Orgulho, culpa e nostalgia


Orgulho, culpa e nostalgia

Rui de Azevedo Teixeira

Ao longo dos séculos, Portugal envolveu-se, por «honra, medo ou interesse» - as justificações para a guerra, segundo Tucídides -, em dezenas de batalhas e milhares de choques armados na Europa, em África, no Oriente e na América. Os reflexos literários dessa actividade guerreira portuguesa não abundam e só muito poucos, elevando-se à melhor literatura, atingem actualidade perene: as estrofes belicosas de Diogo Velho, no «Cancioneiro Geral», «Os Lusíadas», o brônzeo «Eurico, o Presbítero», «A Ilustre Casa de Ramires», de um Eça fisicamente fraco mas sempre atraído pela força, o texto sobre Paiva Couceiro em «Guitarra», de Tomaz de Figueiredo, e pouco mais. Com a Guerra Colonial, o défice literário português em relação à guerra, verberado já por Zurara ou Garcia de Resende, diminui significativamente. Com efeito, a literatura gerada pela paciente e áspera guerra de atrito nos trópicos, com cerca de sessenta romances em que é tema, à volta de duzentos em que é subtema ou forte referência e manifestações em todas as outras disciplinas literárias, forma, na nossa literatura, a única corrente de fundo centrada sobre a guerra. Este macrotexto desdobra-se em duas partes nítidas, consolidadas, e numa terceira que entretanto se desenha, pelo que traduz à letra o movimento dialéctico do processo histórico, com uma tese imperiófila, uma antítese imperiófoba e uma incoativa síntese nostálgica.

O grosso das páginas que cobriram a Guerra Colonial, não contando ainda com as da síntese que desponta, constitui um díptico contrastivo e inequifacial: os poucos textos da ditadura, fora alguns desalinhados pela esquerda (Fernando Assis Pacheco, Manuel Alegre ou Álvaro Guerra), apoiam o império, e os muitos textos da democracia, tirando os de passadistas de passo trocado (Couto Viana ou Alpoim Calvão), inversamente, investem contra o finado Império. Em qualquer dos painéis do díptico, no retorcer, e não no recriar, da realidade histórica, constata-se a obediência geral da literatura à política, quando não a subserviência particular do escritor para com o partido, seja este a União Nacional ou o Partido Comunista. Assim, na paisagem desta escrita, postam-se em formatura dois exércitos de textos gémeos de sinal contrário, miram-se um salazarismo e um cunhalismo literários, ambos inimigos da verdade da guerra e do arduamente singelo "The way it was", de Hemingway. Com a passagem da quantidade à qualidade, a borra político-literata filtra-se em literatura, e aí Salazar e Barreirinhas Cunhal desempenham, no máximo, papéis mínimos.
Os trabalhos literários (ou de lateral intenção literária, como os do raro repórter de guerra Fernando Farinha, da «Notícias» de Angola) vindos a público antes do 25 de Abril apresentam, em geral, a seguinte constelação de características básicas: construção tradicional, sem surpresas, sem aventura; cuidadoso dicionário e obediente gramática que, em vez de se potenciarem, se desvalorizam mutuamente ao construírem prosa demasiado bem-comportada, morta; excitação guerreira que, com o capacete de ferro ideológico, faz a defesa apaixonadamente limitada do heroísmo, dos valores viris e do militarismo (Calvão, em «Contos de Guerra», escrito a meias com o antigo capelão Sérgio A. Pereira, apesar da egolatria e do desleixo técnico-literário, chega por vezes ao moralismo estóico de Tácito ou de Ernst Jünger); fogo cerrado, feito com paixão reaccionária, sobre «terroristas», «bolchevistas» e «desertores despatriados», todos atirados para o mesmo saco dos «inimigos da civilização ocidental»; afago de uma biopolítica assente na superioridade senhorial, no Herrentum, dos Portugueses e na diminuição paternal, terna, portuguesa, do negro, e daí uma hipocrisia racista que avança, não raramente, até à franca mentira (e.g., «A indiscriminação racial era um facto evidente e generalizado», «A 100.ª C.CMDS.» - A centésima companhia de comandos -, de Reis Ventura, p.50); e, por fim, um sentido hagiográfico da História de Portugal, que a endeusa até à caricatura, levando ao empolamento demente do amor pátrio e do orgulho imperial. Neste conjunto literário que, sendo instância reprodutora da ideologia do regime, atira à cabeça do leitor os valores nacional-colonialistas, os nomes a reter são Couto Viana, Pedro Homem de Melo e o primeiro Manuel Barão da Cunha, do mais inocente idealismo imperial.
 
