Frelimo: a determinação de Machel.


Frelimo: a determinação de Machel

Em Moçambique, quadros político-militares formados no estrangeiro foram encarregados, a partir de 1963, de preparar o início de acções armadas no interior.

As primeiras traduziram-se nos ataques ao posto do Chai, em Cabo Delgado, e de Cobué, no Niassa, em 25 de Setembro de 1964.

A guerrilha tinha realizado um trabalho de propaganda política na zona ocupada pela etnia maconde, estendendo rapidamente a sua acção a toda a região norte até ao rio Messalo, em especial nas áreas ocupadas por este povo de religião animista, que se manteria, em toda a guerra como um dos esteios principais da acção da Frelimo.

A guerrilha em Moçambique debateu-se com muitas dificuldades. Uma foi a falta de quadros profissionais, uma vez que quando se iniciou a luta armada, eram muito poucos os moçambicanos com formação universitária, e outra prendeu-se com a divisão étnica e o tribalismo.

Este aspecto, mais até que os problemas sociais, condicionou muitas vezes a actividade Frelimo, nunca deixando de se manifestar durante o período da luta armada. De facto, as componentes étnicas dos grupos que se haviam reunido na Frelimo continuaram a manifestar-se no seu seio, ressurgindo a Udenamo, a Unami e o MANU, para além de serem criados novos grupos de base tribal. Outro problema foi a dificuldade de avanço rápido no terreno, o que, juntamente com as duras condições da guerra a que as populações apoiantes estavam sujeitas, provocou momentos de impasse e mesmo de retrocesso, destacando-se, em especial, a crise de 1967 a 1970.

Tanto nos círculos governamentais tanzanianos, onde se situava a retaguarda da Frelimo, como no seio do próprio movimento se começou a falar abertamente da substituição de Mondlane, por ser demasiado moderado. Assim, para solucionar a crise política e dar um maior impulso à guerra, foi convocado o II Congresso da Frelimo, que se realizou no Niassa, em Julho de 1968, o qual se caracterizou politicamente por ter definido a luta contra Portugal como uma guerra popular prolongada, cujo objectivo último era a independência nacional. Apesar das fortes divergências, a direcção continuou, na essência, a mesma que antes, o que terá levado à deserção de Lázaro Kavandame, um dos chefes macondes, em Abril de 1969.

Coincidindo com estes agudos problemas internos, ocorreu o assassínio do presidente do partido, Eduardo Mondlane, em 3 de Fevereiro de 1969, através de uma encomenda-bomba, em Dar-es-Salam. A morte de Mondlane, nunca devidamente esclarecida, tem evidentes semelhanças com a de Amílcar Cabral, tanto nos contornos da situação interna em ambos os movimentos, como nas leituras de situação dos respectivos serviços portugueses em cada território.

A Frelimo ultrapassou o vazio deixado por Mondlane com a criação de um Conselho da Presidência, encabeçado por Uria Simango e integrando Samora Machel e Marcelino dos Santos. Esta fórmula de compromisso rompeu-se, a partir de Outubro de 1969, com algumas importantes dissidências, como a de Uria Simango, e acabou, em Maio de 1970, com a nomeação de Samora Machel como presidente do movimento. Foi a partir de então, em especial através da determinação deste último, que a Frelimo reforçou a sua actividade diplomática e militar, estando, a nível político, presente nas cimeiras dos países não alinhados e da OUA realizadas em Lusaca e Addis Abeba, em Setembro de 1970.

Em Outubro de 1972, o Secretariado Executivo do Comité de Libertação da OUA visitou o interior de Moçambique a convite da Frelimo, concluindo que a guerrilha exercia a soberania integral em várias zonas das províncias fronteiriças com a Tanzânia, numa profundidade média de trezentos quilómetros, onde funcionavam escolas e hospitais.

Esta informação foi decisiva para que a ONU, no mês seguinte, concedesse à Frelimo o estatuto de observador.

A nível militar, o movimento concentrou o seu potencial na frente de Tete, actuando a partir de bases na Zâmbia ou atravessando o território do Malawi. Em finais de 1973, os guerrilheiros chegaram ao norte do rio Buzi e começaram a penetrar nos subúrbios das cidades, onde, de forma geral, as populações preferiram esperar o resultado da guerra, ainda que cada vez mais manifestassem o seu incómodo pela presença portuguesa.


Índice
1 - MPLA - evolução política
2 - FNLA - um movimento em permanente letargia
3 - Guiné-Bissau: a construção do Estado.
4 - Frelimo: a determinação de Machel.
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