UNITA


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A UNITA apenas teve acção militar no Leste de Angola. Este partido reivindica como primeira acção o ataque contra a cidade de Teixeira de Sousa, no Natal de 1966, em que perdeu cerca de trezentos homens, na maioria armados de pedras e transportando feitiços.

Iniciou a sua actividade militar a partir da Zâmbia, atingindo a região a sul de Henrique de Carvalho (Saurimo) em Janeiro de 1968, que constituiu o limite norte da sua actividade.

Depois de instalada no interior de Angola, as suas incursões partiam das áreas de Buçaco e Cangumbe, região a oeste do Luso até ao Munhango, Léua e Luxia.

A zona de nítida influência da UNITA era definida pelo rio Cassai-Buçaco-Luso-Cassange-rio Lungué Bungo, sendo a zona tradicional de refúgio da UNITA o nó hidrográfico situado a sul de Cuemba-Munhango-Cangumbe, serra do Mosango, onde se situava o posto de comando de Jonas Savimbi.
Na zona adjacente ao caminho de ferro de Benguela, a leste do Luso, existia uma zona de influência mista UNITA-MPLA.

Nesta zona, a UNITA realizou operações de sabotagem no caminho de ferro, que provocaram a chamada à Zâmbia do seu presidente Jonas Savimbi, dado os prejuízos que a retaliação política de Portugal, demorando as obras de recuperação, causavam àquele país, para quem aquela via férrea era linha vital de transporte.

Um dos últimos descarrilamentos provocados ocorreu em Agosto de 1968.

A organização militar da UNITA dividia o território em zonas, cada uma com comando geral e vários comandos regionais, que abrangiam diversos postos ou acampamentos.

A UNITA declarava, em 1968, dispor de oito zonas, englobando 66 destacamentos, embora as forças portuguesas apenas conseguissem identificar três.

Foi sempre difícil definir os limites de actuação das organizações militares da UNITA, mas no sector da Lunda a sua organização era a seguinte:

Zona de Xassengue-Alto Chicapa-Dala-Mona Quimbundo

- Grupo do Capes Cafundanga (CEM das FA)        38 elementos
- Grupo de Luachica                                                     11 elementos
- Grupo do Mambala                                                     12 elementos
 
Zona do Muriege-Casage-Caifuche-Teixeira de Sousa

- Grupo do David Jonatão Chingunji «Samuímbia» 13 elementos
- Grupo do Sacoca                                                           11 elementos
- Grupo do Tchifuvo                                                          45 elementos
- Grupo do Miguel Calunda                                             30 elementos
- Grupo do James                                                             12 elementos
- Grupo do Chicala                                                            25 elementos
- Grupo do Catota                                                              25 elementos

Os militares portugueses estimavam em quinhentos o número máximo de elementos combatentes activos da UNITA, enquanto esta organização reivindicava dispor de quatro mil.

O armamento dos grupos era, em 1968, constituído sobretudo por armas gentílicas e muito poucas «armas finas», pelo que a sua capacidade de combate era reduzida e, embora tenha melhorado a qualidade do material, teve sempre grande dificuldades neste campo.

A primeira actividade da UNITA consistiu na infiltração de grupos para aliciamento e colecta de fundos, a partir da Zâmbia.

Posteriormente, os seus grupos executaram acções de intimidação sobre viaturas e cantinas isoladas.
Foi, contudo, entre a UNITA e o MPLA que se travaram os combates mais renhidos e violentos para o controlo desta área e das suas populações, confronto em que o MPLA levou quase sempre a melhor. A entrada da FNLA no Leste de Angola dificultou ainda mais a acção da UNITA, que viu efectivos seus regressar à organização de Holden Roberto.

Em resumo, a acção militar da UNITA é a luta pela sobrevivência, que obrigou a organização a fazer compromissos com os portugueses - Operação Madeira - e com a Zâmbia, para limitação de acções sobre o caminho de ferro de Benguela.