Pela militância a favor da grandiosa e encanecida ideia imperial; refiram-se ainda o generoso crítico e grossista literário Amândio César, Fernanda de Castro, Armor Pires Mota e, em particular, Reis Ventura (nova máscara de Vasco Reis - na realidade o franciscano M. J. Reis Barroso - que, em 1934, com «Romaria», arrebata o Prémio Poesia do Secretariado de Propaganda Nacional na categoria A, deixando, aturdido, para Pessoa e a sua «Mensagem», a categoria B. O velho Ventura, um simpatizante das ideias de Lévy-Brühl sobre a mentalidade primitiva, com «Sangue no Capim», sinistramente enriquecido com fotos do «matadeiro ano 61, suku ama!», consegue o livro até hoje mais vendido acerca da guerra. (Sobre esta literatura que faz a festa da Censura e festas aos «donos da Pátria» e que, cheia de lunáticos princípios, não vê a realidade, vejam-se as recolhas «Vestiram-se os Poetas de Soldados - o Canto da Pátria em Guerra», de Rodrigo Emílio, que inclui Ruy Cinatti, Ernesto Lara Filho e Álamo de Oliveira, que mais tarde serão contra o Império, e «O Corpo da Pátria - Antologia Poética sobre a Guerra no Ultramar 1961-1971», de Pinharanda Gomes, onde comparecem Miguel Torga e Natércia Freire, por exemplo.
Com o funeral da ditadura e os enterros da organização estatal do medo - um medo mais leve que o do lento garrote franquista ou do rápido tiro na nuca soviético - e da Censura, já amarelecida em Comissão Prévia, começa a procurar público uma grande quantidade de textos para um ajuste de contas com a Guerra Colonial. Esta literatura, sustentada por uma base emocional de culpa, é, nas suas grandes linhas, autopunitiva, antimilitarista (e militarmente leigarraz) e anti-heróica. No seu horizonte, perfilam-se um nobre negro sofredor, um guerrilheiro duro de matar e um colono fagundes, lúbrico, abrutalhado e racista ( «que eles são pretos por alguma razão, algum mal hão-de ter feito!», «Nó Cego», de Carlos Vale Ferraz, aliás Carlos de Matos Gomes, p. 238); no primeiro plano, por sua vez, circula um alferes intelectual e medroso, lesma operacional em contínuas disceptações histórico-morais sobre o colonialismo e subserviente para com o negro, sendo este último aspecto uma das contrafaces perfeitas da literatura anterior, para a qual o negro mais não é que parte disciplinável da fauna africana. Esta literatura de protagonistas alferes (e mulheres de alferes, o que revela, além da pressão narcísica, autobiográfica, o fluxo geracional), com o tufão revolucionário e descolonizador pelas costas, segura com força a contraditória bula marxista, anticolonialista e pacifista, e com Aristófanes, deixa cair tópicos bélicos como a paixão das armas, o êxtase do sangue, o delírio dos massacres, «a divindade do herói» (Carlyle), «as mil mortes do cobarde» (Shakespeare), a auto-entrega das mulheres fragilizadas pelo medo ou a glória da guerra, definitivamente explicada por Homero na «lIíada», pelo que é de facto mais uma literatura de antiguerra do que uma literatura de guerra. (Para um antegosto desta massa literária que, mantendo-se no quadro da teoria, recusa parte da realidade e, deste modo, por grosso, angeliza os negros, guevariza os guerrilheiros e faz reles a terminal presença portuguesa em África, consultem-se os dois volumes, dubiamente glamorizados com fotografias, de «Os Anos da Guerra, 1961-1975. Os Portugueses em África. Crónica, Ficção e História», de João de Melo e Joaquim Vieira.)
Esta atitude de rejeição de qualquer glória e exemplaridade heróica é exactamente contrária à que domina na produção literária dos africanos lusófonos relativa à sua guerra de libertação nacional. Nestes textos, geralmente com muito pobre tecido significante e técnica literária, predomina o tom épico-libertador que aponta para um estupendo futuro comunista. Excepções a estas obras politicamente hipertrofiadas e literariamente ingénuas são, entre poucas outras, «A Vida Verdadeira de Domingos Xavier» ou «Nós, os do Maculusu», de José Luandino Vieira, «As Lágrimas e o Vento», de Manuel dos Santos Lima, «Mayombe», de Pepetela, «Angola, Angolé, Angolema», de Arlindo Barbeitos (todos romances angolanos, excepto o livro de poemas de Barbeitos), e os sete contos que compõem, «Nós Matámos o Cão Tinhoso», do moçambicano Luís Bernardo Honwana.
Outras linhas tendenciais que desenham o perfil deste corpo literário são: «Um fundo de sociopatia intelectual que encara a verdade como uma opção e a conveniência (política sobretudo) como um imperativo; o gosto pela faction, por uma ficção dobrada aos factos ( ... ); a farsa e o sarcasmo, que se alimentam principalmente da "ficção transcontinental", do "fio invisível da portugalidade" que une a gigantesca geografia colonial; uma grande carga autobiográfica que faz do exercício literário um tapar de rosto com máscara transparente ( ... ); a ideia da sem razão da guerra, do absurdo de viver entre o absurdo de matar e o absurdo de morrer; o interesse pela memória colectiva (mar, naus, oceano, praia, etc.); a obsidiante atracção, na linha de Pascoaes, pelo ser da pátria e pelo ser português (contrariamente ao poeta, com a sua ênfase na Renascença, estes autores privilegiam a narrativa da decadência); a osmose genética, que não se dá só entre a ficção e o testemunho ou a História, mas também entre a prosa e a poesia (...); a mestiçagem linguística, no rasto do Iinguajar luandino (...); o desinteresse pela estetização da violência; e, exceptuando Carlos Vale Ferraz e Alpoim Calvão, a incapacidade para a descrição convincente de situações de combate» («A Guerra Colonial e o Romance Português», de Rui de Azevedo Teixeira; Lisboa, Editorial Notícias, 1998), já que a maioria dos autores nunca, ou apenas de raspão, teve essa avassaladora e sombriamente didáctica experiência.

