FNLA - um movimento em permanente letargia


FNLA - um movimento em permanente letargia

O trabalho de Holden Roberto à frente do GRAE revelou-se excessivamente autoritário, levando dois destacados ministros a abandoná-lo: o dos Negócios Estrangeiros, o ovimbundu Jonas Savimbi, em Julho de 1964, e o do Armamento, o cabinda Alexandre Tati, em Junho de 1965.

Destes dois abandonos, o de Savimbi foi o mais importante, por ser elemento muito conhecido nas chancelarias do continente africano.

As suas críticas a Holden Roberto e ao GRAE convenceram um sector da OUA de que este não era o único líder legítimo do povo angolano e de alguma forma contribuíram para a atribuição de representatividade ao MPLA.

Tanto Savimbi como Tati foram acompanhados pelos seus partidários, pelo que o GRAE e a FNLA se voltaram a apoiar quase exclusivamente nos bacongos.

A sua actividade viu-se reduzida ao controlo da fronteira com a República Democrática do Congo (depois Zaire), donde realizavam incursões no Norte de Angola, geralmente de curta penetração, depois das quais regressavam às suas bases do outro lado da fronteira. Mantiveram também pequenos grupos de guerrilha no interior de Angola, ao sul de Bembe, na zona dos Dembos.

A chegada de Johnson à Casa Branca, em 1964, significou o abandono da política anticolonial do seu antecessor e a aproximação às teses portuguesas de que a descolonização seria sempre em favor da União Soviética.

Com esta nova política, os Estados Unidos diminuíram substancialmente o apoio concedido à FNLA, sem o qual o movimento entrou praticamente em hibernação. Contudo, a evolução interna no Congo motivada pelo golpe de Estado de Mobutu, concunhado de Holden Roberto, em Novembro de 1965, pareceu poder alterar a situação, mas aquele estava mais interessado em instrumentalizar a FNLA do que em fomentar a sua autonomia. Após um primeiro período (1964-1969) em que Portugal procurou desestabilizar a situação congolesa, enquanto Mobutu se esforçava por aumentar a operacionalidade da FNLA, a verdade é que o Zaire acabou por evitar hostilizar frontalmente Portugal, país com o qual mantinha contactos não oficiais.

É que, para além de outras razões, residiam em Angola mais de quatro mil catangueses, exilados desde 1963, sustentados por Portugal para pressionar o Governo zairense, sendo também importante referir que tanto o Zaire como a Zâmbia utilizavam a linha férrea de Benguela para exportar os seus produtos minerais através do porto do Lobito, não havendo grandes alternativas a esta necessidade.

O bom entendimento entre Portugal e o Zaire tornou-se evidente em 1969, quando as autoridades de ambos os lados realizaram uma acção coordenada, para afastar da fronteira os elementos da FNLA. A nova atitude das autoridades zairenses deveu-se, em parte, ao mal-estar causado por elementos deste movimento junto das populações congolesas fronteiriças, sendo a partir desta altura que Mobutu decidiu concentrar os elementos da FNLA na base de Kinkusu, próximo de Kinshasa, afastando-os de Angola. Mobutu manteve, apesar disso, o seu apoio ao movimento de Holden Roberto, já que essa atitude significava para ele, junto dos seus homólogos africanos, um comprometimento com a luta pela libertação colonial. Por outro lado, a manutenção deste apoio sempre deixaria o Zaire bem colocado para intervir no futuro processo de descolonização e dava-lhe, de qualquer maneira, um instrumento de combate ao MPLA, cujo triunfo era necessário evitar a todo o custo, pelas implicações que poderia representar para o seu regime.

Desde 1967 a actividade militar da FNLA reduziu-se a níveis muito baixos, só aparecendo, a partir de Abril de 1970, no sector oriental da zona norte, com infiltrações a partir do Catanga, mas estas iniciativas não viriam a ter continuidade. A sua força continuou a residir no controlo de cerca de meio milhão de bacongos existentes no Zaire, uns procedentes dos movimentos de emigração económicos anteriores a 1960 e outros como consequência da repressão que se seguiu à insurreição de 1961.

A partir de 1971, e como consequência da nova política arquitectada pelo Zaire, agora mais interveniente no continente africano, Mobutu decidiu reforçar a FNLA, que voltou a ser reconhecida pela OUA, tendo, aliás, os presidentes do Zaire, Congo, Tanzânia e Zâmbia sido nesta altura encarregados de promover a fusão da FNLA e do MPLA, intuito que nunca conseguiram realizar.

Entretanto, em 1972, em consequência da aproximação diplomática Kinshasa-Pequim, a China ajudou o partido de Holden Roberto, mas Mobutu nunca permitiu que se constituísse uma força poderosa e autónoma dentro do seu próprio território, já que isso poderia implicar algum perigo para o controlo do país.

E como os homens da FNLA continuaram a ter problemas no acesso à fronteira de Angola, o estado-maior do movimento acabou por sublevar-se contra a direcção, em Kinkusu, em Março de 1972, levantamento que foi reprimido pelo exército zairense.

Só muito escassamente a FNLA desenvolveu outra actividade que não a militar, sendo esta sobretudo efectuada através de emboscadas e implantação de minas. No restante caracteriza-se pelo seu quase insignificante contributo teórico para a luta de libertação, assim como a sua actuação não foi acompanhada pela intenção de criar uma soberania paralela com serviços, designadamente de saúde e educação, tão característicos de outros movimentos de libertação.


Índice
1 - MPLA - evolução política
2 - FNLA - um movimento em permanente letargia
3 - Guiné-Bissau: a construção do Estado.
4 - Frelimo: a determinação de Machel.
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