Em Novembro de 1968, os comandos militares portugueses na zona faziam a seguinte apreciação da situação da UNITA:

«Continua a verificar-se a perda sistemática e progressiva de terreno deste partido na zona leste a favor do MPLA, que, através de equipas anti-UNITA lançadas à frente dos destacamentos de apoio, vai procedendo à limpeza das áreas.»

Em Janeiro de 1969, a UNITA sofreu forte revés com a adesão do comandante Muanangola e de 144 elementos à FNLA. Muanangola havia comandado o grupo que efectuou uma emboscada (21 de Setembro de 1968) a sul de Cangumbe.

Em 1970, era a seguinte a apreciação do comando militar português sobre este movimento: «Actua normalmente em acções restritas sobre viaturas isoladas, ou com pequenas escoltas, serrações, viaturas da PSP ou OPVDCA, assim como intimidações de populações ou raptos, mas reagindo com violência às penetrações das NT nas regiões onde possuem acampamentos. Devido ao alastramento da UPA e do MPLA para oeste, a área deste partido foi diminuída, mantendo, no entanto, as suas bases com incidência especial para as regiões a sul de Cangumbe e no rio Lungué-Bungo.

Tem beneficiado da presença do seu presidente Jonas Savimbi em território nacional.

Este partido tem tido dificuldade na acção a desenvolver, devido ao alastramento e "anel" que os outros dois partidos (UPA e MPLA) lhe fizeram.»

Operação Madeira

Em Agosto/Setembro de 1971 haviam-se, entretanto, iniciado nas matas do Moxico os contactos com os madeireiros portugueses Zeca Oliveira e António Duarte, no sentido de estabelecer um modus vivendi que permitisse à UNITA obter fundos e aos madeireiros prosseguir a actividade com segurança.

Os madeireiros propunham-se pagar-lhe dois mil escudos e comunicaram a situação às autoridades militares e policiais portuguesas.

O brigadeiro Bettencourt Rodrigues, comandante da Zona Militar Leste, pediu autorização ao general Costa Gomes, comandante-chefe das Forças Armadas em Angola, para prosseguir os contactos; o chefe da delegação da DGS, São José Lopes, propôs ao governador-geral relacionamento mais estreito com a UNITA; Lisboa foi informada e o ministro do Ultramar, Silva Cunha, considerou de «muito interesse as iniciativas para a eventual colaboração com a UNITA, contra a UPA e o MPLA».

Um grupo de trabalho constituído pelo tenente-coronel Ramires de Oliveira, que presidia, pelo inspector Manuel Ferreira Linhares, da DGS, pelo tenente-coronel Oliveira de Carvalho e pelos majores Passos Ramos e Espírito Santo, preparou o plano da Operação Madeira, que foi aprovado em Dezembro de 1971.

A Savimbi era assegurado um salvo-conduto, garantindo a «liberdade pessoal e a integridade física».
Em Maio de 1972, em reunião do grupo de trabalho no Luso, em que estiveram presentes membros da UNITA, as delegações discutiram as condições para a cessação das operações militares e o fornecimento de guias do movimento às tropas portuguesas, o estatuto dos elementos da UNITA que se integrassem na estrutura militar e política dos portugueses e a atribuição à organização de sectores para acções contra o MPLA.

A colaboração entre os militares portugueses e Jonas Savimbi chegou ao ponto de um médico militar português se deslocar em helicóptero militar, para lhe prestar assistência - Operação Castor.

A mudança das chefias militares portuguesas em Angola alterou a situação, quando o general Luz Cunha substituiu o general Costa Gomes e o general Barroso Hipólito rendeu Bettencourt Rodrigues no comando da ZML.
 
O general Hipólito entendeu que a UNITA deveria ser tratada como qualquer outro «movimento terrorista» e, em 21 de Setembro de 1973, realizou-se uma operação contra este movimento, o que quebrou as tréguas de colaboração existentes desde o início de 1972.


Índice
1 - MPLA/ Rota Agostinho Neto
2 - UPA/FNLA
3 - UNITA
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