Organização militar


Organização militar

O PAIGC apresentava, já em 1962, uma organização apreciável, sendo nítida a articulação entre as acções políticas e militares, de modo a concorrerem para a obtenção da independência da Guiné. Nesse ano, o PAIGC elaborou um Plano de Actuação e Organização Militar, em que definia o esquema geral de uma estrutura militar. Este esquema inicial previa dois tipos diferentes de grupos armados de guerrilha: de área (territoriais) e móveis (de intervenção). Estes grupos constituíram a unidade elementar, de cuja associação foram resultando unidades de escalão superior. No final de 1962, os grupos já estavam armados com granadas de mão e pistolas-metralhadoras (PPSH).
Em 1963, a partir das unidades de que já dispunha e da influência de alguns quadros recém-formados na China, o PAIGC decidiu criar o Exército Popular, a Milícia Popular (encarregada da vigilância das áreas libertadas) e reestruturar a guerrilha. O Exército Popular (EP) e a Milícia Popular foram formalmente, criados em Fevereiro de 1964, em cumprimento das resoluções do I Congresso do PAIGC, bem como a reestruturação da guerrilha. Esta e o Exército Popular passaram a constituir as Forças Armadas Revolucionárias Populares (FARP), enquanto as milícias continuaram a depender dos órgãos político-administrativos. O território foi dividido em três inter-regiões, Norte, Sul e Leste (esta nunca chegou a ser activada), agrupando as treze regiões existentes do anterior, cada uma das quais dispunha de um comando militar único e estava dividida em zonas e em sectores.

Ainda no I Congresso, foi criado na cúpula do partido um conselho de guerra, directamente dirigido pelo secretário-geral que funcionará como verdadeiro estado-maior.
Em 1965, os comandos militares únicos inter-regiões passaram a designar-se comandos gerais do Norte e do Sul e em 1966, comandos de frente, assim se mantendo até ao final da guerra. Estes comandos controlavam e coordenavam as acções em toda a área à sua responsabilidade. A Frente Leste, embora criada, nunca foi estruturada.

Em 1969, o PAIGC evoluiu para nova divisão administrativa e militar, em função do seu avanço político. Foi criada a Comissão Nacional das Regiões Libertadas e, militarmente, o território foi dividido pelo rio Geba nas frentes Norte e Sul, e estas em sectores ou zonas.
As unidades do PAIGC estavam agrupadas em três tipos distintos:

- Infantaria: grupos, bigrupos e bigrupos reforçados, predominantemente dotados de armas ligeiras e lança-granadas-foguete (LGF).
- Artilharia: morteiros, canhões, antiaérea e artilharia pesada (morteiros e foguetões).
- Grupos especiais: miras telescópicas, sapadores, lança-granadas-foguete e comandos.

O bigrupo constituiu a unidade em que assentou a organização para o combate do PAIGC.Unidade de composição flexível, com elevado poder de fogo, estava tão excelentemente adaptada às características da guerra que as forças portuguesas que combateram na Guiné copiaram a sua organização, tendo o general Spínola proposto uma alteração na organização das companhias de caçadores, baseada na estrutura desta unidade.

Em 1971, o PAIGC procedeu a nova reestruturação das suas Forças Armadas, que passaram a ser designadas Forças Armadas Nacionalistas, nas quais surgiu a Marinha Nacional Popular em paralelo com o Exército Popular, que passou a ser designado por Exército Nacional Popular, e as Forças Armadas Locais, que substituíram e integraram as milícias populares.
As Forças Armadas Nacionalistas (FAN) tinham por função conduzir a luta armada em todo o território. O Exército Nacional Popular constituiu a componente terrestre das FAN e a sua base foi o bigrupo, formado por trinta e oito combatentes.

Três ou quatro bigrupos constituíam um corpo de exército (CE), e dois ou mais CE formavam um exército. Os exércitos e os corpos de exército actuaram nas nove frentes criadas em 1970, e que foram progressivamente activadas.
A Marinha Nacional era a fracção das FAN preparada para lutar nos mares e rios da Guiné e de Cabo Verde. Era formada por unidades navais e por unidades de fuzileiros, estas organizadas à semelhança dos bigrupos de exército.
Em 1971, o PAIGC estava a treinar em Conacri uma equipa de homens-rãs, com a assistência de técnicos russos.
 
A terceira componente das FAN eram as Forças Armadas Locais (FAL), que substituíram as milícias e correspondiam à evolução da guerra. A unidade base das FAL era o grupo de dezanove homens, armados com pistolas-metralhadoras (PPSH), bazucas (RPG-2) e carabinas (Simonov), forças essas organizadas por zonas e por conjuntos de tabancas. Nas zonas libertadas, constituíam as Forças Armadas das Regiões Libertadas (FARL).
Era nas FARL que se integravam os destacamentos femininos, cada um constituído por dezoito membros e comandado por um homem com experiência militar, tendo como adjunto uma mulher.
As FAL e as FARL tinham a missão de apoiar os serviços de segurança e de trabalho político; defender as regiões libertadas; guardar as instituições sociais do partido (hospitais, escolas, armazéns, etc.); participar nas acções militares ao lado do Exército Popular e ajudar as populações nos trabalhos agrícolas e de reconstrução.
O potencial militar do PAIGC abrangia os aspectos de material e pessoal. Quanto ao material, não diferia do dos restantes movimentos de libertação e será tratado em conjunto. Pode afirmar-se, contudo, que não se registaram durante os anos de guerra dificuldades insuperáveis na sua quantidade, notando-se mesmo crescente volume de material disponível, fruto do constante aumento dos seus apoios externos.

