Os páras nos teatros de operações


Os páras nos teatros de operações

A 1.ª Companhia de Caçadores Pára-Quedistas (1.ª CCP) chegou a Luanda em 16 de Março de 1961, na sequência dos acontecimentos do Norte de Angola. Em Abril, chegou a 2.ª CCP e um mês depois a 3.ª.

As unidades de pára-quedistas procederam à reocupação de várias povoações, fazendas e postos administrativos em poder dos guerrilheiros da UPA/FNLA e durante uma destas acções sofreram o seu primeiro morto em combate, em 24 de Abril de 1961.

Em 8 de Maio foi criado, a partir das três companhias, o Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas 21 (BCP 21) e, em 11 de Agosto de 1961, as tropas pára-quedistas portuguesas efectuaram a primeira operação, lançadas em pára-quedas. A 1.ª Companhia saltou a partir de aviões C-54 Skymaster sobre a região de Quipedro.

Na Guiné, os primeiros efectivos pára-quedistas eram constituídos por um pelotão, que actuava habitualmente em conjunto com outras forças, tendo sofrido o primeiro morto em combate em 7 de Fevereiro de 1964.
 
Posteriormente foi organizada uma companhia de caçadores pára-quedistas que realizou a Operação Grifo, de interdição do «corredor de Guileje», durante a qual morreu em combate o capitão Tinoco Faria.
Em Outubro de 1966, foi criado o Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas 12, com base em Bissau, o qual foi a primeira unidade deste tipo a receber uma condecoração colectiva, a medalha de Cruz de Guerra de 1.ª Classe.

As tropas pára-quedistas intervieram em Moçambique entre 1964 e 1974 com dois batalhões, o BCP 31, com base inicialmente em Lourenço Marques e depois na Beira, e o BCP 32, com base em Nacala.
As suas primeiras missões nesta província estiveram ligadas à chamada «Guerra do Petróleo» e ao embargo decretado pela Grã-Bretanha contra a Rodésia, onde os colonos brancos declararam a independência unilateral sob a direcção de lan Smith. A missão atribuída ao BCP 31 foi a de impedir a ocupação da cidade da Beira, respectivo porto e aeroporto por forças inglesas.

Posteriormente, com o desenvolvimento das acções armadas por parte da Frelimo, as unidades pára-quedistas foram utilizadas como forças de intervenção nos sectores do Niassa, Cabo Delgado, Marrupa e, por fim, em Tete.

A actividade das forças pára-quedistas pode ser divida em três fases distintas:

1ª - 1955/61 - Formação, preparação e acção essencialmente no território da Metrópole;
2ª - 1961/74 - Instalação e operações em Angola, Guiné e Moçambique;
3ª - Após 1974 - Recolha das unidades do Ultramar e reorganização.

Nos teatros de operações de Angola as forças pára-quedistas, constituídas pelos BCP 12, 21, 31 e 32, empenharam um total de dez companhias.

Em Angola, salientaram-se as operações com lançamento em pára-quedas, em Quipedro e na Canda, e os assaltos e perseguições por helitransporte no Norte e no Leste.

Na Guiné, o BCP 12 realizou operações de grande risco e sacrifício, como as Ciclone II (Fevereiro de 1968), Titã e a série de acções Júpiter no «Corredor de Guileje». Na Operação Jove foi capturado o capitão do exército cubano Pedro Rodriguez Peralta.

Em Moçambique, as quatro companhias dos BCP 31 e 32 realizaram operações nas três frentes de combate, destacando-se, no Norte da província, a Operação Zeta.

Nos primeiros anos da sua existência os pára-quedistas portugueses utilizaram como avião para instrução de salto o JU- 52.

Em Angola, na primeira operação de combate com lançamento em pára-quedas foi usado o avião C-54 Skymaster, habitualmente utilizado em missões de transporte de passageiros - Operação Quipedro.
Foi, contudo, o Nord-Atlas que em Portugal e nos teatros de operações em África mais frequentemente transportou pára-quedistas em missões de combate e de instrução. Foi a partir dele que três companhias dos BCP 31 e 32 foram lançadas, em Junho de 1969, sobre a Base Limpopo da Frelimo, naquela que terá sido a maior acção de tropas em envolvimento vertical de toda a guerra, a Operação Zeta, realizada no Norte de Moçambique, na região de Mocímboa do Rovuma.

Em todos os teatros de operações, os pára-quedistas utilizaram os helicópteros Alouette III e, nos últimos anos de guerra, o helicóptero SA 330-Puma em operações de helitransporte e heliassalto, meios que lhes permitiram aumentar a mobilidade em combate e explorar a surpresa da actuação.

