O conceito e a execução


Operação Mar Verde - O conceito e a execução

A reunião dos efectivos e a sua instrução foi feita numa base isolada na ilha de Soga, uma das muitas que bordejam o território continental da Guiné, e a força era constituída por efectivos de origem diversa, em que se incluíam militares portugueses dos comandos e dos fuzileiros africanos, enquadrados por graduados, oficiais e sargentos europeus, dos comandos, fuzileiros e pára-quedistas, num total de cerca de duzentos e cinquenta homens, e por cerca de cento e cinquenta elementos da oposição a Sekou Touré.
Estes últimos vieram do Senegal, da Gâmbia e da Costa do Marfim através de contactos estabelecidos com dirigentes do FNLG (Front Nacional de Libération) instalados em Paris e em Genebra. Neste conjunto incluía-se ainda um jornalista da revista «Jeune Afrique», Siriadiou Djaló e um operacional aventureiro que servira o exército colonial francês, o comandante Assad.
Para transportar e proteger esta força foram-lhe atribuídos, pelo Comando-Chefe da Guiné, meios navais constituídos por quatro lanchas de fiscalização grandes, as LFG Orion, Cassiopeia, Dragão e Hidra, e duas lanchas de desembarque grandes, as LDG Bombarda e Montante, além de botes de borracha ligeiros.
Os efectivos foram divididos em grupos para actuar nos 52 objectivos marcados num mapa da cidade de Conacri, tendo a força iniciado o seu movimento, a partir da ilha de Soga, às 20 horas, de 20 de Novembro de 1970, armada com espingardas AK-47, lança-granadas RPG-2 e RPG-7 e morteiros de 82 mm. Todo o pessoal envergava uniformes verdes, idênticos aos das Forças Armadas da Guiné-Conacri, facto que levou dois oficiais, o comandante dos comandos e o comandante de um dos navios, a colocar problemas éticos à sua participação, o que não evitou que a operação se iniciasse.
Os objectivos principais eram o palácio presidencial, o Ministério do Interior, a Direcção da Gendarmaria, a emissora Boulbinet, o istmo entre Conacri I e II, o aeroporto, a residência de Amílcar Cabral, a prisão onde estavam os prisioneiros portugueses, a central eléctrica, o Estado-Maior da Defesa Nacional, a Guarda Republicana e, ainda, as lanchas rápidas do PAIGC e da República da Guiné. Previa-se que, no caso de êxito, os dirigentes do FNLG fizessem uma proclamação ao país e assumissem o seu Governo. Levavam, aliás, já elaborado, o programa que fora escrito na ilha de Soga.
Às 18 horas do dia 21 de Novembro, a força estava próximo de Conacri, tendo o desembarque dos primeiros elementos sido estabelecido para a 1 e 30h, do dia 22 de Novembro.
As lanchas rápidas foram o primeiro objectivo a ser destruído, evitando assim que se opusessem ao desembarque ou que participassem numa eventual perseguição durante a retirada da força. O grupo que tinha a missão de libertar os prisioneiros também conseguiu obter êxito, trazendo consigo os 26 elementos que se encontravam na prisão La Montaigne. Todos os outros objectivos fracassaram: o palácio de Sekou Touré, de Villa Silly, foi assaltado, mas o presidente não se encontrava lá; as instalações do PAIGC foram destruídas, mas Amílcar Cabral fora para o estrangeiro; o aeroporto foi tomado, mas os aviões Mig, cuja destruição era o objectivo principal do grupo, não estavam naquela base; a central eléctrica foi desactivada, mas a escuridão que se abateu sobre a cidade ainda dificultou mais a já difícil orientação da força invasora nas ruas da cidade; e a emissora-rádio não foi tomada, um fracasso explicado pelo facto de o comandante do grupo que tinha essa missão nunca ter accionado um elevador, não conseguindo, por isso, fazer chegar aos equipamentos o engenheiro electrónico do FNLG que o acompanhava.
Às 4 e 30 da manhã do dia 22 de Novembro, o comandante da operação mandou reembarcar as forças. Todos os grupos compareceram com maior ou menor dificuldade nos locais de recolha, excepto um grupo de vinte homens, comandado pelo tenente Januário, dos comandos africanos. Estes foram dados posteriormente como desertores, embora essa deserção voluntária e previamente decidida tenha merecido reservas a muitos dos que participaram na acção, constituindo mais um ponto obscuro da operação. De certo, sabe-se apenas que o tenente Januário e os seus homens foram mandados fuzilar por Sekou Touré, dias depois do assalto.

