A construção


A construção

A construção dos quartéis não obedecia, regra geral, a um projecto. Na instrução ministrada na metrópole às tropas, e, em particular, aos graduados, eram fornecidas noções teóricas da construção de alguns equipamentos indispensáveis, como o forno do pão, depósitos de água e latrinas, ficando o resto um pouco ao sabor da arte e do engenho dos militares. Um quartel de companhia tinha, por norma, as seguintes instalações:

- Comando, com gabinete para o capitão, que servia muitas vezes de sala de operações, com os mapas da zona de acção pendurados na parede, e outro para a secretaria, onde trabalhava o primeiro-sargento, responsável pela parte administrativa, com os seus amanuenses;
- Instalações para os oficiais e sargentos;
- Casernas, em número variável, ou uma por pelotão, ou apenas uma caserna comum, podendo, em zonas de maior pressão das acções de guerrilha, os militares dormirem junto aos postos que lhes cabia defender e até em abrigos;
- Cozinha e refeitório;
- Posto de socorros;
- Instalações sanitárias, muitas vezes improvisadas e precárias, que eram melhoradas na medida das possibilidades;
- Posto de rádio, centro de comunicações onde se encontravam os equipamentos de transmissões e, quando a unidade dele dispunha, de centro cripto de mensagens;
- Oficinas para as viaturas;
- Depósitos de géneros alimentares e de combustíveis;
- Parada e mastro para a bandeira nacional.

A construção, quer se tratasse de obra de raiz ou de melhoramentos em instalações existentes, ia sendo feita à medida das disponibilidades de tempo e de material, aproveitando o trabalho de militares com prática anterior das artes da construção civil.
Os materiais utilizados foram também os mais variados, desde adobes e capim a estruturas pré-fabricadas. Neste aspecto, uma das inovações mais interessantes foi a construção dos quartéis que vieram a ser designados por «JC», as iniciais do oficial de engenharia que desenvolveu este tipo de instalações em Angola.
Os quartéis «JC», que se espalharam pelos três teatros de operações, consistiam em edifícios normalizados com três variantes: madeira, alvenaria e mistos, estes últimos com a parte inferior em alvenaria e a superior em madeira. A sua construção revelava-se bastante fácil, pois as peças de madeira traziam identificação conforme a parte do edifício a que se destinavam, e o conjunto incluía os restantes materiais necessário - pregos, latas de tinta, redes mosquiteiras, chapas de zinco para a cobertura, portas, janelas, dobradiças, etc. - na quantidade exacta.
As peças de madeira eram preservadas com óleo queimado das viaturas e, por fim, pintavam-se os edifícios na maior parte dos casos de branco e verde. Estas eram as melhores instalações a que uma unidade podia aspirar, mas na maioria dos casos revelavam-se muito mais precárias, chegando a casos limite de quartéis quase totalmente enterrados, onde as casernas eram abrigos.
O quartel-tipo de uma companhia dispunha ainda de outras instalações acessórias: uma pista de aviação, rede de arame farpado ao redor, postos de sentinela, abrigos, trincheiras e espaldões para as armas pesadas - metralhadoras, morteiros e peças de artilharia, quando estavam ali posicionadas.
Se o quartel se situava junto a uma povoação, existia sempre movimento de pessoas entre ambos, pois os habitantes prestavam alguns serviços aos militares, como lavagem de roupa e limpeza, auxiliares nas cozinhas e até apoio nas actividades operacionais, como guias e pisteiros.
Nos três teatros de operações foi ainda vulgar a organização das populações em autodefesa, sendo essa tarefa atribuída a grupos de milícias, que, com o desenvolvimento da guerra, evoluíram para verdadeiras unidades de combate, integrando-se no processo de africanização da guerra.


Índice
1 - Os quarteis
2 - A construção
3 - A vida no quartel