Implicações militares


Implicações militares

Todos os factores envolventes representavam óbvio e enorme risco: a sua implantação em território de guerra, à curta distância de duzentos quilómetros da permeável fronteira com a Zâmbia, os seiscentos quilómetros que a separavam do porto de desembarque dos materiais, a Beira, e os oitocentos quilómetros da linha de transporte da energia em território moçambicano, com seis mil postes de suporte.
Acresce que a energia produzida pela barragem não poderia ser gasta em Moçambique, por falta de capacidade industrial instalada, e não era indispensável ao seu principal destino, a África do Sul, pois este país possuía fontes alternativas. Em resumo, Cahora Bassa era desnecessária enquanto produtora de energia, era de duvidosa viabilidade como empreendimento económico e a sua construção e exploração apresentava elevados riscos.

As duas partes do conflito entenderam a construção da barragem como desafio que decidiria a sorte da guerra, pois, para o regime português, ela representava a afirmação da sua vitalidade e, mais do que isso, a transmissão para o exterior da certeza de poder vencer aquela guerra. Politicamente, daria a imagem de Portugal forte, capaz de motivar apoios internacionais e atrair investimentos económicos, que se traduziriam em compromissos políticos. Para a Frelimo, a construção da barragem e a sua normal exploração acarretariam a imagem de fraqueza e de incapacidade de controlar o terreno e as populações. Pior do que isso, o seu êxito poderia ser acompanhado pela instalação de cerca de um milhão de colonos brancos no vale do Zambeze, o que alteraria decisivamente o meio humano da zona em que o movimento actuava.
Significativamente, na primeira entrevista que deu como presidente da Frelimo, Samora Machel, ainda em 1970, e antes de Kaúlza de Arriaga desencadear a Operação Nó Górdio, afirmou que o impedimento da construção da barragem continuava a ser o principal objectivo da Frelimo.
Cahora Bassa foi, assim, transformada no objectivo decisivo que materializava a vitória do atacante ou do defensor.
Mas, antes de avançar para a construção da barragem, era indispensável ao Governo obter a garantia, por parte dos militares, da segurança do empreendimento e da respectiva linha de transporte de energia.
A análise da situação, que levou o ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, em 1968, a responder afirmativamente a esta pergunta, assentou em dois pontos:

- Quanto ao inimigo, numa avaliação razoável do potencial militar da Frelimo, dos seus objectivos e áreas de actuação, parecia improvável que, em três anos, os guerrilheiros tivessem possibilidade de percorrer oitocentos quilómetros, vindo das suas bases da Tanzânia, para se instalar e disseminar pela zona de Tete, nas duas margens do Zambeze, de forma a obrigar a afectar, em 1971, quase metade dos efectivos portugueses de Moçambique à segurança da barragem.
Admitia-se, no estudo inicial, que entre o rio Zambeze e a fronteira com a Zâmbia se instalassem alguns pequenos grupos de guerrilha, o que tornaria aquela zona operacionalmente idêntica à do Niassa. O estado-maior português estava seguro de que na margem sul do rio, cuja fronteira era controlada pela Rodésia, seria impossível desenvolverem-se acções significativas por parte da Frelimo. Para garantir este cenário bastava reforçar a zona a norte do Zambeze, o que foi feito com a colocação de batalhões em Furancungo e no Bene, que tinham por missão impedir as infiltrações a partir da Zâmbia pelo vale do rio Capoche. Relativamente à segurança dos oitocentos quilómetros de linha de transporte de energia, eles corriam ao longo da fronteira com a Rodésia e a África do Sul, pelo que também não existiriam problemas sérios neste campo.

- Quanto ao meio, o optimismo português de 1968 era reforçado pela convicção de serem as populações locais pouco permeáveis à propaganda da Frelimo e, menos ainda, disponíveis para se organizarem e combaterem em virtude de serem constituídas por camponeses com pouca consciência política, estarem dispersas e possuírem alguma tradição de emigração para a África do Sul.

