Espingardas


Espingardas

O desencadear das hostilidades revelou, logo de início, em qualquer dos três teatros, a falta de uma arma automática de base: em Angola, os ataques em massa não podiam ser eficazmente contrariados com espingardas de repetição; na Guiné e em Moçambique, os guerrilheiros dispuseram, desde o princípio, de armas automáticas que lhes davam nítida vantagem sobre algumas das tropas portuguesas (caso das unidades de guarnição normal).
Assim, a prioridade, em 1961, foi a obtenção imediata de armas automáticas, mas tendo em atenção a necessidade de garantir o fluxo de abastecimento de munições e sobressalentes, o que só poderia ser plenamente conseguido através do fabrico nacional. Duas armas pareciam corresponder aos desideratos operacionais então formulados: a FN, de origem belga, e a G-3, de origem alemã. Quanto às munições, não havia problema, porquanto o cartucho de 7,62 mm era já fabricado em Portugal e exportado em larga escala, sobretudo para a RFA. Foram assim adquiridas (com dificuldades, como veremos), dois lotes destas duas armas:

- FN: 3835 sem bipé (s/b) e 970 com bipé ( c/b);
- G-3: 2400 sem bipé (s/b) e 425 com bipé (c/b).

Estas armas foram testadas em operações, «a quente», tendo-se concluído, de modo genérico, que as FN eram mais robustas e de mais fácil transporte, mas o sistema de regulação gases levantava problemas com pessoal pouco instruído; quanto às G-3 tinham mais precisão, mas o sistema de travamento por roletes revelava tendência para quebrar. No entanto ambas foram consideradas como satisfazendo os requisitos operacionais.

Na época, qualquer fornecimento de material militar a Portugal era extremamente melindroso, não sendo de admirar as dificuldades encontradas. No tocante ao fabrico, a decisão tenderia naturalmente para a opção alemã mais que não fosse pelo grande volume de transacções já existente entre a RFA e Portugal (dezenas de milhões de cartuchos 7,62 e centenas de miIhares de granadas de artilharia eram fabricadas nas FBP e FNMAL e vendidas à Alemanha). O fabrico nacional ficou decidido ainda em 1961, saindo as primeiras armas quinze meses depois (fins de 1962), para o que foi determinante a transferência de tecnologia e a assistência à produção, que permitiram, a partir de 1962, o fabrico de canos e carregadores. Para acorrer às necessidades imediatas, a RFA prontificou-se a ceder, dos seus stocks, quinze mil espingardas FN usadas, sem restrições de emprego, que deveriam ser devolvidas depois de beneficiadas e à medida que fossem fabricadas as G-3. De facto, foram recebidas 14 867 FN por esta via, mas quanto à devolução, parece não ter havido pressa, porquanto, em 1965, havia já cerca de 140 000 G-3 de fabrico nacional e estas FN continuavam em Portugal.

Ainda quanto às espingardas FN, foram também adquiridas directamente à fábrica, ou através de outros utilizadores (África de Sul). Mais concretamente, dado o carácter de urgência, houve um lote de armas cedido por este país dos seus próprios stocks, posteriormente repostos pela fábrica belga. No total, seriam fornecidas cerca de doze mil e quinhentas destas armas.

Antes da adopção da G-3, a distribuição prevista de armas automáticas era a de FN para Moçambique e de G-3 para Angola, mas problemas políticos levaram a que, em certo período, a G-3 fosse mantida «fora de vistas» nesta última. O total de armas adquiridas, antes do fabrico nacional, foi de 8000 G-3, 12 500 FN belgas e de 14 500 FN alemãs, repartidas pela Metrópole, Guiné, Angola, Moçambique e Timor.
A produção julgada necessária em Junho de 1961 era de cento e cinco mil armas, sendo setenta e cinco mil para a Metrópole e trinta mil para o Ultramar. O conceito inicial era de manter na Metrópole o número de armas destinadas à instrução e ter em depósito as necessárias para equipar as unidades mobilizadas, mas o futuro se encarregaria de inverter esta distribuição. É curioso notar que só por despacho de 18/9/65 do CEMGFA a G-3 foi considerada «arma regulamentar».


Índice
1 - Armas existentes antes de 1961
2 - Espingardas
3 - Metralhadoras
4 - Pistolas Metralhadoras
5 - Lança-Granadas
6 - Canhões sem recuo
7 - Morteiros
8 - Artilharia
9 - Cavalaria
10 - Orgânica
11 - Conclusões
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