Dentre os autores que tematizaram a Guerra Colonial, no que toca à cardinal questão da experiência de combate, existem seis grupos: os combatentes das tropas de escol, como Vale Ferraz/Matos Gomes, comando, ferido em combate, Alpoim Calvão e Modesto Navarro, fuzileiros, ou Carmo Vicente, pára-quedista; os que combateram, como Álvaro Guerra, ferido em combate, ou Manuel Alegre, combatente e desertor; os que cumpriram a sua comissão numa das três ex-colónias continentais africanas mas não combateram, como Assis Pacheco, Lobo Antunes ou João de Melo (os dois últimos dos Serviços de Saúde, alferes médico e furriel enfermeiro, respectivamente, o que, em bom rigor, os exclui da qualidade de combatentes, uma vez que só podem ser considerados como tais os membros das forças armadas regulares e não os elementos dos «corpos auxiliares», isto é, médicos, enfermeiros, capelães, correspondentes de guerra, etc.); aqueles que, não tendo estado em África como militares, escreveram sobre a guerra, caso dos já não pertencentes à geração combatente, Namora, Sttau Monteiro ou Cardoso Pires e ainda Mário de Carvalho ou José Manuel Mendes; os que estiveram em África mas já com uma idade que lhes negava o camuflado, como Reis Ventura, Amândio César, Couto Viana, António Quadros ou Rui Knopfli; e, finalmente, o especial grupo das mulheres, com Olga Gonçalves, Maria Velho da Costa, Ângela Caires, Lídia Jorge, Joana Ruas ou Wanda Ramos (que viveu em zona operacional, no quartel de Cassamba, no Leste de Angola).
Nos seus maus, fastidiosos, momentos, a literatura da Guerra Colonial apresenta, como com charme prussiano se diz entre militares, «uma escrita mole, como se feita por doentes», veicula «ideias infantis sobre o fenómeno da guerra, ideias que os autores trazem desde pequeninos», é uma «literatura de amélias, incapaz de descrever uma sarrafusca e vergada ao turra», é um «entulho literário que quer fazer cair o leitor no conto do comunista, naquelas histórias do Marx, quando não o ameaça com a foice e o martelo» ("o martelo/ e a foice/ dão para o coice dos pinheiros bravos, os cravos/ nos dirão porquê", «Corpo de Delito», de Eusébio Cardoso Martins), ou então é crassamente protoliterária (e.g., «Miguel Várzea, Alferes e Paisano», de Carlos Urgel Dirceu, aliás o jornalista Santos Ribeiro, que, sem saber bem ao que anda, com hilariante sentido da sua própria imortalidade, dedica as penosas páginas «Aos leitores do século XXX» e ainda, por atacado, A Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Aquilino Ribeiro).
Nos seus momentos de mediania, a literatura de assalto e combate à Guerra Colonial, com uma feroz retórica de denúncia, trata como saco de pancadas o antigo regime autoritário e castigador, degrada todos os heróis portugueses em mata-cafres alucinados, embrulha qualquer guerrilheiro morto na malignidade dum assassinato e faz de qualquer episódio de entrepernas uma violação de negra. Estes traços distintivos convidam, naturalmente, a que se considere esta literatura como uma das variantes da «escola do ressentimento» (Harold Bloom), a qual, sendo maniqueia, recusa, por exemplo, a ferocidade recíproca que toda a guerra é. Obras como «Ombro, Arma!», de José Manuel Mendes, «Uma Noite na Guerra», de Carlos Coutinho, «Era Uma Vez Um Alferes», de Mário de Carvalho, «Ciclone de Setembro», de Cristóvão de Aguiar, ou a «Primeira Coluna de Napainor», de António S. Viana, carimbam esta corrente média. Alguns outros autores deste coro vociferante, que, embora ressabiado em relação à guerra, geralmente não devolve a honra aos que «fugiram para os perigosos cafés de Paris ou Amsterdão», são José Correia Tavares, António Modesto Navarro, Virgílio Alberto Vieira e Sérgio Matos Ferreira. Uma nota especial merece João de Melo, autor de «Autópsia de Um Mar de Ruínas». Com este romance de tese, apesar de uma reengenharia de três versões, nas quais vai deitando ao mar carga fora de prazo - o cabresto ideológico comunista, o francamente excessivo da denúncia («Ai mãezinha! Ai mãezinha! Foda-se o pai que me caralhou para ver isto!», p. 120), ou o fascínio por «Os Cus de Judas», de Lobo Antunes -, meio consegue, por certa força de linguagem e alguma eficácia no tratamento da categoria tempo, atingir o topo desta gama literária.