Este cenário alterou-se radicalmente em três anos. Em 1971, foi necessário as forças portuguesas instalarem, primeiro na Chicoa e depois em Estima, na base das montanhas de Cahora Bassa, o COFI, comando para as grandes operações.
A razão para a alteração dos pressupostos em que assentara a análise anterior foi, antes de mais, a aguda consciência da importância da construção da barragem por parte da Frelimo. Os dirigentes nacionalistas aperceberam-se rapidamente do perigo que ela representava e começaram desde logo a preparar a resposta. Dirigiram para esta zona o seu esforço de penetração política, num processo em que procuraram não dar nas vistas, mas que provocou alguns confrontos com as autoridades tradicionais, desenvolveram uma rede de contactos que lhes assegurou facilidades de trânsito e instalação na Zâmbia, reposicionaram armas e equipamentos e reconheceram objectivos e locais de refúgio. Isto é, procuraram assegurar bases sólidas para uma resposta que sabiam não ser fácil.
As acções preparatórias da Frelimo em Tete sofreram significativa evolução em 1970. A chegada do general Kaúlza de Arriaga e as grandes operações que desencadeou no Norte obrigaram o movimento a retirar do Planalto dos Macondes parte dos seus efectivos, que ficaram disponíveis para ser empregues noutras zonas. Tete passou a ser o seu destino. Por outro lado, a grande concentração de forças portuguesas no Norte aliviou ainda mais a pressão militar naquela zona, o que foi aproveitado pela Frelimo para passar o maior número possível de efectivos e equipamentos para sul do Zambeze. No início de 1971, trezentos guerrilheiros entraram em Moçambique com o objectivo de alcançar o Zumbo, junto à fronteira com a Rodésia, para daí progredirem em direcção ao Zobué, na fronteira com o Malawi, e envolver a Angónia pelo sul.
Estavam assim reunidas as condições para, logo que terminou a Operação Nó Górdio, a Frelimo desencadear acções na zona de Tete, o que obrigou à transferência de forças portuguesas que se encontravam no Norte. Na realidade, as grandes operações de Kaúlza de Arriaga no Planalto dos Macondes vão acelerar a decisão da Frelimo de incrementar a luta em Tete.
No início de 1971, os dados já estavam lançados. O tabuleiro principal em que se jogava a guerra em Moçambique era Tete e Cahora Bassa, com o respectivo cordão umbilical, o corredor da Beira, numa altura em que as tropas portuguesas ainda continuavam profundamente empenhadas na Operação Fronteira, junto ao Rovuma.

A partir de 1971, a barragem de Cahora Bassa passa a exigir a mobilização de cada vez maior volume de meios para a defender. O dispositivo militar montado pretende alcançar três objectivos:

- Defender Cahora Bassa através do Comando Operacional da Defesa de Cahora Bassa (CODCB);
- Garantir o transporte de materiais através do Comando das Cargas Críticas;
- Impedir o alastramento da Frelimo para sul do rio Zambeze, e proteger a futura linha de transporte de energia, através do COFI e de uma quadrícula de malha cada vez mais apertada.

O dispositivo foi continuamente reforçado com unidades regulares, de intervenção, GE e GEP, e a área sofreu sucessivas remodelações, que culminaram com a criação da Zona Operacional de Tete (ZOT), em Maio de 1971. Em 1973, foi estabelecido um comando avançado do Comando Territorial do Centro, em Vila Gouveia, com a missão explícita de tentar barrar a progressão da Frelimo mais para sul, uma ameaça que já se desenhava.

Até 1974, a situação em Tete não deixará de se agravar, com o avanço das acções da Frelimo para zonas cada vez mais próximas da Beira, mas era tão arreigada a consciência dos militares portugueses de que o seu objectivo decisivo consistia em garantir a conclusão da barragem, com a qual se haviam comprometido, que sempre entenderam estar a cumpri-lo ao evitarem perturbações significativas nos trabalhos, apesar de o seu inimigo já os ter obrigado a concentrar à volta dela mais de 50 por cento dos efectivos totais existentes em Moçambique, de os ter envolvido em guerra de desgaste em que, com frequência cada vez maior, se viam confrontados com situações delicadas contra populações negras, autoridades religiosas e em que se desacreditavam perante os colonos brancos. A Frelimo, com uma guerra económica em baixas, ia expandindo a sua acção ao redor de Cahora Bassa e ameaçava já controlar o istmo da Beira, que separaria o Norte do Sul de Moçambique, ao realizar acções em Vila Pery, Vila Gouveia e Inhaminga.
Cahora Bassa, que fora apresentada como símbolo de vitória, estava afinal a trazer a guerra ao coração de Moçambique e a acelerar o seu desfecho.


Índice
1 - A guerra no coração de Moçambique
2 - Implicações militares
3 - Evolução do dispositivo da Frelimo em Tete