A Marinha antes da Guerra


A Marinha antes da guerra

João Falcão de Campos
 
Vejamos, quais os navios de que dispunha a Marinha em 1959, cerca de dois anos antes do início da Guerra Colonial.
Das velhas canhoneiras construídas após a I Guerra Mundial para serem utilizadas nas colónias, só restava a Diu, ao serviço da Brigada Naval. A velha lancha-canhoneira Tete, de propulsão por rodas, construída em 1918 e montada de novo em Moçambique em 1920, era no rio Zambeze o único navio, para além dos hidrográficos, que, no início de 1959, estava atribuído, com carácter de permanência, a qualquer das colónias portuguesas.
Dos navios do Programa Naval do ministro Magalhães Correia, todos construídos durante a década de 30, começavam a ser abatidos os cinco contratorpedeiros, aliás navios sem o mínimo de condições para actuação em África, o que não impediu a sua utilização esporádica na Guiné e, principalmente, em Cabo Verde. Os dois avisos de primeira classe Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias, assim como os quatro avisos de segunda classe Gonçalo Velho, Gonçalves Zarco, Pedro Nunes e João de Lisboa, apesar de se aproximarem da data em que a avançada idade recomendava o seu abate, ainda eram os navios que melhor satisfaziam, pelas suas características de habitabilidade, as exigências dos climas tropicais. Aliás, foram largamente utilizados em longas comissões nos mares de Índia, de Macau e de Timor. Afundado em combate na Índia, em 18 de Dezembro de 1961, o Afonso de Albuquerque; abatidos ao serviço, no inicio da década de 60, o Gonçalo Velho e o Gonçalves Zarco; transformado em navio-caserna de apoio às guarnições dos novos navios em construção, em França, o Bartolomeu Dias, ficaram ainda a prestar bons serviços como navios hidrográficos o João de Lisboa e o Pedro Nunes, sendo este último abatido ao serviço só em 1976, com mais de 40 anos, tendo assim participado em acções de apoio de fogo, em operações na Guiné.
Era, aliás, a actividade hidrográfica, para a qual contribuíam os navios hidrográficos atribuídos a cada uma das principais colónias em África, que constituía a mais valiosa e continuada acção da Marinha em África.
A maioria dos restantes navios que interessa considerar pertenciam já à geração dos adquiridos em segunda mão após a II Guerra Mundial, quer à Marinha Britânica, quer à Marinha Americana.
Tinha-se começado pela compra, em 1949, de duas fragatas inglesas da classe River, que ainda tinham participado na batalha do Atlântico, a Nuno Tristão e a Diogo Gomes; acabava-se de adquirir, em 1959, duas outras, desta vez da classe Bay inglesa, a Álvares Cabral e a Pacheco Pereira, construídas já nos últimos meses da II Guerra Mundial; como ainda se viria adquirir, dois anos mais tarde, duas novas fragatas da mesma classe Bay, a D. Francisco de Almeida e a Vasco da Gama, que tinham ficado, no final da guerra, meio acabadas e que haviam sido concluídas em 1949.
Apesar de inadequadas para a utilização em climas tropicais pois dispunham de eficientes sistemas de aquecimento, necessários nas águas do Atlântico Norte, mas não tinham sistema de arrefecimento de ar, pode considerar-se que foram estas seis fragatas que constituíram, até à sua gradual substituição cerca de dez anos mais tarde, pelas novas fragatas construídas em França e pelas corvetas encomendadas na Alemanha e em Espanha, o núcleo de navios que contribuiu, de alguma forma, para o controlo das linhas de comunicação entre a Metrópole e todas as colónias africanas, assim como para vigilância da águas costeiras daquelas onde se registaram operações de guerra de guerrilha.
É evidente que as tarefas que lhes competiam eram muito superiores às que o seu reduzido número permitia desempenhar com eficiência em três teatros de guerra. Além disso, e salvo ocasiões pontuais, como a que sucedeu no Norte de Angola no início de 1961, essas tarefas eram desempenhadas quase sempre bem longe das zonas de combate, sendo, no entanto, notável a sua acção de apoio e de transporte, quer de material quer de tropas, em Angola e no Norte de Moçambique.
Uma utilização semelhante à das fragatas, mas exclusivamente limitada aos mares de Angola, foi destinada, ainda no final dos anos 50, aos seis patrulhas da classe Príncipe. Obtidos em 1949 da Marinha dos Estados Unidos, estes navios, de 357 toneladas de deslocamento máximo, construídos durante a guerra, tinham sido, desde o início, intensivamente usados, aos pares, na fiscalização do mar dos Açores. Esta tarefa havia sido sempre exercida com as limitações resultantes das suas pequenas dimensões perante as condições de mar alteroso que frequentemente se verificavam no Atlântico Norte. Encontraram, finalmente, em Angola, em particular até à latitude de Moçâmedes, o tipo de mar adequado para as suas dimensões e características, tendo passado a ser permanente a presença de dois navios desta classe nas costas angolanas.
