Lanchas de Fiscalização


As lanchas de fiscalização

João Falcão de Campos

Será oportuno recordar que as primeiras lanchas de fiscalização adquiridas foram três com casco de fibra de vidro, adjudicadas a um estaleiro inglês em 1959, a que já nos referimos noutro capítulo, e depois enviadas para a Índia. Posteriormente, mas ainda antes da invasão de Goa, Damão e Diu, foi encomendada a quarta unidade, a Régulus, construída nos estaleiros da Navalis (firma que se tornou, mais tarde, na Lisnave), em Lisboa, e que ficou pronta em 1962, tendo sido inicialmente enviada para Angola e, mais tarde, para o lago Niassa, em Moçambique.
Logo em seguida à aquisição das lanchas de plástico, a Inspecção das Construções Navais (ICN) decidiu construir nova classe destes navios com características bastante semelhantes, mas desta vez com o casco de aço. Foram, assim, encomendadas a um estaleiro alemão, o Bayerische Schiffbaugesellschaft, oito lanchas da classe Bellatrix, o nome da primeira a entrar ao serviço. Completadas entre 1961 e 1962, foram sendo sucessivamente enviadas para a Guiné, Angola e São Tomé e Príncipe. Já muito mais tarde, em 1968, construíram-se no Arsenal do Alfeite mais cinco lanchas da mesma classe e, com excepção de duas, abatidas em 1971, todas as restantes 11 foram desarmadas em 1974 e 1975.
Igualmente por essa época surgiu outro tipo de lanchas de maiores dimensões e com melhor armamento. A pedido da Capitania do Porto de Dili, começou a ser projectada na ICN a chamada lancha para Timor, com mais de 40 metros de comprimento e mais de 200 toneladas de deslocamento, dimensões consideradas necessárias não só para as condições de mar por vezes existentes naquele território, como igualmente para possibilitar a longa travessia, em condições de segurança.
Com o início da guerra em Angola, em Fevereiro de 1961, e a previsão da sua extensão às outras colónias, em particular à Guiné, o projecto da lancha para Timor evoluiu rapidamente para dar lugar às lanchas da classe Argos, de que foram construídas dez unidades, quatro em 1963, nos Estaleiros Navais do Mondego, e seis outras no Arsenal do Alfeite, entre 1964 e 1965. As primeiras três foram enviadas para a Guiné, mas a sua utilização em cursos de água de pequena largura, associada à circunstância de não disporem de blindagem de protecção dos paióis de munições, tornava-as altamente vulneráveis mesmo à acção de armas ligeiras, pelo que nas restantes lanchas ainda em construção foram introduzidas essas blindagens, ao mesmo tempo que eram alteradas as já em serviço. Numa primeira fase chegaram a estar oito lanchas desta classe na Guiné, indo as restantes duas para Angola. No decurso da guerra colonial, duas delas chegaram a ir a Moçambique, acabando por ser todas abatidas em 1974/75, na sua maioria em Angola, para onde tinham sido enviadas mais algumas após a independência da Guiné. A título de curiosidade, recorde-se que nenhuma delas chegou a Timor.
Vê-se, assim, que a Marinha tinha iniciado o seu esforço de aquisição de pequenos meios navais ainda antes do início das operações de guerrilha em Angola. No entanto, foi o desencadear das hostilidades nessa colónia que levou à aceleração do ritmo. Como se pôde verificar, até ao início de 1961, mesmo a construção de pequenas lanchas teve de ser encomendada no estrangeiro, pois os estaleiros nacionais não tinham a experiência necessária para projectar e concluir rapidamente o número de unidades de que se estava a verificar a urgente falta. Apesar de serem embarcações cuja construção era relativamente fácil, a necessidade de importar a totalidade dos materiais e dos equipamentos, combinada com a grande dependência que existe entre a velocidade máxima alcançada neste tipo de lanchas e eventuais variações do deslocamento final, levou a que os estaleiros portugueses tivessem, mesmo assim, maior dificuldade em iniciar a construçãodas pequenas lanchas de fiscalização do que a  das lanchas de maiores dimensões da classe Argos.
Com o início da guerra em Angola começaram as solicitações dos comandos navais para a obtenção de lanchas para a patrulha de determinados locais considerados prioritários, o que levou à criação, em Agosto de 1961, da Esquadrilha de Lanchas de Fiscalização do Zaire. Ainda antes, em Maio do mesmo ano, e em evidente medida de antecipação, já fora criada idêntica esquadrilha na Guiné. Quando aí começaram as operações militares, em 1963, o número de lanchas de fiscalização ainda era tão pequeno que se recorreu à compra de quatro enviadas algarvias, adaptadas e despachadas de urgência para a Guiné. Adquirida localmente, em segunda mão, já na fase final da guerra, há ainda a assinalar a utilização da lancha Sabre, em Moçambique.

