Execução da Operação.


Execução da Operação

Para cumprimento deste plano foram constituídos sete agrupamentos: dois para o cerco (Norte e Sul) e quatro de intervenção, um para cada objectivo e um para reserva.

- 1 Julho - Início. Os agrupamentos de cerco começaram a sua instalação. Os agrupamentos de assalto A e B principiaram o movimento para os objectivos.
- 3 Julho - O agrupamento de assalto B (pára-quedistas) iniciou a progressão de Nangololo para o objectivo B - base Moçambique - , com o apoio da engenharia na abertura da picada desde Capoca até Gole.
- 4 Julho - O agrupamento de assalto A (comandos) chegou à base de ataque, a dois quilómetros do objectivo - base Gungunhana.
- 5 Julho - Realizou-se a primeira tentativa de assalto à base Gungunhana, que não se encontrava na localização prevista .
- 6 Julho - Foi localizada e assaltada a base Gungunhana, que fora abandonada recentemente. Estava localizada na encosta de uma pequena colina, no interior de mata densa, ocupava a área de 100x500 metros, dispunha de mais de cem palhotas, era circundada por uma vala e tinha abrigos contra morteiros e ataques aéreos.

Foi assaltada a base Moçambique pelas forças pára-quedistas. Era constituída por cerca de duzentas palhotas e encontrava-se abandonada havia cerca de dois meses.

- 12 Julho - O agrupamento de assalto C (fuzileiros) iniciou o deslocamento de Mueda para o objectivo C - base Nampula.
- 15 Julho - Foi atingido o objectivo C. A base Nampula era constituída por cerca de cinquenta palhotas e encontrava-se abandonada há dois meses.
- 16 Julho a 6 Agosto - Realizaram-se acções de permanência.

Após os ataques aos objectivos A, B e C, foram organizadas bases temporárias nas suas proximidades e atribuídas áreas de responsabilidade aos agrupamentos de ataque, com a finalidade de eliminar da zona as unidades de guerrilha ainda activas.
As forças de cerco mantiveram-se em posição até 2 de Agosto, realizando emboscadas e implantando armadilhas, para completar e melhorar a manobra.
Em coordenação com as acções militares foram realizadas operações psicológicas com a finalidade de separar as populações dos guerrilheiros, desmoralizar os combatentes e fomentar as apresentações, considerando-se que a Frelimo controlava cerca de sessenta mil pessoas na zona do planalto.
Para este efeito, foi instalada em Mueda uma secção de acção psicológica, constituídas equipas de recepção de refugiados em Sagal, Diaca, Miteda e Muidumbe e equipas de acção psicossocial em Mueda e no Sagal. Também as autoridades administrativas receberam instruções para armazenar reservas de víveres, a fim de fazerem face às necessidades imediatas de apresentados e capturados.
Contudo, «não obstante a acção psicológica realizada pelas forças nacionais, as populações não se apresentaram. De forma geral, afastaram-se para fora do alcance das forças militares e construíram novas palhotas, ou então regressaram para a proximidade das antigas, logo que lhes foi possível» (extracto do relatório de operação).
Apreciação final da situação pelo comando português:

«Em relação ao inimigo, ele foi:
- Desarticulado, em consequência da destruição das suas organizações;
- Atemorizado, pelo potencial e espírito ofensivo das NT, em que não acreditava;
- Desmoralizado, pelas carências de toda a ordem;
- Desprestigiado perante as populações.

As populações, cansadas de luta tão prolongada, apresentavam acentuado desequilíbrio psicológico. Chegou a "sentir-se" claramente que a população vacilava entre continuar a resistência ou entregar-se.
As forças nacionais, em resultado da consumação, com êxito, de uma operação duríssima e da sua superioridade sobre o inimigo, mostravam-se confiantes em si próprias e nos seus chefes e compreendiam a necessidade de continuar a luta até à vitória final.
Com a destruição do "mito" do núcleo central, toda a iniciativa no distrito de Cabo Delgado passou, sem qualquer dúvida, para as forças nacionais» (extracto do relatório da operação).
A Frelimo, apesar da Operação Nó Górdio, não foi impedida de actuar em qualquer dos teatros de operações. A sua actividade no terceiro trimestre de 1970 provocou as seguintes baixas e destruições às forças portuguesas, nas zonas não abrangidas pela operação: 

                             Mortos       Feridos graves       Viaturas destruídas 
 
Niassa                    17                       77                                14
Cabo Delgado       25                       70                                33
Tete                            9                       45                                13

Total                          51                     192                               60

RESULTADOS

Frelimo
Guerrilheiros mortos (em acção directa de combate) 67
Capturados (homens) 31 (mulheres) 42 (crianças) 28

Forças portuguesas
Mortos (militares) 22 *(15) 
             (civis) 4
Feridos graves 27 *(27)
Feridos ligeiros 55 *(31)
Viaturas destruídas e danificadas 15
Minas detectadas 155