No que diz respeito ao pessoal, embora as características da luta de guerrilhas torne difícil precisar os efectivos empenhados e estabelecer estimativa esclarecedora, o comando militar português considerava, em 1971, as seguintes bases:

Efectivos por unidades:

- bigrupo                                             38/44
- bigrupo reforçado                           70
- grupo de artilharia                          50
- grupo de canhões/morteiros        23
- grupo de foguetões/antiaéreos    16

Efectivos por regiões:
Inter-Região Norte:

- Frente São Domingos/Sambuiá 630
- Frente Canchungo/Biambe          760
- Frente Morés/Nhacra                     680
- Frente Bafatá/Gabu Norte             730

Inter-Região Sul:

- Frente Bafatá/Gabu Sul                  200
- Frente Bafatá/Xitole                         160
- Frente Buba/Quitafine                   1230
- Frente do Ouinara                            560
- Frente de Catió                                 370

Além destes efectivos, que totalizavam cerca de cinco mil e quinhentos elementos para o Exército Popular, há que acrescentar cerca de dois mil milícias, novecentos a mil em cada inter-região.
O PAIGC, atendendo à taxa de natalidade e mortalidade existente, podia aumentar os seus efectivos em cerca de cinco mil combatentes, valendo-se somente das populações controladas.
Na sua actividade militar, o PAIGC realizou, de 1969 a 1972, a média mensal de setenta acções da sua iniciativa, causando às forças portuguesas uma média superior a nove mortos e setenta e um feridos. Mas só durante Maio de 1973 as forças portuguesas na Guiné sofreram sessenta e três mortos, duzentos e sessenta e nove feridos e um prisioneiro, tendo o PAIGC realizado 166 ataques a posições militares portuguesas, 36 emboscadas, 12 ataques contra aeronaves, um contra embarcações e implantado 105 minas, das quais 66 foram accionadas por militares portugueses, o que dá ideia do agravamento da situação na Guiné em 1973.
O dia 25 de Março de 1973, em que o PAIGC abateu um avião Fiat G-91 com um míssil terra-ar, que no relatório português foi designado por «arma desconhecida, tipo foguete» e só mais tarde identificado como Strella, representou o fim da supremacia aérea das forças portuguesas na Guiné. Mas não foi acção isolada nem fortuita, já que, só na semana de 25 de Março a 1 de Junho, o PAIGC realizou as seguintes acções antiaéreas:
- Um Fiat G-91 foi abatido em 25 de Março sobre Guileje, tendo-se o piloto ejectado e sendo posteriormente recuperado;
- Dois aviões T-6 foram flagelados junto à fronteira da Guiné-Conacri, na zona de Guileje;
- Um helicóptero AL III foi flagelado com tiros de metralhadora;
- Um Fiat G-91 foi atingido em 28 de Março, com «arma desconhecida, tipo foguete», em Madina do Boé, tendo explodido e morrido o piloto - o tenente-coronel piloto-aviador Brito, o primeiro a ser abatido por míssil Strella aos comandos de um avião de reacção. A outra aeronave que com ele fazia parelha foi também flagelada com a mesma «arma desconhecida», mas conseguiu escapar.

Na semana seguinte, de 1 a 8 de Abril, continuaram as acções antiaéreas do PAIGC:
- Um DO-27 flagelado com lança-foguetes RPG;
- Um helicóptero AL III flagelado com tiros de armas ligeiras em Guileje;
- Um T-6 abatido por arma desconhecida na região de Binta/Guidage, tendo-se despenhado e o piloto morrido;
- Um DO-27 abatido em Binta/Guidage, tendo morrido o piloto e o passageiro, um major do Exército;
- Um DO-27 flagelado em Talicó, sem consequências.

A guerra, a partir de então, passou a ser diferente. Numa reunião de comandos militares realizada em Bissau, em 15 de Maio, o general Spínola referiu-se à situação nestes termos: «Encontramo-nos, indiscutivelmente, na entrada de um novo patamar da guerra, o que necessariamente impõe o reequacionamento do trinómio missão-inimigo-meios ( ... ) em reuniões preparatórias ressaltou nítida a conclusão da precariedade dos meios actuais para enfrentar a situação, que considero crítica pelas perspectivas da evolução que se desenha ... »


Índice
1 - Da fundação ao início da guerra
2 - Organização militar
Multi-média
» Organização...