Nesta operação, as forças portuguesas sofreram três mortos, entre eles um oficial europeu, três feridos graves e seis ligeiros e fizeram cerca de quinhentos mortos entre militares e civis da Guiné-Conacri. Na sua sequência, Portugal viu-se envolvido em delicados problemas internacionais e em várias questões internas.
O rasto deixado pelas forças invasores não ofereceu dúvidas a Sekou Touré sobre a sua origem, o que o levou a apresentar uma queixa contra Portugal nas Nações Unidas. As implicações que esta singular operação teve, e que poderia ter tido, merecem uma primeira análise centrada em dois pontos: a decisão de a lançar e o seu planeamento.
A fazer fé nas informações contidas no livro «De Conacri ao MDLP», que não mereceram reacção das entidades nele referidas, a proposta de lançar a operação foi da iniciativa do seu autor, um oficial da marinha de média patente, capitão-tenente, que cumpria a segunda comissão na Guiné, nos fuzileiros especiais. Este oficial, apoiado pelo chefe da delegação local da DGS, deslocou-se, no Verão de 1970, de Bissau a Portugal para apresentar ao comandante-chefe, que se encontrava de férias, a proposta de execução do golpe de Estado. Nesse Verão, a situação militar na Guiné decorria com a intensidade habitual, não se prevendo o seu agravamento.
O PAIGC mantinha junto à fronteira as suas bases de apoio às infiltrações no território, em Kandiafara, Kambera e Foulemory, utilizava três eixos conhecidos dos serviços de informações militares portugueses, entre os quais o célebre «Corredor de Guileje», mas a sua actividade era considerada normal. O comandante-chefe aceitou a proposta de intervir na capital do país vizinho, Conacri, e o oficial proponente passou ele próprio a desenvolver, pessoalmente e durante os três meses seguintes, quase todos os contactos preparatórios da operação: viajou para Paris e Genebra para encontros com dirigentes do FNLG; deslocou-se a Joanesburgo para contactos com a Boss, os serviços secretos sul-africanos, trazendo na bagagem que o acompanhou no avião trinta quilos de minas-lapa, que seriam utilizadas na destruição das lanchas; promoveu negociações com a firma Norte Importadora para a compra de armamento aos países de Leste, que viria a ser adquirido na Bulgária; e por fim, foi ainda este oficial quem, credenciado por Spínola, apresentou ao presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, a ideia de manobra e o convenceu da utilidade da operação. Mesmo considerando a personalidade do general Spínola e a confiança que ele depositava nos operacionais para o planeamento das operações, em detrimento do Estado-Maior, é invulgar esta concentração, num só homem, das tarefas de trabalho subterrâneo de aliciamento político e de recolha de informações estratégicas, de criação das condições logísticas, incluindo o comércio internacional de armas e da execução no terreno.
Mas, além do segredo, outro aspecto fundamental de uma operação irregular é a existência de boas informações e também neste campo existiram graves deficiências assumidas pelo inspector Matos Rodrigues, da DGS, que apoiou a acção. Os mapas para a operação foram obtidos a partir de folhetos turísticos desactualizados, o porto de Conacri observado através de uma acção de reconhecimento efectuada à distância por um navio português, numa operação também ela dirigida pelo comandante Calvão. Em Conacri não existia qualquer informador da DGS que actualizasse elementos e permitisse cruzar informações. Apesar destas graves deficiências e de não haver uma situação militar tão crítica no terreno que justificasse correr os riscos dela decorrentes, a operação foi desencadeada.
Por estas ou outras razões, as forças invasoras não encontraram o presidente Sekou Touré no local que previam, Amílcar Cabral estava no estrangeiro, os aviões Mig noutra base e a emissora não foi tomada, impedindo os oposicionistas de ler a sua proclamação.

Estes factos permitem admitir que, além do êxito que constituiu a libertação dos prisioneiros portugueses e a retirada sem comprometimento das forças da Mar Verde, os fracassos nos outros objectivos foram, contudo, os que melhor serviram os interesses das autoridades portuguesas. Os fracassos, ao limitarem os resultados a uma operação de resgate de prisioneiros, evitaram as imprevisíveis consequências no plano externo que adviriam para Portugal da responsabilidade por uma invasão do território de uma nação soberana e pela morte de um chefe de Estado no seu próprio país. Evitaram ainda o problema de ficar com Amílcar Cabral, um dos mais prestigiados líderes de movimentos de libertação africanos, prisioneiro em Bissau ou em Lisboa.
Hoje persistem as interrogações sobre o futuro do general Spínola e sobre o destino do próprio Marcelo Caetano, caso os objectivos da operação tivessem sido alcançados. O primeiro seria inevitavelmente apresentado como o principal responsável por uma aventura deste tipo, que lhe retiraria credibilidade como dirigente político em qualquer solução alternativa para o regime português. O segundo não deixaria de ter de suportar os custos políticos, internos e externos, em especial quanto à credibilidade da sua anunciada política de abertura, que ainda mantinha alguns apoios.
As razões que levaram estes dois homens a patrocinar uma operação que envolvia tais riscos continuam, hoje, difíceis de entender.


Índice
1 - Operação Mar Verde - Um mar de mistérios
2 - O conceito e a execução