Nos seus grandes momentos, a literatura da Guerra Colonial - novo mas já tricenal capítulo da nossa literatura - dá-nos poesia como a de Couto Viana, Bação Leal, Alegre ou Assis Pacheco, o drama «Um Jeep em Segunda Mão», de Fernando Dacosta, o diário «Jornal de Campanha», de Liberto Cruz, prosa poderosa como a de Juana Ruas ou, por exemplo, o romance «Morto em Combate», de António Silveira. E é precisamente através do romance o «contragénero» (Claudio Guillén) por excelência do velho poema épico, já que é o seu melhor substituto na tematização da guerra - que este tipo de literatura entrará para o fundo permanente da literatura portuguesa. Esse velho e sempre novo tesouro será enriquecido com o lento, labiríntico e eufemizado «O Capitão Nemo e Eu» (1973), de Álvaro Guerra, com o peremptório, disfemizado, profundamente masculino e homófobo «Lugar de Massacre», de José Martins Garcia, com «Os Cus de Judas», no qual o dínamo verbal Lobo Antunes, embevecido pela patriofobia, se autofesteja mimalha e lugubremente, com o mastigado, maliciosamente sedutor e andrófilo «Percursos (do Luachimo ao Luena)», de Wanda Ramos, com o empolgante, simultaneamente testemunhal e finamente metaforizado «Nó Cego», de Carlos Vale Ferraz, com o soberbo, tangencialmente andrófobo e secantemente irónico «A Costa dos Murmúrios», de Lídia Jorge, com o machista, ávido (e privado) de heroísmo, de ilíadas, e superior fracasso «Jornada de Africa», de Manuel Alegre (onde se sacraliza Spínola, ofertando-o como o coração guerreiro e romântico da época), e com o homófilo, maduro de sensualidade e de língua «Os Navios Negreiros não Sobem o Cuando», de Domingos Lobo.
 

Estes oito romances obrigatórios, canónicos - de um cânone cujo centro deflui da ira humanista de «Lugar de Massacre», da acre verdade de «Nó Cego», do velho portuguesismo de «Jornada de Africa» e da inteligência literária de «A Costa dos Murmúrios» -, para além do sucesso estético-literário que cada um deles é, traçam ainda uma linha contínua que biografa emocionalmente a geração combatente. Essa linha emocional inicia-se com o protesto sufocado na ditadura (Guerra), passa, pouco após o 25 de Abril, pela cólera (Garcia) e o insulto catárticos (Antunes), acalma, no início da década de 1980, num remoer lúcido e já picado de saudade nostálgica (Wanda), prossegue, pensando com frieza a guerra e com sobriedade o delírio imperial (Vale Ferraz), continua, distanciando-se em ironia dessa guerra cuja sombra é cada vez mais pequena (Lídia), cicatriza a guerra e a história colonial com a lusofonia (Alegre), e, já nos anos 1990, abrindo o terceiro painel do tríptico a haver, fecha em agridoce nostalgia (Lobo), já que era a guerra mas tínhamos vinte anos.


Índice
1 - Orgulho, culpa e nostalgia