Raros êxitos


Raros êxitos

A conhecida afirmação de que as novas guerras começam onde as últimas terminam também se confirmou na Guerra Colonial. De facto, as forças portuguesas iniciaram a luta com uma grande operação convencional em cada um dos teatros de operações, a Viriato, em Angola, a Tridente, na Guiné e a Águia, em Moçambique, as quais, de tipo clássico embora em ambiente de guerrilha, foram efectuadas por iniciativa própria e destinaram-se a reocupar terreno e a restabelecer a autoridade.
Atingidos estes objectivos, seguiram-se acções de contraguerrilha de maior ou menor envergadura, e só ocasionalmente se realizaram outras grandes operações, como a Quissonde e a Siroco, em Angola, que eram ainda do tipo de demonstração de força, com o fim principal de causar instabilidade na organização da guerrilha em determinada área. As vantagens e os inconvenientes destas operações, que implicavam o emprego e a concentração de elevados efectivos e meios contra objectivos dispersos que não os justificavam, foram sempre discutidas nos altos comandos portugueses e a questão que se colocou, sem nunca obter resposta unânime, foi a de saber se os seus custos compensavam os resultados obtidos.
O desenvolvimento da guerra, com a melhoria da organização militar dos movimentos de libertação, nomeadamente do PAIGC e da Frelimo, que dispunham de unidades cada vez mais eficazes e mais bem armadas, tornou essa discussão inútil, pois as forças portuguesas foram obrigadas a reunir efectivos e meios consideráveis para se lhes oporem. Se em Angola se mantinha ainda, no final da guerra, a iniciativa estratégica dos comandos militares portugueses, e a decisão de lançar grandes operações ainda lhes pertencia, embora condicionada pela manobra do MPLA no Leste, em Moçambique essa iniciativa esgotou-se com a Operação Nó Górdio, a partir da qual a Frelimo passou a conduzir a manobra sobre o terreno, obrigando as forças portuguesas a correr atrás dela. Grandes operações como a Fronteira e a defesa de Cahora Bassa fazem já parte deste cenário.
Na Guiné, pode considerar-se que a última grande operação de iniciativa portuguesa foi a Mar Verde, irregular e destinada a alterar a situação política na Guiné-Conacri e a decapitar o PAIGC. Após esta acção de elevadíssimos riscos políticos, o PAIGC assume a iniciativa, enquanto as grandes operações que as forças portuguesas passam a realizar se destinam a reagir à manobra do seu adversário. A Ametista Real, realizada no Senegal sobre a base de Cumbamory, o reforço de Gadamael após a queda de Guilege, a reocupação do Cantanhez, nas zonas de Cadique e de Jembembe, e, por último, a defesa de Canquelifá, já em Fevereiro de 1974, são apenas respostas e não iniciativas próprias.
Por seu lado, os movimentos de libertação foram realizando operações cada vez de maior envergadura e mais complexas. O MPLA, com as acções na Rota Agostinho Neto, embora não obtivesse sucessos operacionais significativos, demonstrou apreciável capacidade de comando e controlo, obrigando as forças portuguesas a empenhamento constante de elevados efectivos no Leste. O PAIGC, que revelou desde o início da guerra grande poder organizativo e de combate, alterou a situação radicalmente a seu favor a partir do abate dos primeiros aviões portugueses com o míssil Strella. Essa situação culminou com a Operação Amílcar Cabral e a ocupação de Guilege, em Maio de 1973, mas já antes o movimento realizara grande operação para introduzir no território uma missão da ONU e outra para a declaração unilateral de independência, ambas na região do Boé. A Frelimo realizou uma vasta acção de envolvimento e de transferência de esforço logo após a Operação Nó Górdio, com a abertura da frente de Tete e a pressão permanente sobre Cahora Bassa. Antes, já as suas forças haviam realizado fortes ataques a Mueda e a Nancatári, em Cabo Delgado, e ao Unango, no Niassa.


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