distrito de Tete, a Frelimo não tem descurado a actividade de aliciamento, com a firme intenção de alastrar a subversão... ».
Em Dezembro de 1969, era a seguinte a apreciação do comando militar português sobre a situação militar:
«No distrito do Niassa, o número de acções inimigas decresceu consideravelmente, tendo de igual modo o índice de agressividade baixado. No mês de Dezembo de 1969, registaram-se 162 acções de guerrilha, das quais 127 foram de colocação de minas. A actividade da Frelimo continuou a desenvolver-se com maior intensidade no sector B (Mueda), com 67 por cento da totalidade das acções, seguido do sector do Niassa, com 31 por cento e 2 por cento em Tete.»
Em Cabo Delgado, parecia desenhar-se a intenção da Frelimo de avançar para sul do rio Messalo, segundo os eixos:
- Mucojo » Quissanga 
                  » Ancuabe
- Muaguide » rio Montepuez 
                       » Montepuez » Balama

O triângulo serra do Mapé - Macomia - Chai, constituía a zona de apoio para este avanço, que as forças portuguesas tentavam contrariar.
Em, Março de 1970, antes do início das grandes operações no Planalto dos Macondes, Nó Górdio e Fronteira, o comando militar português apontava os seguintes factores como caracterizadores da situação, realçando a «intensificação geral da guerra»:
- Esforço da Frelimo em Mueda/Cabo Delgado, com orientação para sul, em direcção ao rio Lúrio, sendo este o sector de emprego de maior potencial;
- Inicio da preocupação com a região de Tete/ Cahora Bassa, com canalização de meios para esta região por parte da Frelimo, pela qual «demonstra natural interesse, dado os empreendimentos económicos em curso e cujo agravamento, a verificar-se, pode ter repercussões em larga escala»;
- Actividade da guerrilha com considerável aumento (42 por cento), continuando a caber a maior percentagem ao emprego de minas. Em suma, para o comando português, de modo geral, a Frelimo continuava a tentar, «o alastramento da subversão violenta nos três sectores activos», considerando-se «como possibilidade mais perigosa» que conseguisse o «alastramento da subversão violenta em direcção a Tete e à Angònia», podendo «afectar gravemente o distrito de Tete.»

A presença de Samora Machel em Cabo Delgado, em Abril de 1970, para apresentar os planos da ofensiva a executar em Junho e Julho, fez aumentar a actividade militar da Frelimo «a nível nunca igualado no distrito», tendo em conta a opinião do comando português.
Tal actividade caracterizou-se pela colocação de numerosos engenhos explosivos, conjugada com grandes extensões de abatises, com a finalidade de isolar as guarnições portuguesas.
Evolução das acções da Frelimo: 

                          Niassa    Mueda        Tete
1969 (2.º tri.)   94 (24)    154 (98)      40 (24)
1970 (1.º tri.)   79 (40)     685 (646)   127 (71)
1970 (2.º tri.)   119 (85)   759 (652)   139 (77)

( ) - Acções com minas

No Verão de 1970, as forças portuguesas realizaram a Operação Nó Górdio e, de seguida, a Operação Fronteira, exercendo o seu esforço no Norte, enquanto a Frelimo reorientava a sua prioridade para Tete e para o avanço a Sul, mantendo, contudo, pressão suficiente no Norte para não permitir que as forças portuguesas deslocassem efectivos.
Apesar do discurso oficial de vitória sobre a Frelimo e do desmantelamento das suas forças após a Operação Nó Górdio, existia a consciência de que tal não era verdade.


Índice
1 - Geografia
2 - O meio físico
3 - As populações
4 - Os interesses em presença
5 - O conflito
6 - Antecedentes
7 - O início da guerra
8 - Evolução da guerra até 1967
9 - Mueda, terra da guerra
Multi-média
» Operação Nó Górdio