Programa de reequipamento naval


Programa de reequipamento naval

João Falcão de Campos

Foi, na índia que começou o que se pode considerar como a viragem no que respeita aos meios navais a utilizar na defesa das águas interiores, quando, em 1959, se adquiriram, em Inglaterra, três lanchas de casco de fibra de vidro - a Antares, a Siríus e a Vega. Construídas pelos estaleiros James Taylor a partir de cascos Halmatíc destinados a embarcações de recreio, foram armadas com uma peça de 20 mm e enviadas directamente para a Índia, para substituir velhas lanchas de madeira que tinham sido utilizadas pela Royal Air Force durante a II Guerra Mundial no salvamento de pilotos abatidos sobre as águas da Mancha e cedidas a Portugal em 1946. Na época, tal aquisição constituiu ousadia da Marinha Portuguesa, pois, com o comprimento de 15,7 metros, eram os maiores cascos de plástico a ser utilizados como navios de guerra, ainda antes de outras marinhas muito mais evoluídas aceitarem embarcações salva-vidas de casco de plástico a bordo dos seus navios.
Afundada, em Dezembro de 1961, a Vega, em Diu, pela acção da aviação indiana, e auto-afundada a Siríus, em Goa, conseguiu a Antares, que se encontrava em Damão, alcançar Carachi, no Paquistão, após ousada travessia, sendo em seguida transportada para Portugal. Após reparação dos danos sofridos nessa longa odisseia, acabou por ser enviada para Moçambique, prestando aí serviço até ao seu abate, em 1975.
Estas lanchas constituem o início do enorme programa de construção de vários tipos destes navios, de diversas dimensões, que se prolongará praticamente até depois do 25 de Abril e que será o objecto de outro capítulo, especialmente destinado a esta verdadeira «poeira naval».
Mas o esforço de construção de novas unidades navais não se poderia limitar às pequenas, pois era evidente o estado de decadência e de pouca adequação à nova situação, criada pelo início da Guerra Colonial, da totalidade dos navios de maior porte de que dispunha a Marinha de Guerra.
Assim, embora o esforço financeiro a que obrigou fosse muito elevado, foi contratada, em 1964, a feitura, num estaleiro francês de Nantes, de quatro fragatas idênticas às francesas da classe Commandant Riviére, navios com características de habitabilidade indicadas para actuação em climas tropicais. Vieram, assim, a ser construídas as fragatas Comandante João Belo, Comandante Hermenegildo Capelo, Comandante Roberto Ivens e Comandante Sacadura Cabral, a primeira das quais entrou ao serviço em 1967 e a última em 1969, pelo que a substituição das velhas fragatas de origem inglesa só veio a ficar terminada em 1970. De referir que, ao mesmo tempo, foram encomendados em Nantes, mas noutro estaleiro, quatro submarinos da classe Albacora navios que, à semelhança dos até então existentes, não tinham qualquer possibilidade de participação na Guerra Colonial.
Em situação semelhante vieram a encontrar-se as três fragatas construídas em Portugal a partir de 1960, segundo o projecto das fragatas americanas da classe Dealey, que, terminadas já no final da década, não podiam ser utilizadas fora do âmbito da NATO, independentemente de não terem as características mais indicadas para actuarem nas colónias.
A falta notória de meios navais de algum porte levou ainda à construção, na Alemanha e em Espanha, de nova classe de navios, as seis corvetas da classe João Coutinho, segundo projecto nacional do contra-almirante Rogério de Oliveira, desenvolvido em seguida no estaleiro alemão Blohm & Voss. Muito menos equipados do que as fragatas da classe Comandante João Belo, em particular no que dizia respeito à artilharia principal e ao armamento anti-submarino, desnecessários na maioria das situações previsíveis de encontrar em África, e com guarnições muito mais reduzidas, estes navios constituíam solução muito mais económica para o controlo das águas das colónias portuguesas do que a que era obtida com o recurso às fragatas da classe Comandante João Belo. Os seis navios entraram ao serviço entre 1970 e 1971, já na fase final da Guerra Colonial.
Perante o relativo êxito daquela classe de navios, foi ainda decidida a construção de mais quatro corvetas da classe Baptista de Andrade, igualmente em Espanha, com projecto baseado no das corvetas João Coutinho, mas muito mais armadas e sofisticadas, as quais entraram ao serviço a partir de 1973, pelo que desenvolveram acção muito reduzida na Guerra Colonial, tendo, no entanto, participado nas tarefas da descolonização.
De tudo o que foi anteriormente dito, é possível confirmar a impreparação da Marinha de Guerra Portuguesa para enfrentar uma guerra como aquela que veio a declarar-se nas colónias de África, no que diz respeito a meios navais. E se relativamente à construção de lanchas e de pequenos patrulhas a resposta foi relativamente rápida e, como veremos noutro capítulo, mesmo abundante, por recurso quase exclusivo aos estaleiros nacionais, o mesmo não se pode dizer no que respeita aos navios de maior porte, as fragatas e as corvetas, encomendadas em estaleiros estrangeiros não por incapacidade técnica dos nacionais, mas pela falta de capacidade de elaborar projectos e de os concluir em tempo útil, relativamente a tal número de navios. Contudo, esta situação retardada pela dificuldade em congregar os ingentes recursos financeiros que exigiu, só veio a ter resultados práticos, no que concerne à utilização efectiva dos navios em África, a partir dos últimos anos da década de 60.
Como se disse, a Marinha não estava preparada para as tarefas impostas pelo desencadear da guerra de guerrilha em três frentes de combate, mas, apesar disso, no campo das embarcações de menor porte, genericamente designadas por lanchas, foi possível, num espaço de tempo relativamente curto, projectar e construir em Portugal um assinalável número de embarcações dos mais diversos tipos e dimensões. Podemos agrupar as novas lanchas em dois grandes tipos: de fiscalização e de desembarque, estas últimas intimamente relacionadas com a criação, a partir de 1961, dos primeiros destacamentos e companhias de fuzileiros, até certo ponto a forma prática como a Marinha quis participar mais activamente numa guerra que, pelas suas características, se travava longe dos meios navais de que então dispunha.


Índice
1 - Lanchas e navios
2 - A Marinha antes da Guerra
3 - Programa de reequipamento naval
4 - Lanchas de Fiscalização
5 - Lanchas de Desembarque
6 - Lanchas no Lago Niassa
7 - Lanchas em Angola
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