Lanchas de fiscalização pequenas

Classe Número de navios Deslocamento máximo Comprimento máximo Potência Guarnição (toneladas) (metros) (BHP)
Antares 3+1 18 15,7 460 7 
Bellatrix 8+5 27,6/35,7 20,7 470 520 7 
Castor 1 22 17,7 500 7 
Algol 1 24 15,3 490 7
Júpiter 6 43,5 21,0 1270 8
Alvor 3 35,7 20,7 520 7 I
D. Aleixo 2 67,7 25,0 1270 0
Albatroz 6 8,6 21,9 1100 8

Lanchas de fiscaliíação grandes

Classe Número de navios Deslocamento máximo Comprimento máximo Potência Guarnição (toneladas) (metros) (BHP)
Argos 10 210 41,7 2250 24
Cacine 10 310 48,1 4200 33

Em Angola é o rio Chiloango, em Cabinda, onde a patrulha é deficientemente assegurada por uma pequena lancha de boca aberta, a Lué Grande, que desde logo preocupa o Comando Naval. Feita de propósito para a ir substituir na patrulha do rio, a lancha Algol, pequena e com muito pouco calado, além da baixa velocidade alcançada, fora construída pela Argibay. Quando ficou pronta, já não era necessária no Chiloango nem na lagoa de Massabi, e ficou por Luanda, criticada por todos pelas suas fracas características. Em Moçambique, ainda em paz, é o lago Niassa que constitui a primeira prioridade, sabido que do lado do futuro Malawi existiam lanchas de origem inglesa que poderiam constituir futura ameaça. Para ir para o lago, por caminho de ferro e por estrada na parte final do trajecto, é construída a lancha Castor, nos Estaleiros Navais do Mondego (ENM), a qual limitada nas suas dimensões por causa do transporte, também não tem características para alcançar a velocidade requerida. Lá irá para o lago, mas a ela se juntarão, mais tarde, quatro lanchas da classe Júpiter, após verdadeira epopeia de transporte por estrada, provando, no entanto, que ele era possível para navios de maiores dimensões do que as consideradas inicialmente.
Pode até considerar-se que a lancha Castor serviu de treino para os ENM se abalançarem a outras construções, o que foi o caso das seis lanchas da classe Júpiter, destinadas a alcançar 20 nós, velocidade então bastante superior à de todas as outras lanchas deste tipo. Prontas em 1965, irão duas para Angola e as restantes para Moçambique, constituindo, na linha evolutiva das lanchas de fiscalização pequenas, a primeira classe que satisfez plenamente o que delas se esperava.
O Arsenal do Alfeite inicia, em 1965, a construção de lanchas de fiscalização pequenas com as três da classe Alvor, que são, no entanto, num primeiro tempo, destinadas à fiscalização da pesca na costa portuguesa, em particular da algarvia. Com o crescer das necessidades serão, posteriormente, enviadas para a Guiné a Alvor e a Aljezur, tendo a Albufeira terminado os seus dias em Timor, já no final da descolonização. Com quase 15 anos de atraso, esta província obtinha a prometida lancha.
Contudo, é a experiência adquirida com aquelas três embarcações para velocidades mais baixas que permite ao Arsenal do Alfeite construir sem grandes problemas, entre 1966 e 1970, as cinco lanchas suplementares da classe Bellatrix a que acima se fez referência, das quais três irão para a Guiné e duas para Moçambique.
Durante o mesmo período, o Arsenal inicia, em 1967, a construção das lanchas de fiscalização de grandes dimensões da classe Cacine, o que, por vezes, as leva a serem designadas por navios-patrulha, e que constituem a evolução natural das lanchas da classe Argos. Seis unidades foram feitas no referido Arsenal e quatro nos ENM, tendo ficado prontas entre 1969 e 1973. Todas serviram em Cabo Verde e Angola, nos últimos anos da guerra colonial.
Em 1967, foram construídas, nos Estaleiros Navais de São Jacinto, duas lanchas, a D. Aleixo e a D. Jeremias, de dimensões superiores às da classe Júpiter, destinadas a Cabo Verde, mas é com a encomenda iniciada em 1973, no Arsenal do Alfeite, das seis da classe Albatroz que se pode considerar terminado o ciclo evolutivo das pequenas lanchas de fiscalização, o qual começou com as enviadas em 1959 para a Índia e que foram utilizadas na resposta às exigências criadas pelo desencadear da guerra colonial.
Das lanchas construídas sob a égide da ICN, que entretanto passara a designar-se Direcção das Construções Navais, e com excepção da Algol, que só dispunha de duas metralhadoras, todas as lanchas pequenas foram artilhadas com uma peça Oerlikon de 20 mm, colocada avante, enquanto as duas classes das lanchas maiores dispunham de duas peças Bofors, de 40 mm.
Em cerca de 15 anos, a Marinha de Guerra Portuguesa mandou construir 56 lanchas de fiscalização, 36 pequenas e 20 grandes, na sua esmagadora maioria destinadas a ser utilizadas nas colónias, embora algumas delas já não tenham chegado a prestar serviço durante a guerra colonial. Não há dúvida de que a feitura de número tão elevado de unidades constituiu acção notável dos organismos técnicos da Marinha, ocupados igualmente com a encomenda das grandes unidades navais, e que só foi possível com o enorme esforço desenvolvido pelos cinco maiores estaleiros nacionais então existentes, de que é justo realçar a acção inicial dos ENM, a que se juntou, num segundo tempo, a do Arsenal do Alfeite. Quanto aos ENM, é tanto mais de destacar que foi nesse estaleiro que se construiu, igualmente, a maioria das lanchas de desembarque.


Índice
1 - Lanchas e navios
2 - A Marinha antes da Guerra
3 - Programa de reequipamento naval
4 - Lanchas de Fiscalização
5 - Lanchas de Desembarque
6 - Lanchas no Lago Niassa
7 - Lanchas em Angola
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