O uniforme de campanha foi, desde o início, o fato de combate camuflado, designado por PQ/9 e o equipamento individual era de origem americana. Os pára-quedistas portugueses utilizaram sempre o modelo US, muito mais prático do que os equipamentos de modelo nacional - M/64 - usados pelas outras forças. Era constituído pelo capacete, suspensórios M-43 com porta-carregadores BAR 7,62, que podiam ser colocados em várias posições, e cantil metálico protegido por capa de lona.

A arma mais utilizada durante a guerra foi a espingarda automática americana AR-10, arma de 7,62, embora também tivessem usado a G-3, com coronha retráctil.

Em operações mais prolongadas usavam mochila e uma capa impermeável (poncho).

Como armas «pesadas», as tropas pára-quedistas utilizaram as metralhadoras MG-42 e HK21 e ainda, em vez do lança-granadas M-20 8,9 (bazuca) ou Instalaza, o lança-rockets Sneb de 37 mm, mais leve e fácil de transportar e de operar. No que respeita a lança-granadas-foguete, estas forças, tal como outras, aproveitaram, sempre que puderam, as armas apreendidas aos guerrilheiros, nomeadamente os RPG-2 e o RPG-7.

Estas tropas usaram os seguintes pára-quedas de abertura automática:

- T-10, de origem americana, até 1966;
- EFA/TAP 669 e 665, de origem francesa, entre 1963 e 1974;
- EFA/TAP 672, de origem francesa, a partir de 1969.

Os rádios utilizados em operações pelos pára-quedistas eram idênticos aos de outras forças, embora com frequências adequadas à ligação com a Força Aérea. O emissor-receptor AN/GRC-9 foi usado a nível de companhia até 1969, ano em que foi substituído por ser manifestamente desadequado e exigir, no mínimo, três homens para o seu transporte. Os pára-quedistas utilizaram também os emissores-receptores AN PRC-10, TR28A(RACAL), TR28B(RACAL), THC 736 e THC 766 (rádios de pelotão, tipo «Banana», para ligação aos meios aéreos).
 
As tropas pára-quedistas portuguesas sofreram o primeiro morto em combate no dia 24 de Abril de 1961 e os dois últimos em 22 de Agosto de 1974.

Ao todo, nos três teatros de operações morreram cento e sessenta homens.

Angola                Guiné

BCP 21                BCP12
Oficiais 5             Oficiais 3
Sargentos 9        Sargentos 6
Praças 33            Praças 47

Moçambique

BCP 31 (Beira)    BCP 32 (Nacala)
Oficiais 2              Oficiais O
Sargentos 6         Sargentos 2
Praças 31             Praças 16

A simbologia do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas e do Regimento de Caçadores Pára-Quedistas que lhe sucedeu foi sempre um grifo encimado pelo pára-quedas, bem como o lema: «Que nunca por vencidos se conheçam».
As unidades que actuaram nos teatros de operações tiveram os seguintes lemas:

BCP 12 - «Unidade e luta»
BCP 21 - «Gente ousada mais que quantas»
BCP 31 - «Honra-se a pátria de tal gente»
BCP 32 - «Famosa gente a guerra usada»

Em 1956, a primeira mulher pára-quedista portuguesa, Isabel Rilvas Mathias, lançou a ideia de formar um corpo de enfermeiras pára-quedistas e este alvitre conduziu à criação de um curso e, posteriormente, de um corpo dessa especialidade, as primeiras mulheres integradas como militares nas Forças Armadas Portuguesas. Estas enfermeiras dependiam dos comandos das unidades de pára-quedistas em que estavam integradas e realizaram inúmeras acções de apoio a evacuações de feridos nos teatros de operações e em situações de combate.

De 1961 a 1974, foram «brevetadas» 48 enfermeiras, tendo uma delas morrido na Guiné, ao embarcar para uma missão de evacuação, e outra sido ferida por um projéctil, em Moçambique.

Com a intenção de minimizar a insuficiência de tropas metropolitanas e, ao mesmo tempo, melhorar a capacidade operacional dos militares do recrutamento local, o general Kaúlza de Arriaga, comandante-chefe das Forças Armadas de Moçambique, decidiu criar, em 1971, os grupos especiais pára-quedistas (GEP). Os BCP 31 e 32 receberam a missão de apoiar a instrução destas unidades, destacando instrutores e meios.

A partir do Centro de Instrução de Grupos Especiais, no Dondo, perto da cidade da Beira, foram criados doze destes grupos, que se juntaram aos Grupos Especiais (GE) e aos Grupos Especiais de Pisteiros de Combate (GEPC), constituindo este conjunto uma força de recrutamento local no âmbito do processo de africanização da guerra, que, embora com diferentes soluções, foi desenvolvido nos três teatros de operações. Os GEP são, no entanto, a única experiência de africanização de unidades pára-quedistas.


Índice
1 - Pára-quedistas
2 - Os páras nos teatros de operações
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