*( ) Devido a minas

De facto, só em Cabo Delgado, onde se desenrolou a Operação Nó Górdio, as forças da Frelimo realizaram, durante o período em que ela durou (Julho) e depois de anunciada a vitória portuguesa (Agosto e Setembro), as seguintes acções fora da zona de operações:

- 12 de Julho - Ataque a Miteda com um grupo de cerca de cem guerrilheiros, que só se retiraram após as forças portuguesas terem utilizado helicópteros armados e canhão sem recuo;
- 15 Julho - Colocação de 73 minas na estrada Montepuez-Nancatari-Mueda;
- 15 e 16 Julho - Colocação de engenhos explosivos perto de Omar (a norte do núcleo central); 
- 21 de Julho - Emboscada na estrada Muaguide-Meluco, a sul do rio Messalo, na região de Macomia;
- 28 e 29 de Julho e 17, 27 e 29 de Agosto - Ataques ao aquartelamento de Omar, sempre com forte potencial de fogo (canhões sem recuo e metralhadoras pesadas) e muito próximo do aquartelamento.

Estas acções da Frelimo, fora da área em que se desenrolou a Operação Nó Górdio, demonstram que o movimento manteve operacionais as suas estruturas em todos os sectores. No Niassa, durante este período, realizou 142 acções, mais 23 do que no trimestre anterior e mais 34 do que em igual período do ano de 1969. Em Tete, efectuou neste trimestre 239 acções, mais 100 do que nos três meses anteriores e mais 141 do que em igual período do ano de 1969.
Em resumo, na zona de Cabo Delgado a Operação Nó Górdio não fez diminuir as acções militares da Frelimo nas áreas exteriores ao núcleo central, onde as forças portuguesas concentraram o seu esforço. Nas frentes do Niassa e de Tete, o movimento aumentou significativamente o número das suas acções.
Em 3 de Agosto, ainda antes do final oficial da Operação Nó Górdio, em ofício enviado pelo Comando-Chefe de Moçambique ao Secretariado-Geral da Defesa Nacional (SGDN), Kaúlza de Arriaga transmitia a opinião de que «vencida e ultrapassada esta fase da guerra em Moçambique, outra poderá ter lugar na qual o inimigo disporá de meios mais evoluídos, como carros de combate, foguetões terra-terra e aviões de combate».
Em Dezembro de 1970, também em ofício para o SGDN, o comandante-chefe de Moçambique afirmava: «Não é possível garantir o sucesso em Moçambique com efectivos actuando em terra inferiores a 105 companhias de caçadores, nove companhias de comandos e quatro companhias de pára-quedistas.»
Em Outubro de 1970, dois meses após o final da operação, o Comando-Chefe de Moçambique considerava como possibilidade mais perigosa que a Frelimo afectasse gravemente o distrito de Tete pelo incremento das acções de guerrilha e pelo seu alastramento à Angónia e a Tete, o que, de facto, veio a verificar-se.
Na sequência da Operação Nó Górdio, as forças portuguesas planearam a Operação Fronteira,canalizando o seu esforço para Norte, enquanto a Frelimo reorientava a sua prioridade para Tete e para o Sul, mantendo contudo pressão suficiente no Norte, para não permitir que as forças portuguesas deslocassem efectivos.
Em contraguerrilha, as operações de grande envergadura ficam, de modo geral, aquém dos resultados esperados, mas a verdade é que surgem sempre comandantes tentados a lançá-Ias.
A Frelimo seguiu as máximas de Sun Tsu, de retirar quando o inimigo ataca e de o atacar quando ele se movimenta. Não admira, por isso, que se verificasse reacção violenta dos guerrilheiros à movimentação das forças portuguesas, em especial na abertura das picadas tácticas, quando estas se encontravam mais vulneráveis; que não defendessem as suas bases, porque o terreno não é importante na guerra de guerrilha; e que o cerco das forças portuguesas não produzisse os resultados desejáveis, pois era muito extenso, os guerrilheiros e as populações conheciam o terreno e a localização das emboscadas, os efectivos disponíveis eram escassos em relação às missões e constituídos ou por unidades recém-chegadas ou que já tinham terminado as suas comissões.
Mesmo o objectivo de conquistar as populações ficou longe de ser alcançado, pois a área era demasiado extensa para as possibilidades de exploração das forças de assalto aos objectivos, o que deu às populações a possibilidade de aguardar o resultado dos acontecimentos em relativa segurança, fora do alcance das forças de cerco. Não admira, por isso, que não se tivesse verificado o êxodo das populações com as consequentes capturas. Acresce que as intensas campanhas de acção psicológica, utilizando meios aéreos de difusão de mensagens, também não motivaram apresentações.


Índice
1 - Operação Nó Górdio
2 - Execução da Operação.
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