Artilharia


Artilharia

A Artilharia, como se pode ler em qualquer manual, é a arma dos fogos potentes, precisos, profundos e prolongados, mas na guerra de guerrilha a sua actuação foi fortemente condicionada pela dispersão dos guerrilheiros, pelo fraco rigor das cartas topográficas e pelo mau estado das vias de comunicação necessárias para o deslocamento dos materiais, quase intransitáveis pelo menos no início da guerra. À Artilharia portuguesa aconteceu algo de semelhante à Cavalaria: a maioria dos seus efectivos teve de combater como Infantaria, e apenas um núcleo reduzido efectuou acções típicas de apoio de fogos.

Em Angola, logo após os primeiros acontecimentos no Norte, foram destacados para o Toto e Ambriz os pelotões de artilharia que actuaram como infantaria, tendo as primeiras companhias de artilharia, idênticas às de caçadores, embora enquadradas por oficiais e sargentos artilheiros, chegado a Luanda, por via aérea, em 2 de Maio.
A primeira actuação da Artilharia com bocas de fogo decorreu em Abril de 1961, em conjunto com uma companhia de caçadores especiais, numa acção sobre a ilha dos Jacarés. Seguiu-se o apoio de fogos na Operação Viriato às progressões do Batalhão 114, no eixo Quicabo-Nambuangongo, e do Esquadrão 149, no eixo Ambrizete-Zala-Nambuangongo. Depois participaram nos ataques à Pedra Verde, executando neste último combate uma «barragem rolante».
A Artilharia apoiou várias operações na região dos Dembos. Em 1969, a acção realizou-se sobre o morro Mil e Vinte, com material de 7,5 cm de montanha e ainda com duas baterias de 10,5 cm, no auxílio a sete companhias de caçadores.
Para coordenar a acção das unidades foi criado, apenas em 1972, o Comando da Artilharia de Angola, mas não será exagero dizer que a actuação deste ramo foi modesta e que o resultado das suas actuações na floresta era sobretudo de efeito psicológico.

Em Moçambique, a primeira actuação da artilharia verificou-se, em 1964, com uma bateria do Grupo de Artilharia de Nampula, na Operação Águia. Esta bateria de obuses 8,8 cm, deslocou-se de Nampula até Mueda, para apoiar os dois batalhões de caçadores envolvidos nas acções do Planalto dos Macondes que marcaram o início da guerra.
As dificuldades de emprego da Artilharia em Moçambique foram idênticas às de Angola - má cartografia e más vias de comunicação -, mas é de referir o seu emprego na Operação Nó Górdio, que foi apoiada por um comando artilharia dispondo de três baterias num total de dezasseis bocas de fogo de 8.8 cm, sendo uma bateria atribuída em apoio directo ao agrupamento de comandos no ataque à base Gungunhana, outra ao agrupamento de pára-quedistas no assalto à base Moçambique e a terceira inicialmente em acção de conjunto e posteriormente, em apoio directo ao agrupamento de fuzileiros no ataque à base Nampula. No total, foram disparadas cerca de duas mil e quinhentas granadas.
Após a Operação Nó Górdio, a artilharia de Moçambique passou a ter a seguinte constituição: o comando na ilha de Moçambique (Lumbo), o centro de instrução na Beira, uma bateria 8,8 cm em Mueda e outra em Cahora Bassa. Dispunha ainda de onze pelotões de 14 cm, em apoio a companhias de caçadores, e de dois pelotões de artilharia antiaérea, com peças de 4 cm e metralhadoras de 12,7 mm, um em Cahora Bassa e o outro com as armas posicionadas em Mueda, Nangololo e Nangade, no Norte. Por fim, existiam três baterias de artilharia de costa, instaladas, já antes da guerra, na Xefina, Ponta Mahone e na Beira.