A inexistência de um estaleiro que os pudesse carenar obrigou-os, num primeiro tempo, a recorrer periodicamente aos estaleiros de Pointe Noire, no Congo então francês. Com a independência das colónias francesas e do Congo belga, em 1960, passaram a regressar obrigatoriamente à metrópole para as necessárias operações de manutenção e de carenagem do fundo. Só a partir de 1963, com a construção, no estaleiro da Sorefame do Lobito, de um plano inclinado com a capacidade para os pôr a seco, deixaram de vir a Portugal, acabando por ser enviados para Angola todos os navios da classe. Aí, foram finalmente abatidos entre 1967 e 1970, com mais de 25 anos de serviço, período extremamente longo sobretudo para navios construídos durante a guerra, a que se juntava a crescente dificuldade de obter sobresselentes para os seus motores.
Igualmente em Cabo Verde e na Guiné foi utilizada a Cacheu, corveta do tempo da II Guerra Mundial, adquirida à Marinha inglesa em 1950 para funções de navio hidrográfico, e que a guerra levou a transformar em corveta, em 1965.
A Marinha dispunha, ainda, de muitos outros navios, mas que, por uma razão ou outra, não podiam ser utilizados em África.
No seguimento do envolvimento dos Estados Unidos e das Nações Unidas na Guerra da Coreia e do intensivo recurso ao uso de minas pela Coreia do Norte e pela China, a NATO impulsionou a criação de numerosas esquadrilhas de draga-minas no seio das marinhas dos países do Pacto do Atlântico Norte. Só à Marinha Portuguesa foram atribuídos 12, construídos em estaleiros americanos, dos quais oito costeiros e quatro oceânicos, a que se juntaram, mais tarde, outros quatro costeiros construídos em Portugal. Independentemente de não poderem ser utilizados em missões que não fossem as que lhes eram destinadas no âmbito da NATO, eram navios de madeira, com capacidades que pouco ou nada interessavam à sua utilização em África. Só alguns dos quatro draga-minas feitos em Portugal, aliás com madeira de excelente qualidade quando comparada com a dos navios construídos nos estaleiros americanos, vieram a ser, ocasionalmente, utilizados muito mais tarde em Cabo Verde.
Com igual proibição de utilização fora do âmbito da NATO se encontravam as duas fragatas do tempo da II Guerra Mundial, a Corte Real e a Diogo Cão, cedidas em 1957 por empréstimo da Marinha dos Estados Unidos. Semelhante proibição recaia também sobre a fragata Pêro Escobar, mais conhecida na gíria naval pelo nome de Gina, devido às esbeltas formas do casco e das superstruturas. Construída em Itália, fora paga pelos EUA. Estes navios, recorrendo, por vezes, ao pretexto de viagens de instrução de cadetes, fizeram curtas estadias nas colónias em guerra, em particular na Guiné e em Angola.
Igualmente construídos com o apoio da NATO foram os oito patrulhas da classe Maio: dos quais os três primeiros em França e os restantes em Portugal, entre 1954 e 1958. Eram a versão francesa dos patrulhas de origem americana da classe Príncipe a que acima nos referimos. No entanto, o desejo de transformar navios de tão pequenas dimensões (pouco mais de 50 metros de comprimento e cerca de 400 toneladas de deslocamento máximo) em minifragatas, levou a que esta classe apresentasse problemas graves de manutenção dos cascos, que após poucos anos de utilização se transformaram em verdadeiras incógnitas quanto à sua disponibilidade operacional. Foram sobretudo utilizados na metrópole e nas águas dos Açores, para as quais, aliás, não tinham, em muitas épocas do ano, as dimensões suficientes para desempenhar com eficiência as suas funções.
Ainda mais pequenas eram as lanchas de fiscalização da pesca da classe Azevia, construídas no Arsenal do Alfeite, em 1941/42, e que já com alguma dificuldade aguentavam, por vezes, o mar da costa portuguesa, em particular o da costa norte.
De recordar ainda a existência de três submarinos adquiridos aos ingleses após a II Guerra Mundial, para os quais, igualmente, não havia utilização possível em África. Foram citados, sobretudo, aquando da invasão dos territórios da Índia pela União Indiana, como possíveis armas de contenção da intervenção dos navios de superfície indianos, caso estivessem então presentes em Goa. Era ignorar que tais navios não tinham condições para actuar longe da sua base de apoio em Lisboa, não só pela limitada autonomia, mas sobretudo por necessitarem de manutenção especializada naquele território.
Vê-se, pois, como em 1959, para além das valiosas contribuições hidrográficas, era praticamente nula a presença da Marinha em África, sendo pouco significativa aquela que a ameaça de invasão pela União Indiana obrigava a ter nos territórios da Índia. De destacar a quase total ausência de meios navais de pequenas dimensões, destinados à fiscalização e controlo dos numerosos rios de Angola e de Moçambique, assim como dos rios e das extensas águas interiores da Guiné, sem esquecer o verdadeiro mar que constituía o lago Niassa.


Índice
1 - Lanchas e navios
2 - A Marinha antes da Guerra
3 - Programa de reequipamento naval
4 - Lanchas de Fiscalização
5 - Lanchas de Desembarque
6 - Lanchas no Lago Niassa
7 - Lanchas em Angola
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