Minas


Minas

As minas são constituídas, normalmente, por três partes: caixa, de madeira, plástico ou metal, carga explosiva e espoleta para a accionar.
O seu efeito pode ser por sopro ou pela sua conjugação com os estilhaços provocados pela explosão, e a pressão sobre um prato foi a forma mais comum de accionamento das que foram utilizadas durante a guerra.

Quanto à sua finalidade, as minas podem ser contra pessoas e contra viaturas. As primeiras têm cargas explosivas variáveis, que vão das cem gramas, como a Encrier, às quatrocentas, da «Viúva Negra» ou da PMO-6, sendo reguladas de modo a que o peso de um homem faça accionar a espoleta. As minas anticarros podem ter cargas explosivas de alguns quilos, dependendo do tipo de viatura que se pretende atingir e variando as pressões de acordo com essa intenção.
Durante a guerra foram utilizadas, quer pelas forças portuguesas quer pelos guerrilheiros, combinações de minas antipessoais e anticarros com outros tipos de explosivos e materiais destinados a provocar estilhaços ou a propagar fogo, assim como técnicas de armadilhar minas, colocando-lhes por baixo, ou em zona próxima, engenhos que rebentavam quando essas minas eram levantadas.
Daí o perigo que existia em todas as operações de neutralização de minas, o que fazia com que fossem destruídas através do accionamento controlado de outro explosivo.
As minas que os movimentos de libertação utilizaram com maior frequência tinham quase todas origem em países do bloco de Leste, embora aparecessem algumas francesas e italianas.
As forças portuguesas utilizaram, ao longo da guerra, todos os meios conhecidos de detecção de minas e engenhos explosivos, destacando-se a picagem, cuja morosidade apenas permitia o seu emprego em área limitada; os pesquisadores, meio mais eficaz mas igualmente demorado; e os rebenta-minas, abundantemente utilizados nas colunas motorizadas, permitindo velocidades de progressão consideradas razoáveis.
Foi ainda proposta, embora sem resultado, a utilização de cães treinados, tendo em conta experiências feitas pela África do Sul. Os rebenta-minas foram estudados com muito pormenor, especialmente em Angola, acabando quase sempre por se reduzir ao equipamento de uma viatura «Berliet», que seguia em frente da coluna com sacos de areia, e à especial protecção do condutor, único ocupante.
Os dispositivos montados à frente da viatura, estudados inclusivamente com a colaboração da Universidade de Luanda e fabricados pelo Depósito de Material de Guerra de Angola, nunca tiveram grande aceitação.

A coluna um a um, em fila indiana, ou «bicha de pirilau», foi a formação de combate mais utilizada pelos militares portugueses nas suas deslocações apeadas pelas matas de África. Seguir por trilho já aberto na floresta ou avançar a corta-mato era a difícil opção a tomar em cada momento da progressão. Abrir caminho na floresta densa ou na savana de arbustos de ramos entrançados e espinhosos era mais seguro, mas constituía esforço tremendo que os esgotava em poucos quilómetros, enquanto aproveitar os trilhos já batidos pelas populações ou abertos por outros militares permitia avançar com maior facilidade, mas representava risco acrescido de enfrentar uma emboscada ou mina.
Optar por uma ou outra das soluções resultava da análise da situação, mas era sempre jogo perigoso. Quando havia que chegar rapidamente aos objectivos e as tropas julgavam que a sua presença não fora ainda detectada, escolhia-se marchar pelos trilhos e confiava-se na sorte. O soldado número um da formação procurava «ler» o terreno onde punha os pés e ver para além das árvores que se encontravam diante de si, de modo a evitar as minas e a estar preparado para reagir a alguma emboscada.

Sabia-se que os guerrilheiros colocavam minas e armadilhas nos trilhos por onde previam a aproximação das tropas inimigas às suas bases ou zonas controladas, tendo o cuidado de assinalar esses locais de forma camuflada, só conhecida das populações da área. Um corte aparentemente fortuito no tronco de certa árvore, um ramo partido ou feixe de capim caído serviam de sinais, mas os militares portugueses dificilmente os conseguiam interpretar.

A sequência de fotografias apresentada revela pormenores dramáticos de uma das muitas vezes em que o azar bateu à porta de um soldado. A unidade de combate progredia na mata do Planalto dos Macondes, em Moçambique. Tinham saído há dois dias de Mueda para a floresta de savana seca, conhecida como a «zona dos paus». O terreno estava coberto do pó fino provocado pelas queimadas e pela falta de água, que rapidamente cobria os vestígios de pegadas. A paisagem era monotonamente igual; os lábios brancos com a sede, apesar de haver grandes quantidades de água em cantis de plástico; e os mosquitos morriam presos ao suor, entrando pelo nariz e pela boca.
De repente, uma explosão. A mina antipessoal esfacelara o pé e a perna direita do soldado. Foi preciso ministrar-lhe os primeiros socorros - garrote na coxa e compressas nos ossos, tendões e músculos dilacerados. As compressas rápidamente se tornaram vermelhas de sangue. Foi depois necessário dar-lhe soro e evitar que entrasse em choque.
Deitado no trilho, os outros homens montaram segurança em redor. Limpou-se-Ihe o rosto e molharam-se-Ihe os lábios com água. O enfermeiro preparou uma injecção de vitamina K, um anticoagulante, e outra de morfina, embora o ferido ainda não sentisse dores, apenas um vazio cheio de zumbidos na cabeça.
Foi pedida a evacuação para a base e preparou-se o local de aterragem para o helicóptero. Transportou-se o soldado numa maca improvisada e os outros sentiram-se mais aliviados quando o aparelho se elevou no ar, levando a bordo o ferido.
A unidade retomou a marcha, com mais cuidado, porque a sua presença já fora denunciada pelo estrondo da mina e a presença do helicóptero. Outro homem seguia no lugar daquele que acabava de ser atingido.


Índice
1 - Guerra subterrânea
2 - Minas