Na Guiné, o emprego da artilharia enquadrou-se no conceito de manobra do general Spínola, no sentido de evitar a penetração dos guerrilheiros do PAIGC pelos corredores com origem na Guiné-Conacri e no Senegal, assegurar a capacidade de actuar em qualquer ponto do território com unidades de intervenção e garantir a protecção das populações junto aos aquartelamentos portugueses.
O dispositivo da artilharia na Guiné baseou-se em pelotões a três bocas de fogo, instalados junto das companhias de caçadores e disseminados por todo o território, tendo a possibilidade de concentrar e coordenar fogos nas áreas fulcrais, possibilitando o apoio a operações, a flagelação de objectivos fronteiriços em resposta a penetrações e a acções desencadeadas a coberto da linha de fronteira e a protecção dos aquartelamentos e dos núcleos em autodefesa.
Os efectivos da artilharia na Guiné atingiram o quantitativo de 32 pelotões, com material de 8,8 cm, 10,5 cm, 11,4 cm e 14 cm, todos do tempo da II Guerra Mundial.
Faziam ainda parte do Grupo de Artilharia da Guiné três baterias de artilharia antiaérea, duas instaladas próximo de Bissau, para defesa do aeroporto, e outra com os pelotões distribuídos por Nova Lamego, Aldeia Formosa e Nhacra, este para protecção dos emissores de rádio.
O aumento de actividade do PAIGC e as restrições impostas à actuação da Força Aérea com o aparecimento dos Strella impuseram a necessidade de mais artilharia, mas os depósitos de Beirolas estavam já vazios e o embargo ao fornecimento de material de guerra a Portugal não permitia que eles fossem recompletados. Recorreu-se então ao último material existente com abundância: as peças antiaéreas de 9,4 em, que foram enviadas, já em 1974, para ser usadas como artilharia de campanha.
A ameaça de utilização de aviação por parte do PAIGC, que dispunha, em 1973, de seis pilotos formados e se preparava para receber aviões, levou a adquirir em França, através de nebuloso processo, uma bataria de mísseis Crotale, que contudo não chegou a sair de Portugal (com base num texto do coronel José Faia Correia).

A Artilharia dos movimentos de libertação.
A organização da Artilharia dos movimentos de libertação seguiu, de modo geral, a doutrina soviética de considerar como Artilharia todos os meios de apoio de fogos, individualizando como tal unidades de morteiros a partir do calibre de 82 mm e unidades de canhões sem recuo, de foguetões e mísseis, tendo sido o PAIGC o movimento que dispôs de melhores unidades e de mais evoluídos meios.
De modo geral, a organização da Artilharia dos movimentos de libertação era a seguinte:

- Grupo de morteiros (correspondente a uma bateria) com três pelotões, cada um com duas armas no caso dos morteiros 82 mm, ou dois pelotões cada um com três armas, no caso dos de 120 mm;
- Grupo de artilharia com um grupo de canhões, um grupo de morteiros e outro de metralhadoras;
- Pelotão de antiaérea (metralhadoras DGK 12,7 mm, peça de 14,4 Vladimir e peça de 37mm);
- Grupo de foguetões de 122 mm, com três rampas ou apenas duas, cada uma com uma guarnição de seis a sete homens.

A atribuição das unidades de artilharia variava de movimento para movimento.
O PAIGC integrava os grupos de artilharia e de morteiros nos seus corpos de Exército, enquanto o MPLA tinha uma secção com morteiros de 82 mm ou canhão sem recuo no grupo de comando dos seus esquadrões e destacamentos.
O ELNA dispôs de morteiros de 60 mm e de 82 mm, mas utilizava-os integrados nos seus grupos de guerrilheiros quando executavam acções sobre aquartelamentos portugueses no Leste de Angola, a partir de Kolwezi e de Dilolo.
A Frelimo empregou a artilharia principalmente em acções contra aquartelamentos.


Índice
1 - Exército
2 - Cavalaria
3 - Artilharia
4 - Engenharia
5 - Transmissões
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